A arte de David Bowie

por Lucas Brandão,    7 Janeiro, 2021
A arte de David Bowie
David Bowie / Roger Woolman – Wikimedia Commons
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David Bowie é uma das personalidades artísticas e musicais mais cativantes e complexas da história, tomando em linha de conta as suas múltiplas expressões e o seu contributo inovador nas artes. O londrino decidiu desconstruir-se entre personagens intergaláticas e preciosismos musicais, detalhes que fizeram dele um interessante ator de cinema. A sua carreira foi, assim, feita de constantes peripécias geniais, marcadas por um sentido artisticamente refinado e capaz de se reinventar de tal maneira que, ainda hoje, após a sua morte, parece que as metamorfoses prosseguem e se revelam numa imortalidade incapaz de ser suprimida.

David Robert Jones nasceu a 8 de janeiro de 1947, em Brixton, um subúrbio no sul de Londres. Neto paterno de imigrantes irlandeses, cresceu numa família relativamente estável, apesar de se tornar numa criança irreverente, para o bem e para o mal. Depois de mudar de casa em três ocasiões, a família assentou, o que permitiu que Bowie se focasse nos seus talentos musicais. Para o coro musical e para os professores de arte que tinha, era alguém com uma personalidade artística vívida e recheada de vigor. A coleção do seu pai de êxitos dos anos 1940, onde se incluem os nomes de Elvis Presley ou de Little Richard, deram-lhe o empurrão final para uma rendição completa à música. Foi experimentando vários instrumentos, para além de estudar arte, música e design. O seu meio-irmão viria a apresentá-lo formalmente ao jazz moderno, nomeadamente às teclas de Charles Mingus e ao saxofone de John Coltrane. A sua mãe dá-lo-ia um saxofone, tendo aprendido a tocar com Ronnie Bass, também ele saxofonista. Em 1962, com 15 anos, iria lesionar-se no olho, após uma luta com o seu amigo e também artista George Underwood. Desta lesão, danos permanentes perdurariam na sua pupila, dado que se tornou permanentemente dilatada e com uma perceção de profundidade limitada. Para além disso, ficou com a sua íris com uma cor distinta da outra, que se tornaria numa eventual imagem de marca.

Nesse mesmo ano de 1962, fundaria a sua primeira banda de rock-n-roll, os Konrads, atuando com alguns membros em casamentos e outros pequenos eventos. A sua ânsia de se tornar numa autêntica pop star aumentou e decidiu juntar-se a uma outra banda, os King Bees. Nesta fase, descobriu o seu primeiro manager, Leslie Conn, que o promoveria e lançaria o seu primeiro single, “Liza Jane”, com os King Bees. No entanto, voltaria a mudar de banda, cansado das covers de blues que fazia, e juntou-se aos Manish Boys, para depois voltar a trocar para os Lower Third, todos eles na onda do folk rock. Em 1966, lançaria, de novo, um single a solo, desta feita “Do Anything You Say”, já com o seu novo manager, Ralph Horton. Depois de uma breve passagem pelos Riot Squad, com quem gravou algumas covers dos The Velvet Underground, decidiu, enfim, mudar o seu nome artístico, que, até à data, era Davy Jones, o mesmo nome do cantor dos The Monkees. Assim, mudou o seu nome para David Bowie, em tributo ao soldado James Bowie, um norte-americano que havia estado na Guerra Civil e havia popularizado uma faca com o seu nome. Era uma firme antecipação da sua afirmação artística, que seria intermediada pelo single “The Laughing Gnome”, uma sonoridade mais intrépida e instantânea, até chegar ao seu primeiro álbum. “David Bowie” (1967) trazia, assim, um discurso fundido no pop, no rock psicadélico e no teatro britânico incipiente do século XIX, sempre com fragrâncias musicais (o music hall), que trazem as influências dos The Kinks ou até dos Pink Floyd.

