82.ª Biennale de Veneza: os mortos não morrem

por José Paiva Capucho,    7 Setembro, 2025
82.ª Biennale de Veneza: os mortos não morrem
“Father Mother Sister Brother”, filme de

José Paiva Capucho esteve na 82.ª Biennale de Veneza.

Seria bom, não era? Roubamos o título à última longa-metragem de Jim Jarmusch, o seu take sobre o universo dos zombies, para falar da 82.ª edição da Biennale de Veneza, rampa de lançamento para os Óscares, feira de vaidades da sétima arte, um dos últimos redutos, à beira mar plantado, onde o cinema pode ser mais do que pipoca. É que o realizador norte-americano, para surpresa de muitos porque ninguém sabia bem o que andava a fazer, saiu com o Leão de Ouro impresso no seu “Father Mother Sister Brother”, comédia em três sketchs sobre os silêncios e as complexidades das pequenas famílias. Jarmush nunca tinha estado no Lido, mas não se acreditava que pudesse estrear-se com tanto impacto.

Já a realizadora tunisina de “The Voice of Hind Rajab”, Kaouther Ben Hania, que ganhou o Leão de Prata, que causou um estrondo monumental no festival, ovações de mais de 20 minutos na Sala Grande, e que viu o filme tornar-se em (mais um) símbolo do genocídio contra Gaza, não chegou, para desilusão de muitos, ao primeiro lugar. O filme pega nos áudios de uma criança palestiniana de seis anos, alvejada por um tanque israelita juntamente com a família onde viajam, e a tentar ser salva pelo Crescente Vermelho Palestiniano. Acabaria por morrer. Ditou-se o fim de Jarmush demasiado cedo e a vitória, em jeito de estrondosa homenagem e grito de guerra, de “The Voice of Hind Rajab”, nunca pareceu sequer real. O júri do festival presidido por um apolítico Alexander Payne, assim decidiu.

Sendo a primeira vez que a Comunidade Cultura e Arte viajou até aquela região de Itália, soube-se, desde logo, que era importante recolher, analisar e guardar cada pedaço do festival. E é mesmo verdade: a morte e o nascimento, ao lado das questões da maternidade, da fama, do luto e das guerras, foram a espinha dorsal desta Biennale. Seria menos sofrível abraçar todas estas temáticas pela lente das grandes telas do Lido, não fosse a chuva. As intermináveis filas que começavam no primeiro bar da imprensa e terminaram num qualquer sítio onde fosse possível adquirir algo, entrar em algum sítio, ou tirar uma selfie com um actor/atriz de Hollywood. E a certeza de que as plataformas de streaming – da Netflix de Ted Sarandos à Amazon MGM de Jeff Bezos – vão continuar a carregar dinheiro e poder nisto tudo. Os festivais internacionais de cinema são um lugar esquizofrénico, onde mortos e vivos deambulam, onde famosos e a populaça se cruza, onde manifestações pró-Gaza ocorrem e “cancelamentos” de actores israelitas (Gal Gadot) são impostos. E onde Guillermo del Toro pode ser encontrado, meio perdido, no elevador do Hotel Excelsior. E não, não estava à procura do seu “Frankenstein”. Tudo isto acontece não só, infelizmente, pelo grande amor ao cinema – há casos em que sim, não sejamos injustos – mas porque dá a todos os que participam um sentimento de pertença. Um “estar” na conversa na era digital que é fundamental.

É nesse limbo, que se torna quase religioso, que nos foram chegando uma série de filmes que tentam responder aos anseios do mundo, mas que também conseguem respeitar a velha máxima do cinema: um guião, uma história, uma ideia original, um filme. O primeiro grande momento no Lido aconteceu com “After The Hunt” (estreia em outubro por cá), de Luca Guadagnino, que não competiu, mas concorreu para prémio de filme mais polémico. Uma historieta à volta de três personagens, em que um professor é acusado por uma aluna de violação. Andrew Garfield, Ayo Edebiri e Julia Roberts, num mix, dizem, saído da era pós-#metoo, que repesca velhos argumentos e nos põe a todos a desconfiar de quem não se pode desconfiar: da alegada vítima. E não só. Muita tinta fez correr, subiu a temperatura das mornas conferências de imprensa e obrigou Julia Roberts a reforçar que é feminista.

“The Voice of Hind Rajab”, da realizadora tunisina Kaouther Ben Hania

Enquanto Yorgos Lanthimos defendia a sua nova dama, “Bugonia”, com a antiga dama, Emma Stone, e o Philip Seymour Hoffman 2.0, Jesse Plemons, Park Chan-wook, mestre sul-coreano que nos deu, entre tantos, o “Oldboy”, revelava as entranhas de “No Other Choice”. Os dois filmes, um sobre um rapto louco de um CEO que se julga ser alien e o segundo sobre um homem em sangrenta busca da sua masculinidade quando é despedido, comunicaram entre si. O realizador grego parece encostado às boxes, cheio de dinheiro para fazer o que quiser. O sul-coreano, que diz ter demorado 20 anos para fazer este file, mostrou-se com muito vigor. Ainda assim, todo o festival, como é, por vezes, apanágio, programou essa fluidez temática. E o que se retira?

