A dança de um agave minhoto
“Amor, não tenho texto”. É isto o que o comediante diz para a mulher, de noite, quando se deitam: ela, esplendorosamente pronta para adormecer, e ele, com o peso do mundo nos ombros, por estar na cama sem o texto que vai dizer amanhã. “Amor, não tenho texto” – o desabafo possível, sincero e implacável, perante a dura realidade dos factos.
Estava a jantar, num casamento, quando ouvi a história, e com ela a frase. Éramos uma mesa só de juristas, com dois bébes, e o comediante. Pensei em fazer uma piada com o cenário, talvez até duas, mas não consegui esquecer a frase, e de que como seria uma grande forma de começar um livro. Branquinho da Fonseca teria concordado comigo, pelo menos pela forma como começa as suas novelas. “Não gosto de viajar”: o Barão foi um dos muitos livros que li, neste verão, e pergunto-me como é que não o conheci antes, a esta personagem mirabolante, a este narrador maroto e perfeito, e à aventura caótica e desajeitada, cheia de humor que o encontro de ambos congemina. O comediante também teria gostado, por certo.
Tenho mais dúvidas sobre o que é que o comediante teria achado de Creation Lake, de Rachel Kushner. A prosa é boa, dinâmica, mas a história é demasiado enrolada. Gosto da anti-heroína, mas quero que ela perca, porque uma pessoa assim, mercenária total, confiançuda sem escrúpulos, merece perder. Quem não merece perder, nem por muito nem por nada, é Andi Taylor, uma das várias lutadoras de boxe que aparecem em Headshot, de Rita Bullwinkel, que gastou todo o seu dinheiro de verão para ter a cara transformada em polpa no Nevada. A escrita é crua e jornalística, fazendo-nos sentir que estamos perante uma personagem tão viva que não queremos que sofra, nem por um segundo. Devemos estimar as personagens, sobretudo as boas: Ana Teresa Pereira relembra-me sempre isso, bem como a ternura da literatura, e o Sentido da Neve, conjunto de crónicas (ou de histórias?) não é exceção.
Li ainda uns ensaios de George Orwell que achei interessantes, mais do que os livros do senhor que todos vocês “conhecem”. Achei alguma graça à ideia de utopia como sendo um lugar ausente de problemas. Lembrei-me, claro, do nosso país, mundo, existência. As páginas dos livros não ardem, o que poderia causar alguns problemas ao método estrito e desesperado de Op Oloop, personagem de Juan Folley do livro com o mesmo nome, e que é tão alucinado que apenas o queremos ver perder-se ainda mais do que possa ser possível, mesmo na literatura.
Mas por muito real que possa soar o literário, nunca será tão brutal como a imagem serena das folhas das árvores a mexerem-se com o vento, vistas de baixo, com o céu por trás. Nem mesmo o céu algarvio de final de tarde, quase dourado, aproveitado enquanto se está com o corpo mergulhado no mar, como uma personagem redentora, em busca do seu próximo milagre. Há qualquer coisa de especial e transcendente em observar, por uma pequena eternidade, a natureza a ser, como que num sonho bom e profundo. A imagem mais misteriosa deste verão é a do agave, extenso e elegante sob o vale de verde minhoto.
Às vezes penso que sou como o comediante, mas pior, porque para além de não ter texto, também não tenho piada. Tenho alguma pomada be-pantene criança nos dedos, e uma dose bem regada de sono no corpo. De resto, tenho amor, esperança, mau-feitio, e uma atenção demasiado pachorrenta. Fui feito para viver em agosto, apesar de ser difícil viver em agosto, porque em agosto ou se vive ou se foge. Qualquer uma das opções tem de ser assumida por completo, porque o compromisso é a pior decisão possível. As coisas são lentas, espaçadas, quentes, deliciosas em agosto. Veja-se Lisboa, os domingos em Lisboa – a cidade vazia, mais possível do que nunca.
Sim, é insuportável adorar agosto, e até um pouco cínico, porque é apenas uma pausa de trinta dias em que ficamos expostos aos maiores prazeres e violências, antes de tudo voltar ao que é, e a luta recomeçar. Mas o sabor, o sabor do verão, é irresistível, por menos livros que levemos na mochila, ou por mais calor que faça. É a única oportunidade que temos de abrir a janela de casa, num dia de semana pela manhãzinha, e receber um fresco que é agradável, reconfortante, amigo até.
Sugestões do cronista:
Todos os livros mencionados nesta crónica, juntamente com o “White Album” de Joan Didion (que ainda não avançou para lá da primeira crónica). De discos, o novo de Cass McCombs; não sendo tão bom como os anteriores, é confortável o suficiente. Voltei ao “I”, Jonathan do Jonathan Richman, porque é um clássico, e não consigo largar a canção Edelberry Wine dos Wednesday. É capaz de ser das canções mais bonitas e difíceis que alguma vez ouvi.