Até 1969, seria o seu único álbum. Nesse período, dedicou-se ao estudo de artes dramáticas com o dançarino e coreógrafo Lindsay Kemp, nomeadamente teatro vanguardista e commedia dell’arte, um ramo de teatro satírico italiano. Foi este passo que o conduziu à criação das suas personas, para além de compor para outros artistas e de se juntar a um trio de seu nome Feathers, com quem atuou em performances que misturaram a música com a poesia e com o mimetismo, algo que tornou a sua própria carreira musical muito mais enriquecida e única. Aliás, é neste ano que compõe o êxito “Space Oddity”, que é escrita em sintonia com a exploração espacial feita, para além de se inspirar no célebre filme de Stanley Kubrick, “2001: A Space Odyssey”. Nesta música, o fictício Major Tom é lançado no espaço, personagem que volta a ser recorrente em outras canções que Bowie viria a compor, todas elas associadas a esta celestialidade. Entre uma vida artística que ganhava expressão na vida noturna inglesa, desde a criação de pubs e de eventos de arte experimental, Bowie voltou ao estúdio e lançou o seu segundo disco, também chamado “David Bowie” (1969). “Space Oddity” integra, assim, este disco, que marca uma transição de um esforço mais vanguardista e até vaudevillieano para uma toada mais marcada pelo folk e pelo rock progressivo, embora também com algumas baladas, como a letra de despedida da sua ex-namorada, a guitarrista Hermione Farthingale (“Letter to Hermione”). Os temas das letras reportam aos ideais de paz, de amor e de moralidade, apesar de se tornar mais robusta a sonoridade.

Bowie casaria em 1970 com a modelo e jornalista Angela Barnett, que se tornaria em alguém bastante influente na sua carreira, mais do que o próprio agente da sua carreira à data, Ken Pitt. O músico juntaria, assim, um grupo de artistas com quem contaria daí em diante para as suas gravações e tournées. Assim, chamou o baterista John Cambridge, o baixista Tony Visconti e o guitarrista Mick Ronson para dar vida à banda Hype, em que todos eles envergavam outfits únicos e vanguardistas, que anteviam a chegada do glam rock. Porém, alguns desaguisados, em especial com Cambridge, levariam a que a banda se rompesse e a que Bowie prosseguisse a solo, agora com Tony Defries como seu agente. Chegaria, assim, o terceiro álbum, agora com banda (Cambridge fora substituído por Mick Woodmansey): “The Man Who Sold The World” (1970). Novamente, assistia-se a uma mudança de estilo do cantor, que passava a encarar o hard rock como uma zona em que se mostrava cada vez mais capaz. Temas controversos e densos, como a esquizofrenia, a insanidade, a religião e a própria tecnologia assumem um protagonismo evidente, onde a postura andrógina que Bowie já vinha evidenciando se tornou mais nítida.

É assim que, em 1971, chega “Hunky Dory”, agora com um novo baixista: Trevor Bolder, para além de ver a saida de Rick Wakeman, teclista que se tornaria no líder da banda Yes. Bowie começa, aqui, a compor mais com o recurso ao piano que à guitarra, como era seu apanágio, tornando-o mais melódico e intrincado. Isto apesar das evidentes associações que faz a artistas da sua referência, como Lou Reed, Bob Dylan e Andy Warhol (a quem dedica canções), cruzando-as com referências aos temas celestiais (“Life on Mars?”), ao ocultismo e à filosofia de Friedrich Nietzsche (“Oh! You Pretty Things”) e com a necessidade de uma constante reinvenção artística (“Changes”).

Daqui em diante, tanto na promoção, como nos próprios concertos, a sua personalidade foi-se construindo de tal modo ao ponto de gerar uma nova personagem: a de Ziggy Stardust, uma mistura de Iggy Pop com Lou Reed que havia aterrado de Marte e que homenageava o célebre Legendary Stardust Cowboy, um músico norte-americano que inovou ao unir o rockabilly da música country e o punk rock emergente. Outras influências seriam o cantor Vince Taylor e o designer japonês Kansai Yamamoto. O cabelo pintado de um vermelho acastanhado acompanhou Bowie a subir ao palco com a sua banda a ter um novo nome: Spiders from Mars. Foi o grande dínamo para que se catapultasse para a ribalta e se criasse um autêntico culto em torno de si e desta personagem.

