A divindade dos deuses e da religiosidade inca é agora a lógica de mercado?

por Rui Maciel,    6 Janeiro, 2026
A divindade dos deuses e da religiosidade inca é agora a lógica de mercado?
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Visitar sítios icónicos faz-nos experienciar coisas que não esperávamos. A semiótica das redes sociais tem um efeito criador de expetativas, principalmente nos locais nos quais existe uma foto típica. Quando chegamos a esses lugares, surge um contraste entre a nossa imaginação e o que realmente vemos. No Machu Picchu não só senti isto, como também a consequência disso: como há sítios no mundo que estão a desaparecer por causa da forma que o turismo tomou.

Quando cheguei ao Machu Picchu, embora houvesse um sentimento de realização, sobretudo o de término de caminho, não posso esquecer a desilusão que também senti. A primeira parte do caminho é feita pelo local onde se tiram as famosas fotografias. Senti uma instrumentalização completa daquele espaço, e, pior do que isso, que a maior parte das pessoas estavam ali por um ato performativo. O Machu Picchu encontra-se numa zona em que é comum estar nublado e, durante a visita, é visível a cascata de pessoas sentadas desde as seis da manhã à espera de que o tempo abra. Também, existem filas nos vários socalcos dos quais é possível tirar a típica foto. Não vou ser hipócrita, também tirei essa fotografia. Contudo, isso não significa que não possa condenar alguns comportamentos performativos que são ali presenciados e, sobretudo, o problema sistémico que estava ali diante dos meus olhos: o de como o turismo, tal como é praticado, pode levar à destruição do próprio sítio que pretende dar a conhecer.

Sobreturismo presente e sentido no Machu Picchu

Tive uma sorte enorme com o meu guia. Lembro-me bem do momento em que ele se virou para o grupo e disse: “Já conseguiram tirar as fotos, agora vamos ao Machu Picchu.” E foi aí que começou a verdadeira visita. Explicou-nos o propósito da existência de Machu Picchu, o significado religioso de cada templo ali presente, e foi então que senti a verdadeira mística do lugar. Ao descer dos socalcos e caminhar pelas ruas estreitas, tornou-se possível compreender a arquitetura inca: a construção em trapézio, pensada para resistir aos terramotos; as várias camadas de edificação que absorvem a água e criam sistemas de irrigação; a importância das janelas e a forma como, no Templo do Sol, elas estão posicionadas de modo a permitir que, nos solstícios de inverno e de verão, a luz solar entre sem criar sombras. Tudo isso revelou o Machu Picchu como um local sagrado, e não como um simples post de redes sociais. Essa mística vem também da sua própria história: enquanto caminhava por ali, pensava frequentemente em como um povo que nem sequer dispunha de cavalos conseguiu construir algo tão magnânimo num lugar tão recôndito.

Na primeira imagem: é uma das montanhas que se observa desde o Machu Picchu e que demonstra o quão místico e recôndito é o lugar. Na segunda imagem: É muito mais bonito aquilo que se vê e sente enquanto se explora o Machu Picchu, do que necessariamente a famosa foto.

Mas, à medida que caminhava por aquele lugar, o sentimento de êxtase começou a dar lugar a um de confusão. O guia explicava que há evidências de que Machu Picchu está a afundar-se. Ao meu lado via várias estruturas de suporte aos edifícios. A história ajuda a contextualizar o problema: estima-se que nos tempos em que era habitado, viviam ali entre 500 a 600 pessoas. Hodiernamente, porém, o sítio recebe, mesmo na época baixa, cerca de 3000 visitantes por dia, número que sobe para cerca de 5000 na época alta. Os dilemas surgiram de imediato: estaria eu a contribuir para a destruição daquele lugar? Estaria, ao publicar fotografias nas redes sociais, e até ao escrever este texto, a incentivar ainda mais a sua visita? Porque, sim, digo-vos: considero este local absolutamente digno de ser visitado.

Muitos são os rumores de que Machu Picchu vai encerrar, mas, na minha limitada experiência no Peru, percebi que isso é simplesmente impossível. Existe uma cidade, Machu Picchu Pueblo, também conhecida como Águas Calientes, que vive exclusivamente deste local; em Cusco, muitas pessoas dependem das tours; e o próprio Peru tem grande parte do seu turismo estruturado em torno deste monumento como destino final. Eu próprio não sei se considero eticamente correto o encerramento de Machu Picchu: deve fechar-se um monumento histórico se isso empurrar milhares de pessoas para a pobreza? Sou capaz de afirmar, com clareza, que o modelo atual não é sustentável e que as políticas têm de mudar. Mas permanece a pergunta: o que fazer quando se vê a galinha dos ovos de ouro a ser lentamente dilapidada?

