12 figuras públicas, 24 livros: leituras para o Verão (e não só)

por Comunidade Cultura e Arte,    24 Julho, 2026
12 figuras públicas, 24 livros: leituras para o Verão (e não só)
Composição de Comunidade Cultura e Arte / DR
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O Verão chegou em força. Basta olhar para os termómetros ou sair à rua. Como acontece quase todos os anos, a Comunidade Cultura e Arte publica um artigo com recomendações de leitura. Este ano, porém, decidimos fazer algo diferente: convidámos 12 figuras públicas, de diferentes áreas, a escolher dois livros e a justificar as suas escolhas. Gonçalo M. Tavares, Blessing Lumueno, Margarida Balseiro Lopes, Madalena Sá Fernandes, Ana Bárbara Pedrosa, Bruna Martiolli, Eduardo Quive, Francisca (Kika) Nazareth, Carlos Guimarães Pinto, Cláudio França, Raquel Vaz Pinto e José Teixeira aceitaram o desafio. Estas são as suas escolhas.

Escolhas de Gonçalo M. Tavares, escritor e professor universitário da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa (FMH ULisboa). Recentemente foi distinguido em Espanha com o Prémio Formentor das Letras de 2026, considerado um dos mais prestigiados da literatura internacional.

“Desejar Desobedecer”, de Didi-Huberman

É um dos grandes pensadores da história e do presente. Aconselho toda a obra de Didi-Huberman, uma boa parte dela editada na bela KKYM. “Desejar Desobedecer” faz um levantamento (e neste caso é mesmo um levantamento literal, erguer algo do chão), faz um levantamento, dizia, das infinitas maneiras de desobedecer que a humanidade foi encontrando ao longo dos tempos. As forças necessárias para as grandes revoluções, e para as micro maneiras de dizer não, estão neste livro, bem como a reflexão sobre as consequências dessas muitas desobediências necessárias. Um livro imprescindível, eu diria, em dias de nebulosa obediência ceguinha. Outro livro de Didi-Huberman, este um livro bem pequeno e bem pessoal: “Cascas” – que julgo que não está ainda editado em Portugal – pode ser um bom e íntimo companheiro deste seu irmão-livro mais robusto.

E de uma editora que já aconselho às cegas, a Cutelo Edições (quando encontrarem um livro da Cutelo, levem): “Knockemstiff” de Donald Ray Pollock, escritor americano, nascido em 1954. Contos terríveis, sim, e espantosos, sim.

Capas dos livros / DR

Escolhas de Margarida Balseiro Lopes, jurista e política portuguesa. Atualmente, desempenha a função de Ministra da Cultura, Juventude e Desporto. A nível partidário, integra ainda a Comissão Política Nacional do PSD desde 2022, e desempenhou as funções de Presidente da JSD entre 2018 e 2020.

“Nem Todas as Árvores Morrem de Pé”, de Luísa Sobral

Há livros que contam uma história e outros que conseguem transportar-nos para dentro ela. “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé”, de Luísa Sobral, está na segunda categoria com uma viagem no tempo até à Alemanha do século XX. Com o foco em duas personagens femininas que enfrentam perdas, mudanças e heranças difíceis, a autora tece uma narrativa intimista entre grandes acontecimentos históricos. A força da obra literária (a primeira da autora) revela-se na forma sensível e original como explora cada escolha, cada silêncio e a capacidade de resistir às adversidades. Recomendo a leitura a quem aprecia histórias emocionalmente complexas que nos envolvem, emocionam e surpreendem. 

Capa do livro / DR

“O Louco de Deus no Fim do Mundo”, de Javier Cercas

“O Louco de Deus no Fim do Mundo” parte de uma procura pessoal para uma reflexão de alcance universal. O espanhol Javier Cercas (que dispensa apresentações) não oferece respostas definitivas; pelo contrário, convida-nos a enfrentar questões que têm atravessado várias gerações, na fronteira entre a razão e aquilo que escapa à explicação racional. Com um olhar culto e curioso, o autor constrói uma narrativa sobre a memória e a finitude, a transcendência e a necessidade de acreditar em algo maior do que nós próprios. É uma leitura especialmente interessante para quem gosta de livros que desafiam convicções e estimulam o pensamento crítico sem cair em respostas fáceis ou previsíveis. 

Capa do livro / DR

Escolhas de Blessing Lumueno, treinador de futebol com passagens pelo Alverca, Atlético de Portugal, Estoril-Praia, SC Braga, Desportivo de Chaves e Al-Arabi (Kuwait). É ainda especialista em desenvolvimento tático e formação de jovens atletas e comentador desportivo na RTP e colunista no Expresso.

