A crise de 2008 e como chegámos até aqui
A velocidade a que o mundo mudou nos últimos 20 anos é incomparável. Uma mudança provocada tanto por convulsões sociais e crises económicas, como pelo desenvolvimento tecnológico e a forma como esse mesmo desenvolvimento impulsionou novas formas de comunicação. Ou seja, o momento da profunda crise do jornalismo, da forma mais irónica possível, coincidiu com o grande avanço das tecnologias de comunicação e, já lá vamos, das mesmas redes sociais das quais o jornalismo também faz uso para a divulgação de notícias. O eleitorado mudou, assim como o clima político também mudou. Tem-se falado do efeito das redes sociais, das fakes news, como as redes sociais facilitam a transmissão e a viralização de frases feitas e o possível efeito que tal tem numa maior expressão do populismo não só em Portugal, como um pouco por todo o mundo. Mas será que é só isso? Como é que agentes políticos que são a personificação do sistema conseguem fazer passar melhor a sua mensagem e são aqueles que alegam ser anti-sistema? Como é que se conseguiu fazer passar a ideia de que os valores democráticos passaram a ser anti-democráticos e contra a própria liberdade de expressão? Será que as redes sociais foram exclusivamente culpadas ou havia um contexto ou realidade por trás que agudizou o efeito que as redes sociais têm?
Outra questão, como o próprio António Monegal confessou na entrevista que cedeu à Comunidade Cultura e Arte no ano passado, “os mais ricos conseguiram convencer uma grande parte da população de que os seus problemas são causados por aqueles que são tão ou mais pobres do que eles. De que têm de atacar essas camadas tão ou mais frágeis para solucionar os problemas das sociedades, ao invés de atacar a riqueza acumulada pelos mais ricos: evidentemente, esse é que é o problema do mundo”, avançou. Como se explica, então, que alguém conhecido por proferir, exactamente, a frase “you’re fired”/ “Estás despedido”, tenha sido apontado como o homem forte para resolver os problemas sociais e económicos dos Estados Unidos da América e trazer justiça à classe trabalhadora?
Porque muitas vezes temos uma tendência para esquecer como tudo começou, este artigo convida a uma viagem ao passado, mais propriamente até 2008, a partir da crise do subprime, a crise europeia, a forma como a classe política começou a fazer uso das redes sociais, a subida de uma tendência neo-liberal e como isso fez eco nas redes sociais e como todos estes factores contribuíram para uma mudança do centro eleitoral.
A crise financeira de 2008 e a eleição de Obama.
O ano era 2008 e uma nova esperança pairava no ar. Essa esperança dava pelo nome de Obama. Depois da família Clinton e Bush, pela primeira vez os Estados Unidos da América poderiam ter um presidente afro-americano, ele próprio, sim, fora das famílias políticas tradicionais habituais na Casa Branca, abrindo uma nova era em que qualquer criança, qualquer que fosse a sua proveniência, também poderia aspirar àquele lugar. Era diferente, tinha carisma e, como o documentário “America’s Great Divide”, feito para o programa de investigação jornalística Frontline, para o canal americano PBS, realizado por Michael Kirk, afirma pela voz de David Axelrod, assessor de Obama de então, “lembro-me quando Barak Obama recebeu uma chamada telefónica a avisá-lo de que iria fazer o discurso principal da convenção democrática em 2004. Assim que desligou o telefone, virou-se para mim e disse: ‘Sei o que quero dizer. Quero contar a minha história como parte da história mais alargada dos Estados Unidos’”.
Não iria concorrer nesse ano, 2004, às presidenciais que acabariam com a vitória de George W Bush endereçando-o para o seu segundo mandato contra, então, o democrata John Kerry. O discurso de Obama, no entanto, teve grande impacto. Quatro anos depois, em 2008, seria o então Senador do Illinois que venceria Hillary Clinton nas primárias democratas e concorreria às presidenciais tendo John Biden como candidato a vice-presidente. Do lado republicano concorriam John McCain e a sua candidata a Vice- Presidente Sarah Palin, então governadora do Alaska. Era uma nova mudança “que assustava muita gente”, como confessou no mesmo documentário Ronald Brownstein, jornalista americano especializado em política e autor do livro “The Second Civil War”.