O complemento ideal para que esta fama se confirmasse comercialmente seria com o lançamento de mais um disco. “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” alavanca, assim, esta figura que é impossível de se rotular: com laivos andróginos e uma bissexualidade assumida, Stardust é uma estrela de rock que é enviada à Terra com a missão de a salvar de um desastre apocalíptico. Apesar de conseguir conquistar, ao longo do álbum, a confiança dos terráqueos, acabará por sucumbir perante a própria fama no final deste. É quase um embrião do tal glam rock que aparece e que resulta de uma convivência dos sons dos seus primeiros álbuns e da música de Iggy Pop, dos Velvet Underground e de Marc Bolan, líder da banda T. Rex, com as questões de orientação sexual, das questões políticas e identitárias e do estrelato artístico. “Moonage Daydream” e “Hang On To Yourself”, todavia, tinham sido compostas anteriormente, no grupo Arnold Corns, que antecipou a emergência de Ziggy Stardust.

A sua tournée seria um sucesso absoluto, viajando desde os Estados Unidos até ao Japão, numa fase em que até o single “John, I’m Only Dancing” , lançado à parte, se tornaria reputado no seu país. Não obstante, sem esquecer os seus ídolos, fez parte da produção do álbum de Lou Reed “Transformer” (1972), para além de apoiar a banda de Iggy Pop The Stooges no seu disco “Raw Power” (1973). Com a viagem de Ziggy Stardust aos Estados Unidos (e a criação de “a lad insane” ou Aladdin Sane”), surge, nesse ano de 1973, o álbum “Aladdin Sane”, mais ágil e velocista que o seu antecessor, procurando adaptar-se à identidade do país, sem abdicar de problematizar as questões das drogas, do sexo, da violência, da morte e da decadência urbana.

Denota-se, de igual modo, uma influência grande da sonoridade dos Rolling Stones, embora fosse a própria capa do álbum que eternizasse esta fase da sua carreira: o raio que Brian Duffy, o fotógrafo, coloca no olho direito de Bowie seria uma imagem de marca deste seu alter-ego. Deste álbum, ficaram marcados os singles “The Jean Genie” e “Drive-In Saturday”. A personagem era uma forma de Bowie poder ser mais do que um músico: um artista. A imersão que se permitia fazer com a personagem dotava-lhe de emoção e de personalidade, embora roçasse, por vezes, os limites da sanidade. Tanto que assumia a sua retirada dos palcos no precoce ano de 1973. Desta dissociação em relação às “vidas de Marte”, reuniria um franco sucesso comercial, consumado numa cover que fez à canção “Sorrow”, um B-side da banda The McCoys.

No ano seguinte, 1974, Bowie passaria a viver nos Estados Unidos, indo de Nova Iorque para Los Angeles. Neste mesmo ano, “Diamond Dogs” é o novo disco, marcado pela ausência de banda e pelo uso da guitarra por parte do cantor. Seria um álbum híbrido, de transição, que vira do seu já badalado glam rock para uma toada mais voltada para o soul e para o funk. É um disco quase distópico, influenciado por uma ideia de Bowie adaptar a obra “1984”, do inglês George Orwell e pelos escritos de um autor, este norte-americano: William S. Burroughs. É deste pano de fundo que emerge a nova personagem do artista: Halloween Jack, uma personagem com nuances das suas anteriores, embora integrado na decrepitude urbana distópica.