“The Once and Future Liberal”, de Mark Lilla

Este livro desmonta a ideia de que a política deve ser feita a partir de identidades e mostra como essa lógica acabou por dividir a esquerda e afastá-la do eleitor comum. Em vez de falar para grupos, Lilla defende uma política que volte a falar para cidadãos. Concorde-se ou não com ele, é um livro muito interessante para quem quer perceber porque é que as políticas identitárias ganharam tanto peso e algumas das consequências dessa mudança. Não me revejo totalmente em toda a retórica do livro, mas obrigou-me a pensar mais à fundo sobre o tema.

Capa do livro / DR

“O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde

Obriga-nos a confrontar uma verdade desconfortável: quando a aparência vale mais do que o caráter, a degradação é inevitável. Wilde desmonta a vaidade, o culto da imagem e a ilusão de que é possível viver sem consequências. Um clássico que continua atual porque o ser humano mudou muito menos do que gosta de admitir. É um daqueles livros que não dá respostas fáceis, mas faz as perguntas certas. E, por isso mesmo, continua a incomodar, a inquietar, quem o lê mais de um século depois.

Capa do livro / DR

Escolhas de Ana Barbara Pedrosa, escritora e finalista do Prémio Eça de Queiroz em 2021. É cronista no Expresso e Mensagem de Lisboa, comentadora na SIC Notícias e faz ainda crítica literária no Observador. A nível de formação é doutorada em Ciências Humanas, mestre em Estudos Portugueses, pós-graduada em Linguística e em Economia e Políticas Públicas e licenciada em Línguas Aplicadas.

“As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck

Um dos grandes romances da minha vida, escrito por um dos grandes escritores da minha vida. Steinbeck tem tudo, e As Vinhas da Ira não deixa nada de lado. O livro espreitava-me da estante da livraria do meu avô, e eu via-o piscar-me o olho por ter uma lombada mais grossa do que os outros. Quando soube que, lá dentro, estava a crise de 1929, atirei-me, uma vez que se debruçava sobre um assunto que estava a estudar na escola. As planícies do Texas e do Oklahoma assoladas por poeira têm no leitor um efeito sufocante, e o enredo é a vida a acontecer quando a terra não facilita: meio milhão de pessoas procurou êxodo, rumando à Califórnia em busca de trabalho e pão, num momento em que um desastre ecológico só veio agravar a Grande Depressão.

Capa do livro / DR

“Os enamoramentos”, de Javier Marías

Marías é tão intenso e escreve tão loucamente bem que, depois do primeiro capítulo, tive de fazer uma pausa para me recompor. Li-o há onze anos e não mais voltei a pegar-lhe, mas ainda recordo aquela sensação de abalo, de não ter atingido, até então, que se podia fazer aquilo com o romance – pegar na vida como bolas de malabarismo e brincar até criar uma engrenagem. O enamoramento aparece como justificação para os actos, sejam nobres ou vis, e a narrativa, como se verifica noutros romances do autor – por exemplo, Berla Isla e Tomás Nevinson –, é uma viagem pela incerteza. Marías é o escritor da dúvida, escreve sobre os silêncios, preenche-os dentro das cabeças das personagens, deixa-as viver dentro de maquinações. O leitor tenta ver de cima, mas dá por si lá dentro, a patinar como um fantoche.

Capa do livro / DR

Escolhas de Bruna Martiolli, professora, criadora de conteúdos para as redes sociais e estudante de doutoramento em Estudos Literários, Culturais e Interartes na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP)

As Estações da Vida”, de Agustina Bessa-Luís

Escolho este livro porque me lembra que a vida tem ritmos próprios e que nem tudo se conquista na velocidade a que o mundo atual nos habituou. Num tempo marcado pela urgência permanente, é um convite a desacelerar, a aceitar as diferentes estações da existência e a encontrar valor no tempo, na maturação e na contemplação. Ainda apresenta um plano cultural pelo norte de Portugal e Agustina consegue nos fazer ver aquilo que não está diante dos nossos olhos. 

Capa do livro / DR

Na Casa da Minha Mãe”, de Anabela Mota Ribeiro

Este livro é um exercício de escuta e de descoberta. Através das conversas e dos espaços íntimos que revela, recorda-nos que compreender os outros é também uma forma de nos desvendarmos a nós próprios. É um livro que nos convida à introspeção e à procura de uma identidade mais consciente. Anabela nos faz um convite íntimo, duro, mas real. 

Capa do livro / DR

Escolhas de Eduardo Quive, jornalista e escritor moçambicano. Escreve ensaios, crónicas e livros que exploram memória, identidade e cultura. É autor de “Para onde foram os vivos” (poesia), “Mutiladas” (contos) e “A Cor da Tua Sombra” (romance).