Por um lado, estava depositada em Obama a esperança para uma maior harmonia étnica, para um país mais igualitário e justo, precisamente depois de uma presidência como a de George W Bush, pautada pela guerra no Iraque sem a confirmação da existência armas de destruição maciça, o motivo apontado para a guerra. Mas, por outro lado, o novo presidente recém-eleito seria o herdeiro de uma recessão grave, da crise financeira, económica e laboral resultante do colapso do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimento dos Estados Unidos. O dia 15 de Setembro de 2008 (Obama seria eleito em Novembro), ficaria mesmo na história como o grande símbolo da crise financeira mundial, a maior desde o crush da bolsa de 1929, “a quinta-feira negra” que marcaria a crise dos anos 30 do séc. XX. Esta crise que estalava, arrastaria também a Europa ou já caminharia com ela, mas a sua sombra já se fazia sentir pelas famílias que não tinham outra solução senão entregar as suas casas por não poderem pagar as prestações de crédito à habitação e acompanhar a consequente subida de juros. Foi este o clima que Obama herdou, um país já em estado de divisão, ainda para mais quando uma das suas bandeiras era um novo programa de saúde que resultou no “Obama care”. Tema que, no seio do povo americano sempre foi muito sensível. O partido republicano não lidou bem com a eleição do presidente democrata e, logo na noite da tomada de posse de Obama, reuniu-se em Washington para uma contra-ofensiva. “Teríamos de ver como Obama se comportaria e oferecer uma alternativa ao que queria fazer. Tinha a ideia de que poderia ser combatido pela sua própria ideologia e pelo seu comportamento”, disse Newt Gingrich, deputado republicano da Geórgia e Presidente da Câmara dos Representantes dos EUA entre 1995 e 1999. Trata-se portanto, de uma figura central do conservadorismo americano. O principal foco estava em delinear uma estratégia para bloquear o novo presidente, a sua agenda política e, acima de tudo, criar a divisão social. O plano de ataque começou, exactamente, por explorar ao máximo a cautela de Obama face à crise financeira e económica. Embora as raízes da crise tenham sido anteriores, foi a Obama e ao Partido Democrata a quem coube a responsabilidade de lidar com ela. A cautela de Obama acabaria, desta forma, por ser fatal. Convém relembrar que o presidente só teve a maioria democrata na câmara dos representantes entre 2009 e 2011 mas, para todos os efeitos, era o Partido Republicano que estava, então, na oposição e, por isso, o jogo inverteu-se. Se era a esquerda americana que estava a dar a cara pelas soluções para a resolução da crise, então seria o Partido Republicano a receber as queixas das classes trabalhadoras. Já com uma estratégia em mãos, claro que souberam aproveitar esta inversão de papeis passando a mensagem de que eram contra o sistema, a elite e, acima de tudo, a elite cultural: foi este sentimento que, aliás, gerou o nascimento do Tea Party. “O que parecia era que os grandes responsáveis pela crise estavam a ser absolvidos das suas responsabilidades enquanto o cidadão pequeno estava a ser ‘lixado’”: estas foram as palavras de Charlie Sykes, ex- radialista conservador americano. Milhões tinham ido, de facto, para a reabilitação do sistema bancário, o que enfureceu a classe média. “Foi-nos dito pelos nossos conselheiros económicos que havia uma grande probabilidade do país passar por uma segunda grande depressão. Estávamos à beira de um precipício, e podíamos cair desse precipício”, disse David Axelrod, então conselheiro de Obama. Como fazer com que os responsáveis pudessem pagar por isso? Muitos dos conselheiros de Obama queriam que as entidades bancárias fossem responsabilizadas pela crise, incluído David Axelrod. O seu novo secretário do tesouro, Timothy Geithner, no entanto, era adepto de uma via com mais cautela. “Já tínhamos atirado trilhões de dólares para o problema”, confessou, mas acabou por aconselhar o presidente dizendo que “castigar os bancos iria tornar a crise económica muito pior.” O lado cauteloso de Obama acabou por ganhar. Os bancos acabaram por escapar ilesos muito facilmente, mas a facção conservadora e republicana não deixaria escapar ilesa esta sua decisão e garantiram que Obama pagasse a factura da forma mais alta possível, culpabilizando-o pela crise económica e enxovalhando o seu carácter na comunicação social, da forma mais sensacionalista possível, com o apoio de radialistas, apresentadores e jornalistas republicanos.
