A banalização da violência

por Rui Pedro Gomes,    1 Agosto, 2025
A banalização da violência

O Estado terá nascido da necessidade de conter a violência. A guerra de todos contra todos, como lhe chamou Hobbes. O olho por olho. A desordem pública. Sem a presença do Estado, a violência grassa por dá cá aquela palha.

Por esta razão: o humano. O Homem que, enfiado numa multidão, é tomado pelos instintos animalescos que há em cada um. Veja-se os acontecimentos em Torre Pacheco, no sudeste de Espanha.

A origem: a agressão de indivíduos imigrantes em Espanha a um idoso local. Depois: a prisão dos agressores. Depois: não bastou a grupos organizados pelas redes sociais. Desgostosos com a solução que é a aplicação da lei, lançaram-se a acicatar as paixões da multidão, pedindo sangue. Daí, a caçada geral a imigrantes do Norte de África.

Já o vimos. O Pogrom de Lisboa, de 1506, em que um bando saiu à rua para caçar judeus, ceifando a vida a mais de 4000. A Noite dos Cristais, de 1938, na Alemanha Nazi. A violência em manada que sujou as ruas da Rússia czarista e da União Soviética.

Isaiah Berlin viu-a. Nascido na Letónia, viveu depois a juventude sob os efeitos da Revolução Bolchevique de 1917. Com 7 anos e meio, acordou para a necessidade da política pelo pavor à violência a céu aberto: um homem arrastado e espancado por uma multidão em estado demoníaco. Criou-lhe o horror permanente à violência. E esse gerou-lhe o apreço pela política da liberdade sob a Lei.

Defendê-la é uma tarefa de uma vida e começa pela atenção à violência. Sobretudo quando e onde ela começa. Soubemos, pelas autoridades, que os crimes aumentaram nas escolas. Sabemos da escalada de violência nas redes sociais, explícita ou implícita. De como pequenos vídeos de porrada são mato.

Tudo isto diz respeito ao Estado, que regula a vida em comunidade, mas antes de mais a mim e ao leitor. A sociedade somos nós. Quem frequenta as redes sociais somos nós – porque fecharmo-nos numa redoma é adiar a ação sobre a realidade. E tenho pensado: talvez o cansaço da realidade, por ser azeda, nos tenha sugado a força. A genica, que vai sendo minoritária, para desejar isto que parece garantido: normalidade. Anormal, no país e na civilização em que nasci e cresci, é a banalização da violência.

A sua contenção é a primeira tarefa do Estado. Mais: é a sua razão fundadora. Quando não a garante, definha. Quando definha, avaria; não serve; venha outro. Preferia escrever sobre literatura, música, a cerveja nova da Sagres, enfim, as coisas boas da vida, mas o que Berlin deu conta impõe-se. Pela História e pelo que vemos quando ligamos a televisão. Pela atualidade requentada.

Perante o horror permanente da violência, o problema maiúsculo, resta-nos a Lei e a Política, quando a educação e o bem-estar coxeiam.

Não há charme nenhum em acreditar nisto, mas é no que acredito, leitor: quando nascemos, a Civilização não vem incluída.

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