“Glória”, de NoViolet Bulawayo

E se os animais governassem um país africano? E se Cavalos, Cães, Gatos, Burros e Porcos falassem exactamente como muitos dos políticos que conhecemos?

É deste desconforto que nasce “Glória”, um dos romances africanos mais ousados dos últimos anos. Inspirando-se na tradição da fábula, NoViolet Bulawayo constrói um país fictício que se parece demasiado com muitos países reais. Os heróis da libertação transformam-se em donos eternos do poder, as religiões confundem-se com a política e instala-se uma realidade onde todos reconhecemos alguém, embora ninguém seja nomeado.
O fascínio do romance está dizer o indizível sem nunca abandonar a imaginação. É como se enxergássemos nos olhos do outro o caos e a encruzilhada em que estamos envolvidos, cúmplices até, às vezes.

Capa do livro / DR

Narração Noturna”, de João Paulo Borges Coelho

“Narração Noturna” leva-nos ao vale do Zambeze, Moçambique, no início do século XX, quando o conhecimento do território era tão valioso quanto qualquer exército. A partir da missão de um homem que conhece aquela região como ninguém, o romance transforma-se numa extraordinária viagem pela história, pela geografia e pelas disputas que moldaram o centro de Moçambique.

Portugal, Inglaterra e Alemanha cruzam interesses num espaço onde o verdadeiro poder pertence, muitas vezes, a quem conhece os caminhos invisíveis da terra. Enquanto isso, somos chamados a testemunhar a decadência do narrador, o que será um elemento catalisador para continuarmos envolvidos na jornada.

Num tempo em que tantas narrativas simplificam a história ou a distorcem, a ficção revela-se uma poderosa forma de compreender a complexidade dos lugares, das pessoas e do poder.

Capa do livro / DR

Escolhas de Francisca (Kika) Nazareth, jogadora de futebol. Estreou-se na equipa principal do Benfica aos 16 anos, onde foi várias vezes campeã nacional, e transferiu-se em 2024 para o Barcelona, naquela que foi a transferência mais cara da história do futebol feminino português. Já representou a Seleção Nacional mais de 70 vezes, tendo apenas 23 anos.

“No Teu Deserto”, de Miguel Sousa Tavares

Há livros que nos entretêm. E há livros que nos ensinam outra forma de olhar para a vida. Sou muito intensa. Nunca gostei de despedidas. Sempre achei estranho que as pessoas pudessem partir, seja de que forma for. Apenas deixar de fazer parte da nossa vida. Nunca percebi como é que alguém que ocupou tanto espaço em mim podia, de um dia para o outro, deixar de ocupar espaço nos meus dias. Durante muito tempo, isso pareceu-me profundamente injusto.

Sempre acreditei que quem nos toca verdadeiramente deve ficar para sempre. De uma forma palpável. Se calhar, sempre estive certa, da forma errada.

Aprendi com este livro que há pessoas que passam por nós durante muito pouco tempo e, ainda assim, permanecem para sempre. Que o amor não se mede pela duração, mas pela profundidade da marca que deixa. É um livro que fala da ausência sem fazer dela apenas dor. Transforma a saudade numa forma de continuidade, como se quem amamos nunca desaparecesse verdadeiramente.

Capa do livro / DR

“Sputnik, Meu Amor”, de Haruki Murakami

O que mais gosto neste livro é tudo aquilo que ele escolhe não dizer. Não explica tudo. Não fecha todas as histórias. Não resolve todas as perguntas.

Murakami escreve sobre personagens que procuram desesperadamente um lugar onde pertençam, alguém que as compreenda, uma resposta que talvez nunca exista. E, de alguma forma, essa procura é profundamente humana.

“Sputnik, Meu Amor” fez-me perceber coisas que já desconfiava; que nem todas as histórias precisam de um desfecho para terem significado e que nem todos os amores existem para ser correspondidos ou vividos. É um livro silencioso, melancólico e bonito. Não oferece certezas. Oferece espaço para pensar.

Com estes dois livros percebi que escolhi duas formas diferentes de falar da mesma coisa. Da saudade. Da procura. Das pessoas que chegam sem avisar e mudam qualquer coisa em nós. Os dois lembram-me que nem tudo o que é importante fica para sempre e que as coisas mais bonitas raramente se conseguem explicar. Apenas sentir. E talvez seja isso que um grande livro faz: não nos diz quem somos, nem como pensamos ou como devemos pensar. Ajuda-nos, devagar, a descobrir.