O populismo de Sarah Palin
Não foi Trump o pioneiro, da era 2000, a utilizar as redes sociais, a estabelecer uma repulsa e rejeição completa da esquerda americana, contra a imprensa, e a lançar as bases para um discurso populista contra as elites e as elites culturais com o qual a base trabalhadora também se identifica. Expliquemos melhor. É verdade que Donald Trump sempre circulou em torno dos corredores políticos saltando de um partido para o outro: até 1999 fez parte do Partido Republicano, mas foi pelo “Reform Party” que, pela primeira vez, em 2000, tenta uma candidatura presidencial, mas acabando por desistir da sua campanha ainda na fase das eleições primárias do partido. Entre 2001 e 2009 chega a fazer parte do Partido Democrata, depois volta outra vez ao Partido Republicano, passa ainda por uma brevíssima fase independente e é então que se fixa no Partido Republicano outra vez, em 2012, o que lhe permite concorrer para as eleições dos Estados Unidos de 2016.
Mas, efectivamente, até à eleição do seu primeiro mandato como presidente, nunca tinha tido um cargo governativo. Já Sarah Palin era governadora do Alaska quando concorreu para a vice-presidência, no ano da vitória de Obama. “Se quiserem um marco do momento em que a direita rejeitou por completo a esquerda, penso que foi quando Sarah Palin foi nomeada candidata. E por um momento, a direita viu-a como o símbolo de tudo o que andavam à procura. Confiante, independente, alguém que dizia o que queria dizer, cumpria o que dizia e não alterava nada para agradar a ninguém”: palavras de Frank Luntz, analista do Partido Republicano. “Foi quase uma pré-Trump, no sentido em que os ‘reais americanos’, pessoas comuns do dia-a-dia, podiam identificar-se com ela”, esclareceu Megyn Kelly, apresentadora da Fox News, para o documentário da PBS. Palin atacaria a imprensa que, segundo a própria dizia, era partidária, falsa e estava só ao serviço das elites de Washington e, como afirmou Alex Marlow, editor-chefe do Breitbart News,um site de notícias e opinião dos Estados Unidos conhecido por ter uma linha editorial conservadora e de direita, muitas vezes associada à direita alternativa (alt-right): “Ela representou a mudança, quando as pessoas passaram a acreditar que podiam retirar o poder da elite”.

McCain e Sarah Palin não venceram naquela altura, mas o pendor populista continuaria a crescer. Palin regressaria, desta vez a abrir caminho para a forma como políticos poderiam fazer uso das redes sociais para comunicar directamente com o seu eleitorado/seguidores. A caixa de pandora abria-se. Pela primeira vez uma política fazia uso de uma rede social, neste caso o facebook, para comunicar o que queria sem o crivo da imprensa tida como parcial, partidária e falsa. O problema é que sem um crivo da imprensa tida como “maléfica”, os políticos podiam passar a mensagem sem a preocupação da verdade, podendo ser demagógicos, sensacionalistas e populistas. Foi o que Sarah Palin fez no seu plano de ataque ao “Obama Care”.
Foi em 2006 que o facebook universalizou o seu acesso para o público geral, após uma fase inicial em que estava, apenas, acessível para os estudantes de Harvard. Abriu o seu acesso, portanto, apenas dois anos antes do Partido Democrata ganhar as eleições. A par da crise, havia uma questão que Obama queria pôr em cima da mesa do congresso para aprovação: a reforma do sistema de saúde, algo que sempre foi fracturante no seio da população americana. “Que não haja dúvidas, o sistema de saúde não pode esperar, não deve esperar e não esperará um outro ano”, foram as palavras do então presidente em funções perante o congresso americano. É quando justamente Obama deseja avançar com o Obama care, que Sarah Palin volta à cena política fazendo uso do facebook para fazer passar a sua mensagem sem qualquer filtro, atacando a reforma da saúde de Obama e alertando para os “perigos” de uma saúde nacionalizada, comparando-a com uma pena de morte.
