A construir o século da Guerra, do ódio e do colapso climático
Entre guerras, colapso climático e radicalização digital, 2026 pode ficar na história como o ano em que decidimos que tipo de civilização queremos ser.
Vivemos um dos momentos mais perigosos da história recente. E não, não é apenas uma sensação. É uma realidade que já se traduz em violência real, tensões globais profundas e um clima de incerteza que ameaça definir o nosso futuro colectivo.
Nos últimos dias, Estados Unidos da América e Israel lançaram uma série de ataques aéreos no Irão que resultaram na morte do líder supremo Ali Khamenei, confirmou o media estatal iraniano após a operação militar conjunta que atingiu alvos estratégicos em Teerão.
O ataque, descrito como o mais ambicioso de Donald Trump enquanto presidente, desencadeou uma resposta militar rápida de Teerão. O Exército Islâmico do Irão retaliou com uma série de mísseis e drones contra Israel e bases militares americanas e aliadas no Médio Oriente, incluindo strikes que causaram explosões em cidades como Dubai e Doha, além de incidentes relatados em países do Golfo ligados à presença militar dos EUA.
Estamos longe de uma simples escalada regional. O cenário actual, com potências como China e Rússia a espreitar e a posicionarem-se estrategicamente, eleva o risco de instabilidade global a níveis que não víamos há décadas.
E não são apenas tensões geopolíticas.
Nunca, desde a Segunda Guerra Mundial, o planeta teve tantos conflitos armados em simultâneo como agora. Diversas organizações especializadas apontam para uma realidade em que há conflitos armados em mais de cem fronteiras e dezenas classificados como guerras activas, um dos níveis mais elevados registados em décadas. Por outras métricas independentes, o número de conflitos envolvendo Estados atingiu os níveis mais altos desde 1946. Isto não é especulação: são dados quantitativos que nos forçam a encarar a gravidade da situação global.
Ao mesmo tempo, a natureza está a reclamar o seu lugar. Em Portugal, a depressão Kristin provocou ventos de mais de 150 km/h e chuva intensa em várias regiões, deixando um rasto de destruição que levou o Governo a decretar situação de calamidade em dezenas de municípios. Infraestruturas foram severamente afectadas, o fornecimento de energia ficou interrompido em muitas zonas e há relatos de prejuízos na ordem dos milhares de milhões de euros.
As tempestades já não são episódios isolados. São sinais de um clima stressado, em mudança acelerada. Ondas de calor extremas, secas severas e cheias inesperadas. Tudo aponta para um padrão que a ciência climática há muito vem alertando.
Mas se o risco global, os confrontos armados e a emergência climática já seriam assuntos suficientes para nos preocupar, há ainda um outro fenómeno a corroer o tecido social de dentro para fora: a radicalização digital e a banalização do ódio.
Plataformas tecnológicas tornaram-se ecossistemas em que a indignação não é apenas incentivada, é monetizada. Algoritmos promovem conteúdos que dividem em vez de unir, alimentando bolhas em que a agressividade se transforma em moeda de troca para likes e partilhas. O resultado é um ambiente em que minorias, migrantes e grupos vulneráveis são desumanizados com uma naturalidade perigosa, criando movimentos de ódio que se estendem do ecrã para a rua.
Os efeitos já são palpáveis: recordes de crimes de ódio, agressões motivadas por intolerância e uma erosão da empatia que devia ser o alicerce de qualquer sociedade democrática.
Face a isto, a União Europeia respondeu com legislação mais dura, como o Digital Services Act (DSA), e começou a aplicar multas a plataformas que não conseguem controlar a desinformação e os riscos sistémicos que fomentam polarização e violência.
O que significa tudo isto?
Significa que o perigo que enfrentamos hoje não é unidimensional. Não é apenas guerra ou natureza. É também social, emocional e cultural.
Estamos a tratar mal o planeta, mal o outro e mal a nós mesmos.
E mais: estamos a preparar um mundo que não queremos deixar aos nossos filhos.
Crescer num planeta instável, com regimes em confronto aberto, com clima fora de controlo e com uma cultura que normaliza o ódio não é um legado, é um pesadelo intergeracional.
A pergunta que nos devemos fazer não é apenas sobre o risco de um conflito global.
É mais profunda:
Que mundo estamos verdadeiramente a construir enquanto sociedade?
Que valores estamos a ensinar às gerações que nos seguem?
Esta não é apenas uma discussão de opinião.
É uma questão ética. Civilizacional.
E exige mais do que indignação momentânea ou hashtags de circunstância.
Exige coragem. Exige compromisso. Exige responsabilidade partilhada.
Porque o mundo que deixarmos não será apenas o que vivemos, será o que escolhemos conscientemente permitir.