Capa do livro / DR

Escolhas de Madalena Sá Fernandes, escritora portuguesa. Nasceu em Lisboa, em 1993 e licenciou-se em Línguas, Literaturas e Culturas pela Universidade Nova de Lisboa. Escreve crónicas no jornal Público. 

“Breve História da Sombra”, de Victor I. Stoichita

Recomendo a “Breve História da Sombra”. É uma escolha apropriada para o Verão que é, por excelência, a estação em que a luz se torna mais intensa e, consequentemente, as sombras se tornam mais nítidas.
Este ensaio demonstra a forma como um elemento aparentemente secundário pode conter toda uma história da cultura visual ocidental. Stoichita acompanha a sombra desde a célebre narrativa de Plínio, na qual uma jovem contorna na parede a silhueta do homem amado antes da sua partida, até à pintura moderna, à fotografia e ao cinema. Ao longo deste percurso, a sombra surge sucessivamente como vestígio, duplo, ameaça, memória e prova paradoxal de uma presença.
O livro convida-nos a pensar a sombra como aquilo que a luz produz sem conseguir inteiramente dominar. Lê-se como uma história da arte, mas também como uma meditação subtil sobre a identidade, a alteridade e a perda.
Depois desta leitura, passamos a ver uma sombra projectada num muro como uma pequena cena filosófica.

Capa do livro / DR

“Homens nas Horas vagas”, de Anne Carson

Recomendo “Homens nas Horas Vagas” porque Anne Carson transforma o tempo livre num laboratório de inteligência poética, onde os clássicos e o presente se iluminam mutuamente.
O título do livro é sugestivo e apropriado para uma leitura de Verão, o tempo das horas vagas. O intervalo em que o pensamento se liberta das obrigações utilitárias e recupera a capacidade de estabelecer relações imprevistas. É um livro que pode ser lido de modo descontínuo, permitindo que cada fragmento permaneça algum tempo na memória.
Anne Carson mostra-nos que os clássicos continuam vivos porque podem ser deslocados, interrogados e postos em contacto com as inquietações do presente.

Capa do livro / DR

Escolhas de Cláudio França, jornalista e pivot de informação na SIC Notícias. Nasceu nas Caldas da Rainha, foi o primeiro da família a nascer em Portugal, a restante nasceu em Angola, e foi jogador de râguebi.

“Jaime Bunda, Agente Secreto”, de Pepetela

À primeira vista, há um escritor que sobressai na minha humilde estante: Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, que todos conhecemos por Pepetela.

O pormenor e o detalhe da descrição dos lugares, costumes e personagens têm a capacidade de me transportar para Angola. 

A capacidade de me transportar para a azáfama de Luanda, cidade da família da parte da minha mãe, ou para Benguela, a cidade costeira das Acácias Rubras, terra natal da família do lado do meu pai.

É isto que procuro quando leio Pepetela e foi o que encontrei quando li “Jaime Bunda, Agente Secreto” há cerca de 6 anos, se a memória não me falha.

Uma sátira sobre a história de um detetive de segunda linha que investiga a violação e a morte de uma adolescente, na cidade de Luanda, e depara-se com outros crimes ao longo da investigação.

Os métodos da investigação são realmente particulares e extraordinários porque incorporam muito do que é a cultura e a vivência angolana. No entanto, o que me fascinou foi a capacidade de, através da descrição, conseguir transportar-me, por exemplo, para o Mercado do Roque Santeiro, ou os restaurantes da orla marítima da Baía de Luanda, que só uma parte da população frequenta, os bares onde povo se diverte, as praias onde os pescadores vendem o peixe e ainda o cenário dos bairros nobres e dos musseques.

Através da crítica política, por vezes subentendida, de hábitos enraizados e memórias de guerra de personagens, Pepetela conta-me, nas suas obras, o que vou descobrindo em conversas de família ou em viagens a Angola.

“Jaime Bunda, Agente Secreto”, que o meu tio deixou no sótão da minha avó, junto de outras obras, quando voltou a emigrar, despertou a minha atenção pelo autógrafo de Pepetela, pela ilustração da capa e por este possível James Bond Angolano.

Capa do livro / DR

Lampedusa. Ir e não chegar”, de Ana França

O segundo livro é de uma colega de profissão e de “casa”. “Lampedusa. Ir e não voltar”, da Ana França do Expresso.

Lampedusa, a ilha italiana, no Mediterrâneo, que é o primeiro ponto de território europeu para milhares de migrantes que tentam alcançar o sonho da liberdade, mas que passam pelas tormentas para o alcançar.

A proximidade com o Norte de África faz da ilha um dos principais pontos de rotas de tráfico humano.