“A política original que percebeu que podia contornar os media e que poderia fazer passar a sua mensagem sem qualquer filtro ou edição, foi Sarah Palin”, referiu para o documentário America’s Great Divide Alex Marlow. “Ela foi a primeira política a viver num ambiente de pós-verdade”, confessou Steve Schmidt, o principal assessor da campanha presidencial de MacCain, o mesmo assessor que fez com que MacCain escolhesse Sarah Palin como vice-presidente. O mesmo refere isto: “Ela foi, e não há uma forma educada de dizer isto, uma mentirosa compulsiva. Dizia coisas que não eram verdade ou que encontrava simplesmente na internet. E esta obliteração da fronteira entre o facto e a ficção, entre a verdade e a mentira, tornou-se então endémica na política americana. Mas começou aí”. A campanha da “right wing” estado-unidense na imprensa, rádio e televisão fez o resto, atacando ferozmente as políticas de Obama, e foi deste mesmo espaço que nasceu o “Tea Party.”
O caso europeu
A esfera mundial não ficaria imune a este caos. Olhemos, no entanto, em específico, para o caso da União Europeia e Portugal. O dia 15 de Setembro de 2008, que personificou a quinta-feira negra dos anos 2000, traria a queda do Lehman Brothers, mas não foi num só dia que a catástrofe se deu. A ligação entre a crise americana e europeia já vinha de antes.
Já escrevi para a Comunidade Cultura e Arte (CCA) sobre o livro “Liberdade”, de Angela Merkel, em que a própria abordava também a crise europeia, enquanto chanceler da Alemanha, na altura. Como tal, foi quem mais deu a cara pela crise em território europeu. É desta forma que inicia o capítulo dedicado à crise: “Sábado, 28 de julho de 2007, cerca das 19h25, Salzburgo, Felsenreitschule. Acompanhados dos nossos amigos Ilse e Martin Bartenstein, eu e Joachim aguardávamos, expectantes, a estreia da ópera Armida, de Joseph Haydn, no Festival de Salzburgo. Já estávamos sentados nos nossos lugares na plateia. Antes que, daí a momentos, baixassem as luzes da sala, voltei a tirar o telemóvel da mala para ver muito rapidamente se havia alguma novidade. Fiquei estupefacta. Apesar de ser sábado à noite, o meu consultor de assuntos económicos, Jens Weidmann, enviou-me uma SMS muito breve: «Problemas com o IKB. Podemos falar?» Weidmann era desde o início de 2006 chefe do Departamento de Política Económica e Financeira da Chancelaria Federal. Com apenas trinta e nove anos, tinha uma carreira impressionante: havia trabalhado como economista no Fundo Monetário Internacional (FMI), foi secretário-geral do conselho de especialistas de avaliação da evolução global da economia e chefe de departamento do Bundesbank, o banco central alemão. Se Weidmann me enviava uma mensagem àquela hora, num sábado, tinha de ser importante”, refere Merkel no seu livro.

Segundo o que explica, o IKB trata-se de uma “instituição de crédito de Dusseldorf cujas origens remontam à década de 1920. A atividade do banco incidia, sobretudo, na concessão de créditos de investimento de longo prazo a médias empresas e encaminhava fundos de programas de apoio públicos para os seus clientes. Operava como um “banco de encaminhamento” para o Kreditanstal fur Wiederaufbau (KfW) [Instituição de crédito à reconstrução], o banco de fomento da Federação, que na altura era também o seu maior acionista.”
E continua: “O KfW era, e ainda é, uma entidade pública e dá seguimento a incumbências do Governo federal e dos estados federados. Deste modo promove médias empresas, profissionais liberais e empreendedores e, mediante a concessão de créditos, presta apoio, entre outros, a projetos de infraestruturas, de construção de habitação e de proteção ambiental.”
