A cultura é sempre a primeira a cair
A Câmara Municipal de Coimbra mandou parar um concurso para a direção do Convento de São Francisco, para o qual o júri já havia feito a proposta de nomeação. Fê-lo não porque discordasse da escolha, o programador, encenador e autor Mickael de Oliveira, cujo percurso em diferentes instituições asseguraria, finalmente, uma orientação para um equipamento que, desde há muito, gostou sempre mais de se apresentar como a sala com as cadeiras mais caras do país. Fê-lo com o argumento de que “o comboio de tempestades” – adoro a ironia deste aforismo, num país sem investimento na ferrovia – criou outras prioridades, e ter alguém a gerir aquele equipamento era uma excentricidade. Cento e oito mil euros por três anos, ou seja, 36 mil euros ao ano, portanto três mil euros brutos por mês, a recibos, não podem ser cabimentados num orçamento municipal, quando, para mais, existem apoios específicos para a recuperação dos territórios afetados pela intempérie?
Ou é mais do que isso? É sempre, não é?
É preferível continuar sem estratégia, sem orçamento, em bolandas no (in)cumprimento da sua missão, de caso em caos, de caos em caso, como tem sido o seu histórico mais recente? Quantos diretores, consultores, programadores já ali passaram, e caíram sempre? E quem programa, se nunca há um nome? É mais transparente, curial, prioritário ser-se opaco? Ou manda-se fechar, porque com chuva não se vai ao teatro?
Foi assim com a pandemia: os apoios para a cultura demoraram a entrar nas contas da resiliência, e tantos anos depois ainda havia quem esperasse pela concretização das promessas do Garantir Cultura, garantidos que estavam já, e feitos, entregues e embalados, todos os projetos pagos pelo bolso de quem já tinha tão pouco ou quase nada.
Foi assim com o PRR, nem uma linha para a cultura, até que uma organização, feita por dentro e em surdina, num gesto raríssimo de confiança, se impôs, e agora é vê-los a sentarem-se à mesa, como os amigos da galinha que não estiveram lá para semear, colher, amassar, colocar no forno.
Espantará alguém que o precedente de Coimbra legitime outros municípios ao mesmo? Leiria, arrasada, voltará a investir em cultura, nos equipamentos e nos profissionais, quando investimento não é só limpar e abrir as portas ao público, pedindo desculpa pelos baldes de água a conterem as gotas que vão continuar a cair? E a Marinha Grande, ou a sempiterna adiada obra no Teatro António Campos, em Vieira de Leiria? E Alcácer do Sal ou Montemor-o-velho? E em Almada, fecham-se as praias? Paramos todos para se reconstruir porque a cultura distrai do essencial, como se alguma vez reclamasse dançar e rir em vez de reparar e reerguer? Não somos sádicos, mas não somos parvos.
Espanta ainda mais que esta decisão venha de uma ex-ministra da Coesão Territorial, onde couberam todos os projetos para a valorização do território, na sequência dos incêndios de 2017, e todos os outros que justificaram consensos, conferências de imprensa, promessas de que agora é que era, e depois não foi nada. Ou um equipamento a funcionar, finalmente liberto de conselhos de califas no lugar do califa, em segredo e sem escrutínio, como grassam pelo país em tantos equipamentos como este, e neste durante tanto tempo, é que é uma melhor gestão dos dinheiros públicos?
Sobre a cultura pesa sempre o anátema do despesismo. É mais fácil justificá-la assim. Mesmo que a fronteira da legalidade da decisão esteja a ser pisada. Mas valha-lhes o santo graal da inimputabilidade!
Os exemplos são abundantes, diários, e em várias áreas. É só escolher porque, nisto, a cultura nunca falha. Há-os em todos os setores, e para todas as escalas. Há uns meses uma deputada municipal em Lisboa, eleita pela Chega, pode criticar opções contratualizadas e consolidadas pelos mesmos que se sentavam agora do lado da vereação, e perante o silêncio tácito e prolongado da empresa municipal, Lisboa Cultura. Ninguém a interrompeu, a contradisse ou assinou qualquer comunicado defendo as opções do executivo, o mesmo que, desde 2021 validara as escolhas agora demasiado “à esquerda”.
As críticas de Margarida Bentes Penedo à programação do Teatro do Bairro Alto, sobretudo, e a alguns, mas menos e ainda assim, de outros equipamentos culturais, mereceram discretos likes de apoio de parceiros e cúmplices, ainda mais subtis partilhas e algumas mensagens de indignação nos grupos habituais. Mas da oposição, nada. Do executivo, nada. Da direção da empresa municipal, nada.
Era para deixar passar? Para que ficasse apenas como uma diatribe do partido que já nos habituou ao infame? Esqueceram-se que um ataque ao trabalho dos teatros é um ataque aos coprodutores, às redes, aos circuitos, e sim, à economia, investimento e retorno, que a cultura produz e gera? É que se isto é dito em público, o que se dirá em privado? Ou é já o caminho para o futuro da Lisboa Cultura, que continua em silêncio sobre as reconduções dos ainda diretores do Teatro do Bairro Alto, Lu.Ca e Museu do Aljube, que chegaram ao fim dos mandatos?