Partimos com a referência do naufrágio (o mais trágico) de um barco com cerca de 500 pessoas, em que morreram 366, em outubro de 2013 e ficamos a conhecer duas figuras centrais: um sobrevivente e o irmão de um passageiro que morreu. 

A Ana descreve-nos em detalhe uma realidade que ouvimos com a distância que muitas vezes a televisão nos dá: rotas de tráfico bem estabelecidas, viagens aterradoras em terra e em mar, salvamentos e todas as suas condicionantes, centros de acolhimento sobrelotados, ou políticas europeias de migração e os seus personagens tendo em conta o espectro e a sociedade polarizada. 

Mas a Ana também nos dá a conhecer uma ilha, o povo e os costumes enraizados.

Capa do livro / DR

Escolhas de Raquel Vaz Pinto, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) da Universidade Nova de Lisboa e professora associada convidada da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas desta Universidade, onde leciona Estudos Asiáticos e História das Relações Internacionais. É analista residente de política internacional da SIC Notícias.

Ando a reler o último livro do Walter Russell Mead intitulado “The Arc of a Covenant, The United States, Israel and the Fate of the Jewish People” e editado pela Alfred Knopf em 2022.

Decidi reler este livro tendo em conta a Guerra levada a cabo pelos EUA e Israel contra o Irão a partir do final de Fevereiro de 2026. Este livro é muito útil por três razões. Em primeiro lugar, faz uma excelente fotografia da evolução da relação bilateral entre os EUA e Israel ao longo da história e, deste modo, confronta algumas ideias feitas e preconceitos importantes. Em segundo lugar, permite-nos compreender o quão diferente é Israel governado por Netanyahu de governos anteriores tais como o de Golda Meir, entre outros, e como esta mudança socioeconómica é crucial para percebermos o seu papel na região. Por último, Walter Russell Mead explica de uma forma muito profunda e, ao mesmo tempo, simples a instrumentalização e/ou a convicção dos norte-americanos que apoiam Israel nos EUA e, em particular, a sua relação com a Administração Trump.

Capa do livro / DR

A minha segunda recomendação é o livro do Francisco Pereira Coutinho intitulado [recorda a entrevista] “Guerra, Mentiras e Direito Internacional, 46 questões sobre a agressão russa à Ucrânia” editado pela Zigurate em 2026. O Francisco Pereira Coutinho escreveu um livro muito pedagógico sobre a guerra mais importante na/para a Europa e consegue o mais difícil: escrever de forma simples e acessível para todos. O título e subtítulo dizem tudo sobre o que encontramos neste livro. Por último, para explicar alguns dos pontos o Francisco recorreu a mapas que são, para mim, a “cereja no topo do bolo”. Vale mesmo muito a pena ler este livro.

Capa do livro / DR

Escolhas de Carlos Guimarães Pinto, economista, autor, professor universitário e político. Foi o 2.º presidente da Iniciativa Liberal, cargo que abandonou em 2019, e foi eleito deputado à Assembleia da República nas Eleições Legislativas de 2022, pelo círculo eleitoral do distrito do Porto, cargo que ainda hoje ocupa.

Quando me desafiaram a escolher dois livros, decidi imediatamente escolher um de ficção e outro de não ficção. Os dois complementam-se. Até porque os bons livros de ficção nos ensinam muito sobre a realidade e os bons livros de não ficção revelam-nos realidades que, até os lermos, ainda eram ficção.

Escolhi dois que me marcaram. Sei que isto é uma frase feita quando se fala de livros, mas neste caso aplica-se mesmo. Li-os várias vezes (algo que raramente faço com outros livros), mas, mais importante, penso neles várias vezes. Um é um romance decadente de finais do século XIX. O outro é um tratado de biologia evolutiva dos anos setenta. E, no entanto, quando os ponho lado a lado, percebo que ambos tentam responder à mesma pergunta: de que é feito um ser humano?

“O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde

Conta a história de um jovem que consegue manter-se jovem e bonito, passando para o seu retrato todo o peso do envelhecimento e das suas decisões de vida. Dorian entrega-se a uma vida de prazer, egoísmo e manipulação, sem que o mundo veja as marcas físicas dos seus pecados. Apesar de ele continuar fisicamente intacto ao longo dos anos, o retrato escondido no sótão começa a mostrar os sinais da degradação moral do retratado: torna-se cruel, feio e corrompido. Num dos episódios mais duros, ele rejeita Sibyl (por quem se tinha apaixonado antes) no exato momento em que ela se apaixona também e perde a sua capacidade de representar. O comportamento típico de sociopatas que buscam objetos de desejo como quem busca troféus, que uma vez conquistados deixam de ter valor. Como se corresponder ao amor fosse sinal de inferioridade. Como se uma pessoa pudesse ser resumida num único talento. (spoiler alert) É ela quem se suicida com o desgosto, mas é a alma dele que começa a morrer naquele momento, mesmo que só o retrato no sótão o reflita. O corpo, pelo contrário, segue, jovem, bonito e arrogante como se nada tivesse acontecido.