O que se passou, então, com o IKB? Este organismo tinha fundado uma sociedade-veículo nos Estados Unidos para a qual tinha concedido garantias de liquidez de 1,8 milhões de euros. A crise do subprime americana que antes de 2008 já se fazia sentir traria então problemas e, face a esta situação, o Deutsche Bank tinha tomado a decisão de não prorrogar a linha de crédito do IKB, além de ter informado a Autoridade Federal de Supervisão Financeira, colocando o IKB em risco de insolvência. Tinha-se de travar estas insolvências. Convém não esquecer que o próprio Deutsche Bank se viu a braços com os seus próprios problemas, tal como reporta o seguinte artigo da Exame, “Crises e escândalos levaram Deutsch Bank a reestruturação global”.
No mesmo artigo, lê-se a explicação desses mesmos escândalos: “Nos Estados Unidos, o banco era um dos líderes em empréstimos com hipotecas como garantias — serviços que foram um dos motivos para a crise global de 2008. Mesmo depois que concorrentes abandonaram a estratégia, o banco continuou a vender esses serviços. Naquele ano, reportou seu primeiro prejuízo depois de cinco décadas, com perdas de 3,9 bilhões de euros. Em 2012, o banco se envolveu no escândalo Libor, em que investigações descobriram que bancos manipulavam a taxa de juros média, a Libor, para interesse próprio. Alguns dos principais executivos do Deutsche Bank renunciaram em meio à crise e o banco precisou pagar uma multa recorde de mais de 2,5 bilhões de dólares.”
A par da crise do IKB, outro banco também se encontrava em crise, o Hypo Real Estate Holding (HRE), que se encontrava indexado ao índice de referência do mercado de ações alemão. Seria, então, o Estado a ter uma participação para o seu salvamento. O banco seria nacionalizado.

Tal como referi no artigo sobre “Liberdade”: “A crise europeia que seguiu poria, então, em grave risco países como Portugal, Espanha, Itália e Grécia, sendo a Grécia dos casos que mais controvérsia gerou. Merkel escreve no seu livro de forma clara como uma das condições da adesão da Alemanha à União Económica e Monetária era o ‘no bail out’, ou seja, ‘a obrigação de cada país de assumir a responsabilidade pelo pagamento das suas próprias dívidas. Era o que estava consagrado nos tratados da UE.’ Foi o que Angela Merkel deixou claro numa pré-reunião antes do Conselho Europeu de chefes de Estado e Governo, em 2010, na Biblioteca Solvay.
Essa pré-reunião foi feita a pedido do então presidente francês, Nicolas Sarkozy, e reuniria, então, Merkel, Durão Barroso, Papandreou, então primeiro-ministro da Grécia, e Jean – Claude Trichet, então presidente do Banco Central Europeu. Merkel conta como à excepção de Papandreou que se encontrava em silêncio, o objetivo da reunião seria deixar estabelecido como a Grécia precisava de dinheiro. Segundo consta no livro “Liberdade”, Sarkozy terá dito: ‘Cortes de quatro pontos percentuais do PIB, isso é o caminho mais certo para lançar a revolta nas ruas! Agora, com a crise financeira, precisamos de mais despesa do Estado, não menos! É preciso ajudar a Grécia.’ Trichet esclarece: ‘A Grécia precisa de dinheiro!’. A resposta de Merkel foi a seguinte: ‘É evidente que também gostaria de ajudar, afinal de contas partilhamos todos a Zona Euro. (…) Mas não posso, de modo algum, dar dinheiro.’ Ao que se seguiu a insistência de todos da sala do quão grave a situação da Grécia era.”
