A cidade por que lutamos

por Cronista convidado,    17 Novembro, 2021
A cidade por que lutamos
Lisboa / Fotografia de Nuno Presa – Unsplash
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Nas primeiras horas da manhã, pelo vidro embaciado do autocarro, podemos observar a cidade em todo o seu esplendor. Os movimentos pendulares que cruzam avenidas e retraem as fachadas, outrora imponentes, hoje pequenas demais quando comparados com o tempo. É nestas alturas que podemos admirar a cidade, onde a simbiose entre o passado e o presente nos impele a vislumbrar um futuro diferente. Porém, que futuro é esse? 

A História ensina-nos que as roldanas intermitentes do desenvolvimento tecnológico têm modificado as nossas cidades, de acordo com os interesses da classe que, em determinado momento, detém os frutos desse mesmo desenvolvimento. Vejamos, por exemplo, a Revolução Industrial. As grandes indústrias fumarentas e barulhentas, pintando os céus de cinzento e os rios de várias cores, empregavam, nas longas seções das fiações e tinturarias, milhares de homens e mulheres, velhos e crianças, que, fugindo da miséria dos campos, se fixaram nas selvas de poeira e granito, confinados em extensos bairros divididos em pequenos metros cúbicos. E assim: nasciam as “Ilhas”.  Foi este o urbanismo que, durante dois séculos, melhor serviu a burguesia portuense. 

No entanto, como tudo na História, este período teve um fim. A passagem de uma economia produtiva para uma economia de serviços tirou os operários das “traseiras dos senhores”, como cantava José Mário Branco, e enviou-os para a periferia. Quem trabalha na cidade, perdeu o direito de lá viver.

Este processo de mudança urbana, denominada gentrificação, aumentou a distância casa-trabalho, afastando os cidadãos das principais áreas de fruição cultural, de lazer, ou até mesmo de educação, alimentando um outro problema: a especulação imobiliária. Se, nas últimas décadas, o sonho da maioria dos jovens tem sido adquirir uma casa, hoje em dia esse sonho foi travado pelo aumento do preço de compra ou arrendamento, cada vez mais proibitivos. O êxodo urbano, que levou as populações para as periferias, criou novos centros urbanos — cidades que auxiliam a pobre oferta de habitação da velha urbe, mas que, por sua vez, acabam também por contrair o vírus da especulação.

Uma cidade quando planeada, tem que abranger todos os pontos essenciais que assegurem qualidade de vida às pessoas.

E nós precisamos de uma nova cidade. Uma cidade onde os espaços verdes abundam e os carros estão limitados a uma pequena área, oferecendo garantias de transportes públicos acessíveis e não limitados a pequenas áreas. É preciso pensar numa cidade com mais habitação pública e limites às rendas, que regulam os mercados imobiliários e que combatem a gentrificação. Só assim estaremos a conferir a oportunidade a todos e todas ao direito à cidade. Uma cidade do futuro, que é ecológica, tem que ser multicêntrica, descentralizando e disponibilizando mais serviços públicos, como a saúde e a educação, a uma menor distância de casa, colocando também o comércio local como base de uma economia urbana sustentável. Uma cidade feminista, onde as ruas não sejam escuras e isoladas e onde os transportes públicos sejam uma solução gratuita, segura e eficaz no que toca a trazer as pessoas a casa. Uma cidade pensada para mulheres, homens, pessoas com capacidades reduzidas e crianças, com ruas construídas para servir toda a gente.

Se, ao longo do nosso percurso coletivo, as cidades têm sido desenhadas por quem e para quem tudo possui, então impera, hoje mais do que nunca, democratizar o acesso à cidade. Revolucionar a cidade implica, assim, transformar a sociedade.

Crónica de António Soares e Tomás Nery, estudantes universitários e ativistas estudantis.

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