Capa do livro / DR

“O Retrato de Dorian Gray” foi escrito antes das redes sociais, mas parece escrito sobre estes tempos. Wilde antecipou, com mais de um século de avanço, a angústia de quem separa aquilo que mostra aos outros daquilo que realmente é. O rosto que as outras pessoas veem não muda, mas o peso dessas escolhas vai caindo na pessoa que as redes sociais não veem, na cara sem filtros, na alma decadente que não se vê na pose das fotos.

Mas o que arrepia em Dorian não é ele esconder o retrato. É ele vê-lo recorrentemente. Sobe ao sótão, contempla a própria degradação e desce sem mudar de vida. Sabe exatamente o que se está a tornar, e essa consciência não o impede de continuar. Ter lido “O Retrato de Dorian Gray” permite-me hoje olhar com pena para muitos que são vistos com admiração ou temor. Sei que algures no sótão dessas pessoas está um retrato a deteriorar-se depressa por todos os sacrifícios morais que fizeram para serem admirados ou temidos. Um dia irão olhar para o retrato no sótão e perceber que já não o conseguem destruir sem que isso os destrua a si mesmos. Tal como Dorian.

“O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins

Se Wilde nos obriga a olhar para dentro, Dawkins obriga-nos a olhar para trás, muito para trás, para lá da história, para lá da própria humanidade, até àquele momento improvável em que uma molécula aprendeu a copiar-se a si mesma. Poucos livros mudaram tão profundamente a forma como olho para o mundo, a sociedade e a própria natureza humana. Poucos livros explicam tanta coisa à nossa volta. Depois de perceber “O Gene Egoísta”, custa voltar a pensar de outra maneira.

De repente, o altruísmo, o amor, o sacrifício pelos filhos, a lealdade ao grupo encaixam num mecanismo mais vasto do que qualquer explicação que me tivessem oferecido antes. O amor de uma mãe pelo filho deixa de ser um decreto sentimental e passa a ser a expressão de uma pressão evolutiva de milhões de anos.

“O Gene Egoísta” revela também o quão iguais os seres humanos são na sua essência. Somos todos veículos de genes que procuram sobreviver e reproduzir-se, com os mesmos instintos, desejos e ambições de base. Todos tão parecidos que as diferenças que alguns veem como grandes (como a melanina na pele ou o formato dos olhos) não passam de ínfimas partes no conjunto que faz de nós seres humanos. Pequenas adaptações ao ambiente que não mudam nada na essência de cada pessoa.

Capa do livro / DR

Dawkins ajuda-nos ainda a perceber a improbabilidade absurda de estarmos aqui. Somos o resultado de uma cadeia infinita de acasos, cópias e sobrevivências que tiveram de acontecer para que eu esteja a escrever isto e alguém esteja a lê-lo. Vivemos num universo que não nos deve nada, que não foi feito a pensar em nós, e ainda assim aqui estamos, capazes de o contemplar, de escrever e ler sobre ele. Sendo um livro científico, é também uma das mais comoventes histórias sobre o que significa estar vivo. E sobre o quanto devemos desfrutá-lo enquanto temos a oportunidade.

Lidos em conjunto, estes dois livros dizem-nos algo importante sobre a condição humana. “O Retrato de Dorian Gray” lembra-nos que a alma que tentamos esconder acaba sempre por encontrar uma forma de aparecer. “O Gene Egoísta” explica-nos de forma fria porque somos como somos, eliminando visões excessivamente românticas sobre a existência humana.

Somos aparência e biologia, vaidade e instinto, liberdade e condicionamento. Somos animais que por terem desenvolvido consciência, de forma inconsciente, querem ser mais do que animais. Somos corpos passageiros de genes que se multiplicam, mas com uma alma única e irrepetível que se conserva ou degenera consoante as nossas opções. Os genes ficam e multiplicam-se para lá de nós. Já alma será para sempre aquilo que tivermos feito dela. Irreversivelmente.

Talvez por isso estes dois livros tenham ficado comigo. Wilde ensinou-me a desconfiar da beleza quando ela é só superficial. Dawkins permite perdoar-me por, de vez em quando, me apaixonar pelo superficial (está-nos nos genes). Ambos, à sua maneira, obrigam-nos a olhar para um espelho.