Fiz também esta referência no mesmo artigo: “chegou-se a um consenso dos seguintes pontos: exigir à Grécia o cumprimento dos compromissos de redução da dívida; que o ECOFIN aprovasse as medidas de redução do défice apresentadas pela Grécia; a supervisão da Comissão Europeia (CE), do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), ‘que os países da Zona Euro deveriam adotar medidas orientadas e coordenadas caso se verificasse algum risco para a estabilidade da Área do Euro em geral. Angela Merkel remata, ‘Foi assim que, logo naquela manhã de fevereiro em Bruxelas, passámos para o papel toda a filosofia de resgate do Euro. Os Estados-membros tinham de adotar as medidas necessárias a nível interno, que seriam avaliadas pela Comissão, o BCE e o FMI. Posteriormente, as três instituições ficariam conhecidas pela designação Troika. Ninguém assumiria as dívidas de outro país da Zona Euro, mas todos contribuíram para salvaguardar a sua estabilidade global. (…) Eu sentia que tinha condições para trabalhar nesta base, pois também o Tribunal Constitucional alemão vinculou a integração da Alemanha na União monetária à estabilidade desta última.’

Chegaria, então, outro desafio para Merkel. Como dar a conhecer esta decisão ao seu governo em coligação e parlamentares, principalmente quando este assunto não estava incluído nos moldes da coligação do seu governo? Merkel avança que, ‘Voltaram a despertar todos os velhos medos do tempo da introdução do euro por Helmut Kohl. Já na altura muitos não acreditavam que o euro teria a mesma estabilidade do marco alemão. A disponibilidade para ajudar a Grécia era diminuta’, explica. Sobre as aprovações das medidas de ajuda à Grécia no Bundestag, Merkel diz ‘que foi preciso um grande esforço de persuasão’ da sua parte ‘para convencer a maioria dos membros dos grupos parlamentares a aprovarem a lei.’ Isto incluía convencer, inclusivamente, membros da sua própria bancada.”
Desde o início da União Europeia nunca a divisão entre os países do norte e do sul foi tão visível: “os do centro e norte” caracterizados como bem comportados e “os do sul” como mal comportados. Os países do norte mais contidos economicamente e os do sul mais despesistas. Os do norte que tinham de arcar com as consequências e pagar os devaneios do mau comportamento dos do sul.
“Na crise do euro, os países do norte mostraram solidariedade para com os países afetados pela crise. Como social-democrata, a solidariedade é, para mim, extremamente importante. Mas quem a pede tem também deveres. Não se pode gastar o dinheiro todo em bebida e mulheres e depois ir pedir a nossa ajuda. Este princípio vale para o nível pessoal, local, nacional e também europeu”. Quem o disse foi Jeroen Dijsselbloem, em 2017,ministro das Finanças holandês e presidente do Eurogrupo, numa entrevista para um jornal alemão. Recordemos também a designação que foi dada aos países do sul da Europa cujas dificuldades estruturais acabaram por ser expostas pela crise, “PIGS”: Portugal, Itália, Grécia e Espanha. Isto, quando era sabido que se transformava a crise de um sistema bancário em dívida pública e se colocava a culpa nas populações. Não é de estranhar, então, esta afirmação de Varoufakis para um documentário da DW sobre Angela Merkel: “Não podemos esquecer que foi a conduta de bancos como o Deutsche Bank, o Société Générale e o BNP Paribas que criaram a catástrofe da crise do Euro…” Ou seja, instituições que precisavam de ser resgatadas, tal como o sul precisava.
O caso de Portugal
Vejamos o caso português. Depois do governo PSD/CDS de Durão Barroso, o Partido Socialista ganhou as eleições legislativas de 2005. Voltaria a ganhar as legislativas de 2009, mas desta vez sem a maioria absoluta anterior. O espectro da ajuda externa pairava no ar e era preciso implementar o PEC IV, (Plano de Estabilidade e Crescimento). As medidas de austeridade deste plano eram a salvaguarda do governo perante a União Europeia de que conseguiria cumprir com as metas de défice impostas. No entanto, mais um plano de austeridade não foi bem acolhido pelos partidos mais à esquerda do PS. O PSD, já liderado por Pedro Passos Coelho, também deixava claro que mais um PEC não seria a solução. Pela impopularidade e pelo debate nacional que se gerou em torno deste programa, José Sócrates levou-o ao parlamento para aprovação, numa tentativa de aval político, mas tal não aconteceu. Os partidos da oposição, PSD, CDS, Verdes, PCP e Bloco de Esquerda votaram contra. Como tal, o governo de Sócrates cai em Março de 2011, dá-se o pedido de intervenção da troika constituída pela Comissão Europeia (CE), Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI) e, nas eleições antecipadas de Junho, é o PSD de Pedro de Passos Coelho que, em conjunto com o CDS, formam governo e ficam encarregues da implementação do famigerado plano da troika. A verdadeira crise em Portugal começaria agora.