Deste disco, ficam para a história as canções “Rebel Rebel” e “Diamond Dogs”, que pautariam a tournée feita pelo país durante meio ano. A tournée seria o palco de um documentário, “Cracked Actor”, que, realizado por Alan Yentob, mostra um Bowie desgastado e debilitado, fisica e emocionalmente, acometido pela toxicodependência (cocaína) e pela subsequente paranóia. Isto não o impediria de produzir um novo álbum, este feito a partir de performances ao vivo, no estado norte-americano da Pensilvânia, e de seu nome “David Live”. Uma nova cover consolidaria o sucesso estonteante da carreira do artista até a este momento, com “Knock on Wood”, do músico Eddie Floyd.

Esta derivação para o soul levá-lo-ia a um outro disco, “Young Americans” (1975), em que é patente a sua transformação para um artista de R&B e até de soul. Unindo os esforços do seu produtor Tony Visconti e, entre outros músicos, o seu guitarrista Carlos Alomar, o baixista George Murray e o baterista Dennis Davis, é criado um plastic soul, que transmite, precisamente, esta artificialidade da sua música e um tanto ou quanto de atrevimento. Deste disco, estão eternizados os êxitos de “Fame”, “Across The Universe” (duas canções com o apoio da voz de John Lennon) e “Young Americans”, para além do single futuro “Golden Years”, que antecipava o disco do ano seguinte, “Station to Station”.

De novo, o funk e o soul são aprimorados ao máximo, quase roçando os ares da música de discoteca, dadas as influências do germânico krautrock, um género musical que fundia a disco com o rock a partir dos sintetizadores e das guitarras dos membros dos Kraftwerk e da Neu!. De novo, uma curiosidade pelo ocultismo e pela filosofia de Nietzsche é colocada em evidência, para além da própria questão da Cabala e dos seus choques (presente em “From Kether to Malkuth”). Porém, é um álbum que conta com a apresentação de uma outra personagem, esta importada do cinema. The Thin White Duke vem do filme “The Man Who Fell to Earth” (de 1976, realizado por Nicolas Roeg, em que a personagem de Bowie, a primeira de destaque que assumiu no cinema, se chamava Thomas Jerome Newton) e trata-se de um alienígena com feições humanas que chega ao planeta Terra à procura de água para o seu próprio planeta, que se encontra em seca.

Apesar deste estímulo na sua carreira, a sua conduta tornou-se despojada de lógica, sempre com controvérsia em seu torno, dadas as referências positivas que ia fazendo ao fascismo e às suas figuras, nomeadamente às nazis. Embora alegasse estar a representar a sua personagem, o The Thin White Duke, nos elogios e nas provocações que fazia, nada fazia duvidar de que era o seu abuso de drogas pesadas que o colocavam nesse estado. Viria a retratar-se, todavia, após mudar-se para Berlim (Ocidental), antes do ano de 1976 findar, naquilo que seria uma reviravolta na sua vida e na sua carreira. Não obstante, tamanha polémica despoletaria a necessidade da criação de um movimento anti-racista e anti-fascista no panorama musical britânico: nasceu o Rock Against Racism.

Partilhou casa com Iggy Pop, que faria os seus primeiros dois álbuns a solo com a colaboração de Bowie, e trabalhou de perto com o compositor britânico Brian Eno, que seria providencial numa trilogia de álbuns (a Berlin Trilogy) que comporia nesta sua nova fase, com mais peso minimalista e com mais preciosismos técnicos e musicais. O primeiro destes seria, assim, “Low” (1977), gravado, maioritariamente, em França, e dando amplitude à sua grande influência do krautrock, que o levou a aprofundar as sonoridades eletrónicas e ambientais. O uso de um harmonizador por parte do produtor Visconti ajudou a que essa atmosfera fosse criada, abrindo espaço a uma maior abstração sonora. Para o coletivo de fãs que reuniu até então, era uma afronta e algo quase impercetível do dinamismo que, outrora, havia produzido. Apesar disso, para além de consegui algum sucesso com “Sound and Vision”, tornou-se relevante como referência para jovens compositores, como Philip Glass.

