A chuva não leva só o ânimo – às vezes leva casas

por Sara Rathenau,    9 Fevereiro, 2026
A chuva não leva só o ânimo – às vezes leva casas
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Chove há dias. Acordamos e deitamo-nos sob chuva cinzenta. As ruas estão pesadas. As pessoas estão com menos energia. Há ainda quem esteja desesperado porque perdeu a sua casa.

Nos países mediterrâneos, o clima acaba por ter um papel estrutural na organização do quotidiano.
A presença e exposição regular à luz solar influencia o ritmo de sono, o humor e até a produtividade. Estudos em psicologia ambiental e saúde pública indicam que vários dias consecutivos de chuva estão intimamente ligados a aumentos de sintomas depressivos ligeiros e moderados, maior irritabilidade, maior fadiga mental e ainda perturbações do sono.

A European Environment Agency afirma que em países do Sul da Europa, onde a vida social, exercício físico e exposição solar são ingredientes centrais do bem-estar, as consequências de vários dias de chuva tendem a ser mais marcadas do que em países com climas tradicionalmente mais nublados. Estamos há vários dias consecutivos sem um dia de sol. Períodos prolongados de precipitação, afectam negativamente o humor e aumentam os níveis de ansiedade.

E quando a chuva se transforma num enorme desastre? Temos vivido tempos de grande angústia e dor. O impacto psicológico agrava-se significativamente quando a chuva causa danos materiais como a perda de habitação. Cheias, tal como outras catástrofes naturais, estão ligadas ao aumento de problemas de saúde mental tanto a curto, médio e ainda longo prazo. As pessoas que são directamente afectadas por inundações apresentam taxas mais elevadas de perturbações psicológicas como é o caso do stress pós traumático, ansiedade generalizada, depressão e ainda consumo de álcool ou psicofármacos. Após cheias, a prevalência de stress pós traumático pode variar entre 15% a 40% dependendo da gravidade e do grau de perda.

E quando perdemos a nossa casa ou parte dela? Perder a casa é considerado um dos maiores factores de risco psicológico. Do ponto de vista psicanalítico, a perda da nossa casa está muito para além da dimensão material. A casa funciona como “objecto continente”, como um lugar que contem, que remete para segurança, previsibilidade, intimidade e ainda equilíbrio emocional. Podemos sentir ansiedades de desamparo e perda. Quando percebemos que o espaço que delimita “o dentro” e o “fora” desapareceu, sentimos exposição, desorientação interna e ainda perda de identidade. Não perdemos apenas a casa material, perdemos também a possibilidade de descanso psíquico. Como consequência surgem sentimentos persistentes de insegurança, perda de controlo e medo recorrente de novos desastres. Em 2023 foi realizado um estudo na Europa onde se percebeu que após cheias severas, as pessoas directamente afectadas apresentam sintomas elevados de sofrimento psicológico vários meses após o evento.

A Organização Mundial de saúde recomenda a importância dos Primeiros Socorros Psicológicos como resposta ao que estamos a viver. O objectivo é reduzir o sofrimento imediato e prevenir a evolução para perturbações psicológicas mais graves. O que são os Primeiros Socorros Psicológicos? São um conjunto de acções que podemos e devemos adoptar para minimizar o sofrimento psicológico das pessoas em estado de sofrimento após eventos traumáticos.

Em que consistem: 1. Garantir segurança e informação clara às vítimas. Devemos reduzir a incerteza. Partilhar informação muito simples e consistente. Isto diminui a ansiedade e o aumento do medo.
2. Estabilidade emocional Básica. Como é o caso de técnicas de respiração, orientação no tempo e no espaço. Ao não sabermos em que consistem podemos pesquisar. Existem por exemplo vídeos de respiração no youtube que são simples de replicar. 3. Normalizar as reacções emocionais. Acolher as emoções das pessoas e explicar-lhes que o medo, tristeza, irritabilidade ou dificuldades de sono são respostas humanas e naturais após uma perda significativa. Isto ajuda a diminuir o estigma e possíveis pensamentos e sentimentos de auto-culpabilização. 4. Promoção de ligações sociais. As redes de apoio familiares e comunitárias são dos factores mais importantes para a protecção da saúde mental após um desastre natural. Procurar convidar a pessoa a falar sobre o que se passou com outras vítimas é um exemplo disto. Sentimentos de solidão diminuem. Por fim, 5. Identificação precoce de sinais de risco. Devemos estar atentos a insónia que prevalece, ataques de pânico frequentes, pensamentos intrusivos ou consumo excessivo de álcool. Quando observamos isto devemos sinalizar e reencaminhar a pessoa para ajuda especializada. Frase chave: Nos primeiros socorros psicológicos, menos é sempre mais. Não é preciso saber o que dizer, mas saber estar, escutar e facilitar o apoio.

Intervenções precoces e estruturadas reduzem significativamente a probabilidade de desenvolver perturbações psicológicas após eventos extremos. O que estamos a viver trata-se de uma questão de saúde pública. As alterações climáticas estão a aumentar a frequência de eventos meteorológicos na região mediterrânea. Ignorar os seus impactos psicológicos é negligência. A saúde mental deve ser integrada cada vez mais nos planos de emergência, proteção civil e reconstrução. E não é só integrar é integrar e ser investida. Ignorar esta necessidade é negligência governamental. Reconhecer e acima de tudo actuar no impacto psicológico destes fenómenos é uma condição essencial para a resiliência individual e colectiva. Ninguém pode largar a mão de ninguém. 




 






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