José Sócrates alegava a necessidade da austeridade impopular do PEC IV como forma de contenção do défice, porque a União Europeia e a sua política de “no bail out” assim o exigiam. Os “mercados andavam irritados”, a frase que mais se ouviu na altura, e precisavam de ser acalmados. Tínhamos uma União Europeia que foi exímia em fazer passar a mensagem do despesismo público mal comportado e fez-se passar a ideia de que o caso português era sui generis porque não era um problema de dívida privada nem bancária, era um caso de dívida pública, portanto as gorduras do estado teriam de ser cortadas. Aquando da implementação dos PEC, era um governo tradicionalmente de centro esquerda que estava a dar a cara por essas medidas, enquanto era um partido de direita, na oposição, que pegava no descontentamento geral da população, e que ouvia da mesma oposição, os argumentos “das gorduras do estado” e uma política de despesismo público que levaria à ruína.
Era um partido de esquerda no poder, a dar a cara por políticas que, tradicionalmente, seriam de um liberalismo de direita,também porque a própria UE ao leme de pessoas como Angela Merkel ou Wolfgang Schäuble, assim o exigiam. Mas, ao mesmo tempo, também foi muito fácil alimentar na população a ideia de que “socialismo” era igual a despesismo e que, portanto, seria necessária uma nova via. No entanto, como se viu mais tarde, o problema de Portugal também passaria por um problema bancário, que deixou mais de 14 mil credores a tentar recuperar 7,6 mil milhões de euros das massas falidas do BES, Banif e BPP. Joe Berardo também pode explicar como uma grande fundação pode deixar largas dívidas estatais sem o intento de se pagar um cêntimo dessa mesma dívida. Anos depois não será lícito perguntarmos se a tal dívida pública gerada pelas gorduras estatais, não foi também um caso de dívida privada transformada depois em dívida pública?
Mas continuando, o governo de Passos Coelho trouxe, de novo, o fantasma da imigração. O desemprego jovem chegou a atingir os 42,6% no primeiro trimestre de 2013, enquanto que a taxa de desemprego total atingiu cerca de 17,7% a 18,5% no mesmo período homónimo. Foi o período da Geração à rasca, assim era apelidada a geração Millennial que tentava entrar no mercado de trabalho em completa mutação e revolução. Portugal teve mais de 100 mil emigrantes por ano, algo que não acontecia desde os anos 60/70, constituindo, portanto, o maior pico de emigração desde a democracia. E de que forma se tentou resolver o problema? Aludindo à imigração porque era preciso “bater punho” para ser merecedor de uma vida. O “psicólogo” Miguel Gonçalves, apontado como a grande salvação nacional, foi nomeado “embaixador” do programa Impulso Jovem (um programa do governo para promoção da empregabilidade juvenil), ao mesmo tempo que dizia coisas como estas: não gosta de ler “Os Maias” porque quem lê “Os Maias” é triste, ou que um desempregado jovem de longa duração estava nessa posição porque assim o queria. Nas universidades, as aulas de empreendedorismo tomaram conta, também, dos cursos e mestrados de Ciências Sociais e Humanas, assim como sessões especiais a apelar ao coração que ensinavam que “com força de vontade tudo era possível”, bastava querer, “porque eu posso e consigo”, tenho é ter mérito para isso, mesmo se as condições de base forem desiguais.

Segundo um artigo do site Direcção Geral do Ensino Superior: “É, de certo modo, possível apontar o ano de 2003 como o momento de afirmação para a educação do empreendedorismo no Ensino Superior, deixando uma marca clara na oferta educativa existente – no ano lectivo 2004/2005, cerca de 27 cursos de empreendedorismo estavam em funcionamento. Desde então, as IES prosseguiram no desenvolvimento dessa formação, hoje sobretudo associada a estudos pós-graduados.” Foi no ano lectivo de 2004/2005 que os cursos do ensino secundário se dividiram. Por exemplo, as Humanidades ficaram divididas entre o curso de Ciências Sociais e Humanas e o curso de Línguas e Literatura, afunilando a abrangência do ensino, tendo em vista uma maior especialização mais cedo.
