“1977”: o primeiro grito dos The Clash

por Manuel Neves,    16 Abril, 2026
“1977”: o primeiro grito dos The Clash
Fotografia via IMDB

Há discos que se recusam a envelhecer. O álbum epónimo com que os The Clash ou “The Only Band That Matters”, se estrearam no estúdio, editado a 8 de abril de 1977, é um desses casos. Passados 49 anos, a mensagem das letras de Joe Strummer e Mick Jones permanece surpreendentemente atual, como se oferecesse conselhos, ou advertências, às novas gerações de artistas e ouvintes.

No final da década de 70, o Reino Unido enfrentava uma profunda crise social e política, marcada pelo elevado desemprego, inflação, conflitos policiais, greves em massa e instabilidade governativa. Este clima de insatisfação gerou espaço para propostas radicais, facilitando a ascensão de Margaret Thatcher e a sua vitória nas eleições de 1979.

No meio deste contexto turbulento, o movimento punk rock em Londres ganhou força. Bandas como os The Clash destacaram-se ao dar voz a esse mal-estar social, refletindo e antecipando, nas suas músicas, os conflitos que marcariam o Reino Unido e o mundo nos anos seguintes.

O concerto de apresentação do primeiro álbum deu-se a 11 de março de 1977, no Harlesden Coliseum, em Londres, e trouxe várias canções totalmente novas no reportório da banda, incluindo “White Riot” e “1977”, escritas após os acontecimentos do Carnaval de Notting Hill de 1976, quando houve confrontos entre a polícia e a população local, maioritariamente de origem jamaicana.

O espetáculo iniciou-se com “London Burning”, seguido de “1977”. Esta última, conhecida por ser o lado B de “White Riot”, evidencia a ousadia lírica da banda e a busca por uma renovação emergente em Londres. A frase “No Elvis, Beatles, or The Rolling Stones” sugere que esses ícones do passado já não tinham relevância em 1977, e que o contexto da época exigia canções mais carregadas de reivindicação.

Quando o álbum saiu, a 8 de abril, alcançou números consideráveis nas tabelas, surgindo assim os primeiros sinais de que a mensagem dos The Clash estava a chegar aos jovens.

Visto hoje, o álbum funciona como um documento histórico de uma época. Muitas das inquietações que nele se exprimem, precariedade laboral (“Career Opportunities”), guerra (“Hate & War”), dificuldades de acesso a uma vida melhor e brutalidade policial (“Police & Thieves”), continuam a repercutir-se no presente, embora com agentes diferentes. 

Talvez “Remote Control” resuma toda a filosofia por detrás da realidade da época e da atualidade, só quem tinha dinheiro era considerado útil, quem não tinha era inútil para o grande capital. “You got no money”, “So you got no power”, “They think you’re useless”. É aqui que entra o espírito punk de aproximação aos jovens que estavam a ser esquecidos por não se enquadrarem nesse padrão. Os The Clash respondiam, com um gesto de acolhimento ao movimento: “an’so you are-puuuuuuunnnk!”

Entre os anos 70 e 80, muitos jamaicanos afixaram-se em Londres e, com a emergência do punk à época, Camden tornou-se um centro da música alternativa, onde diferentes culturas se cruzavam. Foi nesse contexto que os The Clash, ao testemunharem os acontecimentos de Notting Hill, escreveram “White Riot” e “1977”. Incluíram também “Police & Thieves”, cover de um tema original de Junior Murvin.

Embora já tenha abordado o álbum Sandinista! noutro artigo, “O punk e Joe Strummer, Joe Strummer e o punk!”, nunca é demais sublinhar que todos os álbuns da banda partilham o compromisso de usar a música como veículo de consciência social. O uso do tema do músico jamaicano terá tido esse propósito, pois, mesmo separados por milhares de quilómetros, as realidades tinham paralelos.

A conclusão só poderia ser como o álbum termina, com “Garageland”. A garagem surge como um espaço de resistência, longe das pressões da indústria musical, “People ringing up making offers for my life/ But i just wanna stayin the garage all night”, e do oportunismo, onde genuíno e autêntico se tornam palavras-chave, “We’re a garage band/ We come from garageland”.

Quase cinco décadas depois, num cenário dominado por métricas e fórmulas pré-fabricadas, a garagem deixa de ser apenas um espaço físico e transforma-se num símbolo de resistência.

Por tudo isso, o legado atual dos The Clash não se pode limitar à nostalgia. Não é apenas um disco a revisitar, é uma notificação de que a música pode, e deve, ser um espaço de confronto, ceticismo e incómodo.

“Hate and war/ the only things we got today”, em 2026. Talvez em 2126 essa realidade continue atual. Até lá, resta-nos seguir o imperativo de Strummer: sermos autênticos, céticos e, acima de tudo, verdadeiros.

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.