Se há uma lição comum, talvez seja esta: não escolhemos tudo aquilo que somos, os nossos instintos imediatos, mas somos responsáveis pela forma como lidamos com eles. Podemos ser atravessados pela vaidade, pela luxúria, pelo desejo, pelo medo e pelo egoísmo. Está na nossa herança genética. Mas também podemos conhecer essas forças, dar-lhes nome, resistir-lhes, transformá-las em arte, em pensamento, em amor ou em decência. Podemos, enfim, moldar ou destruir a nossa alma. E arcar com as consequências dessa opção.

Escolhas de José Teixeira, presidente do Conselho de Administração do grupo bracarense de construção DST. Implementou no dstgroup uma cultura organizacional que inclui o incentivo à leitura, aulas de filosofia e o acesso a exposições. Recentemente, a construtora criou o Muzeu – Pensamento e Arte Contemporânea, em Braga, que visa a promoção do pensamento crítico e o ativismo social através da arte contemporânea, da filosofia e do debate.

“Deus, a Morte e o Tempo”, de Emmanuel Levinas

Trata-se de um livro de lições, de pequenas e enormes lições. Escolhi esta sexta-feira, 6 de fevereiro de 1976, em lugar de outras lições dadas à sexta-feira.

Não escolho pela Idolatria nem pela Secularização, que tem sido tema abundantemente debatido nas nossas aulas e reuniões e, também, nesta série. Escolhi esta sexta-feira não pela Sexta-feira ou os limbos do Pacífico de Michel Tournier. Um livro que marcou a minha jovem e, breve, juventude, numa história em que fiquei do lado do bom selvagem, de Sexta-Feira resistindo à colonização. Escolho esta lição, e gostava que lessem outras. Que lessem O mesmo e o outro. Que lessem Kant e o Ideal Transcendenta . Que lessem A subjetividade ética. Que lessem D. Quixote, o enfeitiçamento e a fome. Que lessem A subjetividade como An-Arquia. E que lessem, pelo menos a sexta-feira de 27 de fevereiro de 1976 a lição Liberdade e Responsabilidade. Quase que queria tudo, que lessem todas as lições e acho que sim, que alguns se vão interessar, como me chegam amiúde notícias de sim por este tipo de convocatória.

A escolha, a verdadeira escolha desta sexta-feira, 6 de fevereiro de 1976, prende-se com uma palavra que não me larga e que anda, a par de outra, a de transcendência, a estremecer na minha cabeça. A palavra Espanto. Escolhi esta sexta-feira, nesta sexta-feira, por causa da intensidade e da necessidade de nos espantarmos. Da falta que nos faz a capacidade de nos espantarmos. Do trabalho que temos de fazer, para nos espantarmos. Da educação cultural, para olharmos e o olhar nos saltar dos olhos e nos assaltar o coração de espanto e contemplação. As palavras contam.

Capa do livro / DR

“Sexta-feira ou os Limbos do Pacífico”, de Michel Tournier.

Voltei a este livro, que o tempo não venceu, física e socialmente, porque a Centésima Página [livraria de Braga] me convidou para fazer parte de um conjunto de leitores que escolhem um livro para a biblioteca que abrirá daqui a 150 anos.

Muitos livros me passaram entre as mãos e os olhos e me fizeram sair para procurar o entendimento do Homem na sua enorme complexidade.

Há um livro da minha vida, de um autor estrangeiro e outro de um autor nacional — porque não consigo escolher entre eles e, assim, dividi entre portugueses e estrangeiros —, e consegui meter a “Conversa na Catedral”, de Mario Vargas Llosa, e “Mau Tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio, na lista do livro da minha vida. É como se um mais um fossem três, que, na realidade, são. Um livro. Outro livro. Os dois livros. São três.

“Sexta-feira ou os Limbos do Pacífico” está em todas as listas de livros que recomendo ler e está na minha lista para o Plano Nacional de Leitura — quando escolhi um livro por dia, durante um mês.

Para a biblioteca do futuro escolhi este livro, que é da mesma natureza dos outros dois livros da minha vida, exatamente por caraterizar, sociologicamente, a biologia e a sociologia do Homem — o princípio original do Homem ocidental quando sai do útero e antes da contaminação, pela forma como a sociedade se organizou.

A partir de Lima, vemos toda a antropologia do Peru; como, a partir do Faial e do Pico, toda a natureza social dos Açores.

Posso dizer que este livro, lido nos meus 18 anos, fez parte da construção da minha “história do futuro”. Nunca tinha lido nada que me mostrasse, ao espelho, a natureza humana e os seus princípios egoístas, protecionistas, interessados, quase nada independentes e quase sempre parciais no juízo lógico, estético e prático da hierarquia dos filhos, da família, dos amigos, da cidade, do país e dos heróis dos outros países.