Mas, ao mesmo tempo que essa maior especialização acontecia no ensino secundário, o processo de Bolonha, que entrou em vigor no ano lectivo de 2006/2007, viria a trazer alterações ao Ensino Superior não só na redução dos anos lectivos das licenciaturas mas, também, numa maior abertura dos programas curriculares a outras áreas. O boom da inclusão de cadeiras empreendedorismo assim como palestras e iniciativas relacionadas com empreendedorismo e liberalismo começou a ganhar força nesta altura, desde a criação de novos cursos que aliavam línguas e relações empresariais até à criação de cadeiras de empreendedorismo em cursos de humanidades ou em áreas não tão óbvias. O discurso liberal que já se infiltrava nas universidades começou a ganhar uma nova força durante os anos da crise, tendo como base a cultura do “Do it Yourself” como resposta para um problema para o qual o governo de Passos não soube dar uma resposta cabal – o desemprego jovem.
A nova geração a entrar de momento no mercado de trabalho já pouco se lembrará deste período, ou terá uma vaga ideia, lembrar-se-á mais do período de António Costa, outro governo de esquerda, mas já passamos a explicar. Mesmo com a contestação do governo PSD/CDS e o descontentamento da aplicação das medidas da Troika, a coligação Paf (PSD e CDS) ainda assim conseguiu ganhar as eleições de 2015, mas como uma margem mínima. O PS de António Costa ficou atrás, mas com o engenho da “gerigonça” com o apoio dos restantes partidos, BE e PCP, conseguiu formar governo depois, mesmo sem que, formalmente, membros do BE ou PCP fizessem parte do governo sendo, por isso, uma solução muito engenhosa que poria travão ao governo de Passos Coelho. Talvez a formação da geringonça nos afastasse um pouco da percepção real do que acontecera, o centro político estava a mudar o seu eixo, na realidade.
Na verdade, tanto os partidos tradicionais de centro-direita e centro-esquerda já começavam a ter problemas em formar governo de forma substantiva, mas a gerigonça fez com que, enquanto o resto da Europa virava à direita, também por descontentamento social, Portugal “virasse” à esquerda, funcionando como um penso ou travão temporário para o que viria depois. Mas também o governo de António Costa, talvez aquele que os jovens que se encontram na casa dos 20 anos se lembram melhor desde a sua adolescência, também não foi isento de dificuldades e descontentamento social, independentemente do seu “milagre económico”. O choque da inflação e a subida dos preços do super-mercado viria em 2022, após o período covid, ao mesmo que nos debatíamos e continuávamos a debater com o grave problema habitacional de arrendamento. A economia pode ter dado uma reviravolta, mas os baixos salários da população que se encontra empregada, a par da dificuldade em arranjar um sítio para viver continuam a ser dos nossos problemas endémicos mais graves.
A prova de que a questão do eleitorado ao centro ainda não estava resolvida, foram os resultados eleitorais que se seguiram após o “penso temporário” de Costa ter sido levantado, ao mesmo tempo que o extremismo paira na sombra. Podemos, então, colocar esta pergunta: quem carrega o descontentamento da classe empregada dos baixos salários, dos que ficaram para trás no meio do furacão da revolução laboral e globalização? É fácil perceber se pensarmos porque dizemos, actualmente, a cada eleição, que esta sim, é a eleição mais importante da nossa democracia. O partido do centro-direita tem de olhar para as suas raízes e a esquerda tem de olhar além da sua terceira via de Tony Blair. Há uma classe sem representação — porque sim, ainda vivemos num sistema classes – e se há uma classe que se sente sem representação, então alguém vai aproveitar-se e manipulá-la, fazendo tanto uso do “falso” carisma, como da manipulação de informação falsa nas redes sociais. O mundo está no período histórico mais grave desde os anos 30 do séc XX, há que saber virar o jogo e não ceder ao medo.