Que ninguém avisou que o actor, produtor e realizador Seth Rogen, estrela maior de uma das séries do ano, “The Studio”, iria andar pela Sereníssima de máquina fotográfica analógica a fotografar o festival. Nem que Kim Novak, devidamente homenageada no Lido, e motivo para se mostrar o foleiro mas intimista documentário “Kim Novak´s Vertigo”, poderia ser, aos 92 anos, alguém tão assombrado. Por Hollywood, por Alfred Hitchock, por ter sido obrigado a ser cara bonita querendo muito mais. Pela sua arte. Por tanto. Nem há tempo para perceber. Voltando aos dois filmes anteriores, sabíamos que os protagonistas só podiam acabar mais mortos do que vivos, em “The Smashing Machine”, com um Dwayne Johnson transformado (temos actor), ao lado de uma bela Emily Blunt, observamos a lenta mas empática ruína de um lutador de MMA nos anos 90. Benny Safdie safou-se bem sem o irmão e saiu do Lido com a Melhor Realização.

Emma Stone em “Bugonia”, de Yorgos Lanthimos / Fotografia de Atsushi Nishijima – Focus Features

O que também não se esperava é que outro filme, também feito por uma mulher, neste caso um (anti?) musical, pudesse dividir tanto. Até na aplicação Letterboxd. Mona Fastvold criou “The Testament of An Lee”, sobre a líder dos Shakers, que os levou de Inglaterra para os Estados Unidos da América no século XVIII à procura de uma utopia de igualdade de género mas sem sexo. Protagonizado por Amanda Seyfried, criou uma força da natureza, diga-se. Capaz de converter um ateu. Filme exuberante, original, faraónico (e só custou 10 milhões de euros, tal como “O Brutalista”, de Brady Corbet, seu marido). Um milagre que só não curou a sinusite de George Clooney (foi lá apresentar “Jay Kelly”, mais um filme Netflix). Fastvold estudou a comunidade, investigou e pôs a nu o que é, afinal, ser mulher, o que é, afinal, ser religioso, o que é, afinal, uma líder. No fim, não sabíamos se ainda respirávamos. Vivo, morto, vivo, morto, Lido.

“The Testament of An Lee”, filme de Mona Fastvold

A Biennale não foi sempre tão política ou tão pesada. Teve momentos leves, de pura diversão, com filmes como “Dead Man’s Wire”, regresso aos grandes holofotes de Gus Van Sant com um prato de um tipo, nos anos 70, que se fartou de negociar com uma seguradora (o caso é real, vale a pena espreitar). Também explodiu, sem grande estrondo tirando para todos os críticos norte-americanos do mundo, ao estrear “House of Dinamite”, de Kathryn Bigelow, afastada destas lides, mas com enorme vontade de falar sobre os perigos da possível, sempre adiada, queres ver que já não está a acontecer, guerra nuclear. Mas esses momentos duravam pouco. Nem o turista – ou, aliás, os milhares de turistas que pisam o solo de Veneza – podia fugir à vertente política no Lido. Laura Poitras, vencedora do Leão de Ouro com “Toda a Beleza e Carnificina” (2022), voltou para mostrar “Cover Up”, documentário sobre Seymour Hersh, icónico jornalista dos EUA, que nos deu (também) Watergate, os crimes do massacre My Lai, entre tantos outros casos que comprovam a falência moral daquele país. Já Lucrecia Martel, ficou de fora da competição mas não da conversa. O filme “Nuestra Terra” segue a história da comunidade Chuchagasta e de um suposto homicídio nas suas terras. O colono contra o colonizado dos tempos modernos. Por muito que se queira fazer desaparecer os indígenas, há quem esteja à espreita.

Hind Rajab está morta. Mas no  próximo ano há quem se vá lembrar da sua voz em Itália. O tímido Jim Jarmusch pode-se sentir surpreendido,  mas nunca é demais encontrar os critérios. É uma segunda oportunidade. Nem todos podemos gozar do mesmo. Nem todos, entre críticos, jornalistas, cinéfilos desmedidos, podemos atender um festival que nunca pára. Que pode tratar mal o estômago de quem o visita – uma salada, 12 euros – mas que, ao menos, serve café com fila. Aliás, com açúcar ou sem.

“No Other Choice”, filme do sul-coreano Park Chan-wook

No meio de tanto significado mas também de vazio, e enquanto morávamos na muito feia praia do Lido, deu-se luz. Pode ter acontecido durante a secção “Classics”, onde passou o único filme português, “Aniki Bóbó”, de Manoel de Oliveira, muito bem restaurado pela Cinemateca Portuguesa, em parceria com a EEA Grants Portugal. Quase todos os protagonistas dos 21 filmes desta competição oficial sofrem de algum tipo de solidão. Ou auto-imposta ou imposta. Foi por isso que, antes do festival ir abaixo, vimos “The Hydra”, de Ana Cristina Barragán, história complexa, muito complexa, entre uma mulher e o seu (aparente) filho, que se juntam anos e anos depois. Ela foi violada pelo professor de ginástica, ele é um rosto meigo numa casa para órfãos. Podiam ser anjos, criaturas, figuras do além – todas elas andaram por Veneza – mas são humanos. E querem um abraço. Empatia.

Foi o que o Leão de Ouro teve. E, vá lá, todos os outros filmes. O mundo pode estar seco que nem madeira, pouco emocionado e pronto para a batalha. O cinema vai ter de bater o pé. No Lido bem se tentou mas, muitas vezes, ou o júri não ouviu, ou é impossível ter outra conversa (e bem) dentro e fora da sala de cinema, se não a sobre a Palestina.

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