Seguidamente, “Heroes” (1977) revitalizou alguns dos aspetos pop que o tinham celebrizado para o mundo da música, assim como aspetos do rock progressivo importados pelo guitarrista Robert Fripp, dos King Crimson. A cidade de Berlim é quase romantizada na sua interpretação por parte de Bowie, em pleno clima de Guerra Fria. Uma curiosidade foi o uso, para além de geradores de som e de sintetizadores, do koto, um instrumento de cordas que é o nacional do Japão. A música “Heroes” eternizaria este álbum e revigoraria Bowie em plena ribalta, para além da natalícia “Peace on Earth/Little Drummer Boy”, que cantou ao lado de Bing Crosby em plena televisão norte-americana.

De volta aos palcos, protagonizou a mundial Isolar II, uma tournée em que percorreu doze países, nos quais, ao todo, deu setenta concertos (entre os quais três nos Estados Unidos que constam no álbum “Stage” (1978)). De igual modo, narrou uma composição do russo Sergei Prokofiev, “Pedro e o Lobo”, num álbum que saiu nesse mesmo ano. Bowie participou em “Just a Gigolo”, um filme de David Hemmings que se situa em Berlim no pós-Primeira Guerra Mundial. 1979 foi o ano em que compôs o último álbum que produziu em Berlim, mais imerso na cultura da música do mundo e com o uso das “estratégias oblíquas” criadas por Brian Eno, na tentativa de estimular a criatividade. Neste álbum, assiste-se, assim, a mais um esforço criativo experimental e inovador de Bowie, sem descurar uma crítica à civilização ocidental, que se torna recorrente desde então na música e na voz de Bowie.

Chegado aos anos 1980, Bowie produz mais um disco, sendo ele “Scary Monsters (and Super Creeps)”, do qual vem a célebre “Ashes to Ashes”. Neste disco, o cantor recorre a Chuck Hammer para os acordes e para as teclas, para além de Robert Fripp e do próprio Pete Townshend dos The Who, e faz regressar a personagem de Major Tom. Foi um álbum que alimentou o novo movimento romântico que começou a crescer na vida suburbana de Londres, que abriu portas a maior excentricidade nos modos e no vestuário da sua juventude. Em 1981, gravaria com os Queen “Under Pressure”, uma das músicas mais célebres dessa década, para além de regressar ao cinema em “Christiane F.”, um filme do alemão Uli Edel sobre a toxicodependência em Berlim Ocidental. No ano seguinte, “Baal” é um EP que capta a participação de Bowie numa adaptação televisiva da peça homónima de Bertolt Brecht, por parte da BBC. Outros dois reputados singles seriam “Cat People (Putting Out Fire)”, gravado para o filme “Cat People” (1982), de Paul Schrader, e “Let’s Dance” (1983), numa co-produção feita com Nile Rodgers, da banda Chic, tendo originado um álbum com esse nome.

Essa canção seria célebre, de igual modo, por dar a conhecer Stevie Ray Vaughan, o guitarrista que produz o solo de guitarra da música; para além de consumar um dos melhores discos da década, que engloba, também, os hits “China Girl” (escrita com Iggy Pop) e “Modern Love”. A própria produção de videoclips ajudou a celebrizar um conjunto de músicas que, inicialmente, não foram pensadas para uma audiência mainstream. O artista participou no filme de terror erótico “The Hunger”, de Tony Scott, tendo contracenado com as “vampiras” Catherine Deneuve e Susan Sarandon; para além de ter estado em “Merry Christmas, Mr. Lawrence”, uma coprodução anglo-japonesa realizada por Nagisa Oshima sobre um prisioneiro de guerra inglês num campo japonês na Segunda Guerra Mundial. Em 1984, grava “Tonight”, que conclui o período da sua “Serious Moonlight”, nome que deu à sua tournée. Pouco foi o que Bowie trouxe para o álbum para lá da voz e da composição de parte das canções, visto que algumas delas são covers (uma de “God Only Knows”, dos Beach Boys e outras de Iggy Pop, como “Tonight”, que canta com Tina Turner). Das originais, ficaram famosas “Blue Jean” (que originou uma curta, de seu nome “Jazzin’ for Blue Jean”, onde venceu o seu único Grammy de competição na sua vida) e “Loving The Alien”.