Capa do livro / DR

Na mesma altura li “Assim Falou Zaratustra”, de um autor que nunca mais abandonei — Nietzsche. Num e noutro, com Sexta-feira, o “bom selvagem”, e o poeta Zaratustra, sonhei com a possibilidade de contrariar uma certa natureza humana utilitarista, racional, individual e proprietária. Nunca mais deixei de trabalhar este sonho. Todos os anos me aperfeiçoo a partir deste sonho que sonho há muitos anos.

Michel Tournier reconheceu dois mestres: Nietzsche e Lévi-Strauss. Não é indiferente nem inocente esta minha comparação entre os dois personagens — Zaratustra e Sexta-feira. A ordem original puritana de Robinson sofre uma metamorfose, assim como Zaratustra se sente liberto da lei que amarra o Homem à escuridão da caverna.

O riso de “Sexta-feira”, riso puro e livre, representa o dionisíaco de Zaratustra.

A passagem de Robinson da posse e da ideia de proprietário — quando muralha a ilha e cria todas as instituições para a poder governar, quando organiza, mede, divide, se apropria — para o mundo da relação com Sexta-feira, com os animais, com a natureza e com a pureza, tem paralelo em Nietzsche com a “Morte de Deus” e a valoração da ciência.

Zaratustra e a sua poesia aforista, e Sexta-feira, com o riso que seria como o que descreve Bergson. Um e outro personagem cumprem e desempenham papéis de mediadores na ilha.

A primeira “cerca”, a apropriação de tudo o que na ilha existia, corresponde ao homo economicus. O homem, Robinson, é psicologicamente mais primitivo do que o nativo. Tem como princípio a utilidade, dá nomes às coisas e às instituições, classifica animais e cria horários — está, afinal, a criar na ilha a burguesia social. Quem faz a cerca fica preso na cerca. O nativo ri e não tem cercas, e menos fronteiras na sua alma e na sua cabeça. Há uma força vital natural. Há uma ginga de corpo e de espírito em Sexta-feira, como em Zaratustra, que encarna o profeta, o poeta, o “além-do homem”, para lá dos códigos morais, perante a decadência do ser domesticado, racional e preso a normas sociais.

Sexta-feira liberta o dominador e os princípios artificiais de domínio da natureza. Liberta o ocidental da condição de posse. Robinson, ao cercar, fica refém da cerca, fica preso e só é libertado pelo selvagem natural e pela sua desconcertante forma de viver. Sexta-feira, corretor social natural, liberta-o do limbo, da estagnação, e permite o renascimento do Homem inicial – do Homem que ainda não foi vergado pela sociedade de consumo. Proporciona a passagem do “eu” para o “nós” cósmico e interrompe a fase da domesticação da natureza.

Speranza é um laboratório social que termina com a fidelidade de Robinson à terra, comprovada depois de a possibilidade do resgate da ilha lhe ter sido proporcionada quase três décadas depois, por William Hunter, comandante da escuna Whitebird.

A convivência breve com o comandante fez ver a diferença na vida real para a vida que parecia ficcionada de Speranza.

“No entanto, o que mais lhe repugnava não era tanto a brutalidade, o ódio e a ganância que estes homens civilizados e altamente honoráveis demonstravam com inocente tranquilidade. Ficava sempre a possibilidade de imaginar – e sem dúvida seria fácil encontrar – outros homens que no lugar destes, fossem amáveis, indulgentes e generosos. Para Robinson, o mal era bem mais profundo. No seu íntimo reconhecia-o na irremediável relatividade dos fins que os via a todos perseguir febrilmente. Pois o que todos tinham como objetivo era tal aquisição, tal riqueza, esta satisfação? … E Robinson imaginava, sem cessar, o diálogo que certamente acabaria por o confrontar com um destes homens, o comandante por exemplo: ‘Porque vives tu’?”

Fiquei feliz, na altura em que li o livro, pela possibilidade da metamorfose do Robinson, como, muitos anos depois, encontrei na “Metamorfose Necessária”, de Tolentino, o melhor caminho para a libertação espiritual, para a libertação depois da decadência moral.

Nunca mais abandonei este livro e está sempre nas minhas recomendações de leitura. O final é belo e, outra vez, de enorme complexidade. Sexta-feira parte com o barco, e o rapaz, que era maltratado pela tripulação, recomeça a sua liberdade pela mão de Robinson, que lhe dá o nome de “Quinta-feira”. “Quinta-feira” substitui Sexta-feira.

Espero que o livro que me marca ainda continue mais vivo daqui a 150 anos.

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