A classe e a função: dos mitos e dos gritos da emigração portuguesa em França

por Jorge Pinto,    3 Abril, 2026
A classe e a função: dos mitos e dos gritos da emigração portuguesa em França
Capa do livro / DR

Continuamos a falar pouco da emigração portuguesa para França. É até surpreendente não termos uma avalanche de produção – académica, artística, de memórias pessoais – sobre um dos fenómenos que marcou profundamente a segunda metade do século XX português, com consequências ainda hoje atuais. Abra-se qualquer jornal diário francês e preste-se atenção aos nomes que nele constam e logo concluiremos que não faltam nomes de origem portuguesa. É um dos reflexos visíveis de uma relação de décadas, marcada pelas centenas de milhares de portugueses que em França fizeram as suas vidas e aí viram as suas famílias ficar.

A dimensão desta emigração, em Portugal muitas vezes menorizada e em França romantizada, merecia muito mais conteúdo para que Portugal se conhecesse melhor a si mesmo e para que França conhecesse melhor estes seus residentes e, em muitos casos, cidadãos. E é nesse sentido que, felizmente, têm surgido novos contributos que vêm desafiar a imagem reificada dos portugueses em França. Destaco dois livros que dão um grande avanço nesse sentido. Do domínio académico, o conjunto de textos publicado em “Les Portugais en France: une immigration invisible?” editado por Irène dos Santos e Sónia Ferreira [ler entrevista]; fora da academia, uma novela autobiográfica recentemente publicada e assinada pelo pseudónimo Mariana Alves: “La classe et la fonction” [“A classe e a função”], publicado pela Chandeigne & Lima na sua coleção Brûle-Frontières.

Capa do livro

E é sobre este segundo livro que gostaria de escrever porque ele é um concentrado da história, da vivência, da experiência e dos silêncios da emigração portuguesa em França. Em pouco mais de 100 páginas, Mariana Alves dá um grito de uma revolta acumulada ao longo de décadas. Filha de uma mãe porteira e de um pai porteiro e homem de todos os ofícios, foi numa loge do elitista XVI arrondissement de Paris que a autora cresceu. Uma casa que era um labirinto de locais desconectados onde a família fazia a sua vida; uma sala principal vidrada, exposta aos olhares e ao controlo dos Outros, a lembrar a distopia de Zamiatine em “Nós”. Esses Outros que a autora sempre escreve em maiúsculas, personagens secundárias mas sempre presentes e dominadores da vida de Mariana e dos seus pais.

Não esperemos encontrar boas recordações ou boas vivências no livro. Elas são quase inexistentes. A autora assume-o quando afirma que não partilha os momentos felizes vividos naquele prédio pois estes são momentos privados. Um contraponto entre a vida exposta a que estava obrigada a viver na pequena loge à vista dos residentes do prédio. No fundo, uma prisão de onde não podia sair e que a colocava sempre à vista dos residentes do prédio, dos seus humores e dos seus caprichos.

Capa do livro

Apesar de curto, o livro concentra tudo aquilo que caracteriza emigração portuguesa para França: a procura de uma vida melhor, o passa palavra sobre uma oportunidade de emprego, o regresso para o querido mês de agosto, o eterno desejo mais ou menos difuso de regresso, a vontade de invisibilização. Passar anos, décadas, num país que não é o nosso fazendo de tudo para passar desapercebido; uma camuflagem que é talvez um dos traços mais marcantes da diáspora portuguesa em França. Com tudo o que isso tem de bom e tudo o que isso tem de mau.

E, claro, a questão do reconhecimento para com o país de acolhimento. Também aí Mariana Alves se antecipa e numa das mais belas passagens do livro, da qual cito apenas o início, responde à questão: “Alguns dirão que não sou grata. E no entanto, sou-o. A minha gratidão tem o sabor a lixívia. Persistente.” É aqui que um relato intimista se transforma num quadro sociológico e feito com a mestria dos grandes escritores.

Uma leitura essencial para melhor nos percebermos enquanto país e a merecer uma edição em língua portuguesa.

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