Um outro dueto bastante célebre foi um que protagonizou com Mick Jagger, sendo ele “Dancing in the Street” (1985), uma cover da música de Martha and the Vandellas, com o sentido de colaborar para a Live Aid, um concerto de beneficência contra a fome (Bowie atuaria em Wembley). Gravou, também, com a banda do guitarrista Pat Metheny, “This Is Not America”, que integrou a banda sonora do filme “The Falcon and the Snowman”, de John Schlesinger. Em 1986, gravou “Absolute Beginners”, a música de um filme homónimo no qual atuou, para além de ter sido o vilão do filme “Labyrinth”, de Jim Henson, no qual colaborou com o compositor Trevor Jones na criação de cinco músicas. Ainda no cinema, esteve em “Into The Night”, de John Landis, e em “The Last Temptation of Christ” (1988), de Martin Scorsese, representando a figura de Pôncio Pilatos.

No ano seguinte, gravou “Never Let Me Down”, o último disco a solo que gravou nessa década, considerado, de igual modo, um ponto baixo na sua dimensão criativa musical. Apesar disso, produziu as canções “Day-in, Day-Out”, “Time Will Crawl” e “Never Let Me Down”, todas elas imbuídas de uma dimensão mais eletrónica e até techno. Para a tournée Glass Spider, que recorreu a muitos efeitos especiais e que gerou interesse por isso mesmo, contaria com um reforço de peso na guitarra: Peter Frampton. Bowie criaria, ao lado do guitarrista Reeve Gabrels, do baixista Tony Fox Sales e e do baterista Hunt Sales, uma banda chamada Tin Machine, um projeto que procurou, nos seus dois álbuns, simplificar o rock e torná-lo algo mais democrático entre os membros da sua banda. De igual modo, procurou discutir problemas relacionados ao fascismo e aos desafios da televisão. As críticas foram pesadas, que descreveram a banda como algo vazia, apesar dos êxitos dos seus concertos iniciais.

Bowie deixaria a banda, após esta fracassar no ano de 1992, após o álbum feito na sua última tournée, “Tin Machine Live: Oy Vey, Baby”. Nesse ano, atuaria no concerto de tributo a Freddie Mercury e voltaria a colaborar com Nile Rodgers, num álbum muito eletrónico lançado em 1993, de seu nome “Black Tie White Noise”, no qual se destaca o single “Jump They Say”. Foi o último álbum em que colaborou com Mick Ronson, por este ter falecido e o primeiro após ter casado com a modelo somali Iman. De seguida, trabalhou em “The Buddha of Suburbia”, uma banda sonora produzida para uma adaptação televisiva da obra homónima, tendo antecipado uma nova fase, dedicada ao rock alternativo. Em 1995, reuniu-se com Brian Eno para o disco “Outside”, um disco muito distópico e não-linear, antevendo a incerteza do século XXI com as canções “The Hearts Filthy Lesson”, “Strangers When We Meet” e “Hallo Spaceboy”.

Em 1997, realizou um concerto célebre, em pleno Madison Square Garden, que comemorou o seu 50º aniversário com uma série de ilustres artistas. Um ano antes, tinha sido apresentado no Rock n’ Roll Hall of Fame, para além de ter recebido a estrela no Walk of Fame. Depois destes momentos, trabalhou no lançamento de “Earthling”, um álbum com muitas influência do drum and bass, A música “I’m Afraid of Americans” seria usada em “Showgirls”, um filme de Paul Verhoeven. Nesta década de 1990, no que ao cinema concerne, Bowie participou em “The Linguini Incident” (1991, de Richard Shepard), ao lado de Rosanna Arquette, no filme da série de Twin Peaks (1992, da autoria de David Lynch), representando a personagem de Philip Jeffries, “Basquiat” (1996, de Julian Schnabel), onde encarna Andy Warhol, a comédia do faroeste “Gunslinger’s Revenge” (1998, de Giovanni Veronesi) e uma breve participação na série “The Hunger”.