Foi encerrado o Plano Nacional de Leitura, que tinha estratégia até 2027, passou a um serviço dentro de um organismo labiríntico, e nem um haiku se ouviu. Nem sobre isso, nem sobre as denúncias públicas de atrasos de meses nos pagamentos dos consultores do programa, que não eram poucos e faziam muito, sobretudo faziam o trabalho que só a independência, o rigor, o conhecimento e a pedagogia permitem. Mas essa indignação perdeu-se no silêncio burocrático dos serviços. O trabalho estava feito!
Foi anunciada uma linha para a internacionalização, ao arrepio de todas as linhas que já existem, numa lógica que o liberalismo adora, e que funciona sempre melhor em inglês: first come, first served! E nada! Silêncio. Vai-se misturar tudo, quem precisa e quem já tem, da microescala aos grandes eventos, e até a expressão “indústrias culturais”, de tão má memória e inimputável responsabilidade institucional foi recuperada. E nada!
Como no financiamento do Fundo de Fomento Cultural, transformando em concurso, mas na verdade em debate ideológico, o que desde sempre foi prerrogativa discricionária de quem ocupa a pasta. E bem! Porque, servia, precisamente, para acudir às falhas dos programas existentes nas outras linhas de financiamento; servia, precisamente, para contrabalanço, de suporte, de cuidado, de reforço, de atenção ao que não cabe, não pode ser previsto, não pode competir, não existe sem uma atenção particular. Nem Pilatos teve as mãos tão limpas, como agora podem dizer. Nem nunca nenhum vestido foi tão preto. Que medo do compromisso, senhoras! E porquê? Porque o compromisso implica um pensamento, um olhar, uma forma de pensar. E isso é perigoso. E o que é perigoso, não ajuda em tempos de gelo fino.
Foram extintas as direções-regionais de cultura, depois houve uma luta para que a cultura passasse para as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, num evidente conflito de interesses na defesa do Estado, e agora, por exemplo no Alentejo, Ana Paula Amendoeira foi afastada. O seu trabalho de proteção do bem comum, do Estado que somos todos nós, afinal, não foi reconhecido. A sua recondução não deveria servir de argumento para a ideia de qualquer figura providencial, mas sim porque precisamos de gestores que conheçam o terreno e que, quando tudo corre mal – e corre sempre tudo muito mal quando o Estado decide a partir da sua centralidade político-partidária –, é preciso que alguém, mesmo que nada podendo fazer, nos diga, aqui estamos, juntos!
Há uns anos, quando finalmente se começou a organizar a Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses – que de cine tem pouco, mas isso é outra conversa, para já! – impôs-se a obrigatoriedade de uma direção autónoma, de reconhecido mérito, e não uma renomeação não formalizada de alguém que já ocupasse o cargo de técnico na área da cultura. Não era só um formalismo, é o resultado de anos de cursos, estudos, formação, aprendizagem e organização de um setor profissional, que finalmente podia começar a contar com profissionais que sabem o que estão a fazer. Num país que vive inebriado de concursos internacionais, sempre em nome das transparências (o que esta gente adora rendas!), esquecendo-se que não temos escala, nem lugares de experiência para que “os nacionais” concorram a concursos internacionais, o que acaba de se passar em Coimbra é sintoma de um provincianismo atroz, que nos vai deixar atrás de qualquer boa prática.
A desculpa da crise atmosférica serve o engodo do imediato, e não resolve problema nenhum. Olhe-se para o exemplo que a Direção-geral das Artes deu, ao prolongar os prazos de entrega dos projetos a apoio pontuais, porque as entidades da região centro não tem capacidade para os fazer, até porque muitas nem eletricidade têm.
Uma coisa podemos dar como certa: quando a tempestade passar, e os passeios estiverem limpos, as ruas transitáveis, as redes de transportes repostas, as casas refeitas, as contas certas e o tempo melhor, vai haver um grande concerto, um festival agregador, um evento que chame a Coimbra toda a gente, como agradecimento pelo esforço coletivo, com a palavra resiliente tatuada nos sorrisos de toda a gente. É sempre assim! Não demos aos enfermeiros e aos médicos a Champions como prémio? Ou mesmo antes disso, porque é sempre, sempre, assim, e o Convento de São Francisco merece, e os conimbricenses também, e o país!, um momento de festa e celebração que nos faça esquecer anos de mau planeamento e decisões precipitadas, que fazem perigar, o que exatamente?!, ah sim, a coesão territorial, e a afirmação do Estado como pessoa de bem!
E sabemos também isto: vai custar mais, oh mas muito mais!, do que o que custaria a contratação do novo diretor do Convento de São Francisco.