Entre outras colaborações pontuais, entre as quais a produção da banda sonora do videojogo “Omikron: The Nomad Soul”, ao lado do guitarrista Reeves Gabrels, trabalhou avidamente no lançamento do disco “Heathen” (2002), que mereceu francas críticas positivas. Nesta fase, foi maior a dedicação aos palcos, às suas tournées e às causas sociais e políticas que ao estúdio, do qual subsiste a prestação em Glastonbury, no ano de 2000, eternizada em disco. Em 2003, “Reality” é o último álbum de originais durante dez anos, período no qual sofreu um ataque cardíaco, que o obrigou a ser operado em Hamburgo. No ano de 2006, recebeu o Grammy Lifetime Achievement Award e, depois, foi aparecendo em alguns concertos de artistas vários, como convidado de David Gilmour ou de Alicia Keys.

Entretanto, em 2011, seria disponibilizado, na Internet, o álbum “Toy”, composto por material não-lançado anteriormente durante a carreira. Dois anos depois, com 66 anos, chegaria o seu regresso ao estúdio e o disco “The Next Day”, que reuniu canções gravadas durante três anos, onde se inclui o single “Where Are We Now?” e os hits “The Next Day” e “The Stars (Are Out Tonight)”, que mereceram um videoclip. No grande ecrã, Bowie voltou a mostrar os seus créditos, tanto em “Mr. Rice’s Secret” (2000, um mistério de Nicholas Kendall que o artista protagoniza), “The Prestige” (2006, de Christopher Nolan), encarnando Nikola Tesla, e “August” (2008, de Austin Chick).

Um álbum de inéditos e de músicas raras foi produzido em 2014, de seu título “Nothing Has Changed”. O seu último álbum chegaria no ano da sua morte, 2016, falecendo no dia 10 de janeiro, aos 69 anos. Seria cremado e as suas cinzas seriam espalhadas em Bali, na Indonésia, seguindo o seu testamento. O disco foi “Blackstar” e reuniu um conjunto de artistas locais novaiorquinos, especializados em jazz, para além de verter um conjunto de influências que parte do krautrock até a bandas de música experimental e a rappers, como Kendrick Lamar. “Lazarus” e “Blackstar” redigiu, assim, o canto de cisne da sua carreira e da sua vida, sendo uma escrita predeterminada por parte do artista.

A sua imortalidade seria assegurada pelo lançamento de diversos discos de concertos dados nas décadas de 1970 e de 1980, para além de outras reedições de vários dos seus êxitos. Para a história, apesar de não ter chegado a aparecer em “Blade Runner 2049”, do canadiano Denis Villeneuve, e no regresso aos ecrãs de “Twin Peaks”, por força da sua morte, fica uma recolha esmerada de obras artísticas (grande parte delas foram vendidas), que se justifica pelo seu gosto por pintura, que explorou nos anos 1970, nomeadamente com peças associadas ao expressionismo pós-modernista.

David Bowie criou, assim, uma personalidade artística única e diferenciada, capaz de se desdobrar e de se redescobrir em várias frentes, algo que o tornou e o solidificou como um ícone desta modernidade. Para além das diferentes personagens que criou, levantou questões prementes e emergentes, nomeadamente a da sexualidade (Bowie era bissexual e manifestava-se, em várias ocasiões, de forma andrógina), da própria espiritualidade (como se vê ao longo da sua carreira, em especial até à sua fase de Berlim e no final da sua vida), e da política, sendo polémico e provocador com uma regularidade cativante. Dedicou-se, nas últimas décadas da sua vida, a causas humanitárias e sociais, sendo uma voz com um peso substancial na civilização ocidental. Bowie viveu e criou com um sentido de reconstrução e de inovação, capaz de fazer valer a música como um meio fulcral de expressão artística. Se a música não é, assim, arte, está David Bowie na vanguarda para o refutar e relembrar a missão da música nos seus voos.

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