Na descida de Machu Picchu, enquanto as bolhas nos pés me dilaceravam, matutava sobre estas ideias. Achei um enorme privilégio poder visitar aquele lugar e espero que muitas outras pessoas o possam fazer. Contudo, ocorreu-me que talvez não tivesse tido nem metade destas reflexões se não tivesse sido o percurso que fiz até ali.

O Salkantay Trek é uma trilha de cinco dias, ao longo dos quais se percorrem cerca de 70 a 80 km, com um ganho de altitude aproximado de 3000 metros entre subidas e descidas. A maior parte do percurso é absolutamente remota. Nos primeiros dois dias, não há carros nem rede; são burros e mulas que transportam as bagagens dos caminhantes. Sente-se na pele a religiosidade inca, sobretudo a comunhão com as montanhas. A dimensão do isolamento é tal que quase nos lança para outra realidade. Foi estranho percorrer uma trilha tendo um destino tão concreto e, no final, ao descer, perceber que o que realmente valeu a pena foi o caminho, e não o destino. Mas porque terá sido?

Exemplos daquilo que se vê no Salkantay Trek. Na primeira: está presente numa foto as diferentes camadas do caminho e de como os vários níveis de altitude nos dão paisagens diferentes. Na segunda: uma das paragens que para mim é mais bonita que o próprio Machu Picchu, o Humantay Lake.

Acho que houve vários fatores que contribuíram para isso. Para além de termos tido um guia incrível, apaixonado e intelectualmente curioso, a maior parte do tempo estávamos sozinhos. Os sons eram os da natureza, os telemóveis tornavam-se inúteis, e a falta de ar causada pela altitude obrigava-nos constantemente a focar no caminho e no momento presente. Foi um dos poucos momentos da minha vida em que senti uma verdadeira desconexão total. Nada mais importava do que estarmos bem para podermos continuar, e nada nos provocava um sorriso maior do que saber que íamos parar por alguns momentos. Ao longo de quatro dias, as paisagens mudaram constantemente: o clima inicialmente árido e frio, marcado por paisagens secas, deu lugar à selva, que nos inundava de cores, de suor e de sensações. Havia algo naquela simplicidade e naquele desconforto (que não quero romantizar, aqueles momentos são mais bonitos retrospetivamente do que vividos) que claramente gerava uma forma de felicidade mais plena, menos dependente do exterior.

Exemplo de outra paisagem que se vê durante o caminho. As paisagens são áridas, o ar é rarefeito. Ao descer, o verde torna-se dominante e a selva começa a cercar-nos.

Assim que cheguei a Águas Calientes, tudo foi diferente. Havia uma quantidade enorme de autocarros, filas por todo o lado, telemóveis erguidos no ar e, ao caminhar pelas ruas, éramos constantemente assediados pelos empregados dos restaurantes. No dia seguinte, de manhã, ao ver a quantidade de pessoas e o performativismo em torno de Machu Picchu, concluí que aquele lugar deixara de ser algo sagrado para se tornar meramente um objeto de consumo sacralizado. Senti que a divindade dos deuses e da religiosidade inca tinha sido substituída por outra lógica: a do mercado. Templos que, há quinhentos anos, eram espaços de veneração e respeito eram agora pilhados por câmaras de telemóvel e por hordas de turistas que faziam fila para tirar fotografias, numa adoração que não se dirigia a qualquer divindade, mas a si próprios. Foi triste constatar que um lugar tão remoto e divino tinha sido invadido pela lógica mais ordinária e mercantilista dos nossos dias.

Saí do Machu Picchu não com respostas, mas com a sensação de que o problema é mais profundo do que a simples gestão dos fluxos turísticos. A ameaça que hoje pesa sobre aquele lugar não resulta apenas do número de visitantes, mas da lógica com que o atravessamos. Se Machu Picchu está ameaçado, talvez não seja apenas pelo peso físico dos visitantes, mas pelo peso de uma lógica que transforma tudo, até o sagrado, num ato de consumo. No fim, o problema não parece ser se o Machu Picchu deve fechar, mas se já perdemos a capacidade de estar num lugar sem o transformar numa imagem, feita para ser consumida, e rapidamente esquecida num feed eterno de uma rede social.

Sugestões do cronista:

Aguirre, a Cólera dos Deuses de Werner Herzog. Este filme, realizado em 1972, além de ser absolutamente revolucionário na sua produção, demonstra um pouco do sentimento que vivi na Amazónia. As paisagens são fielmente representadas, mas principalmente o sentimento, a ira, a loucura, a alienação, que uma pessoa sente quando está na selva são sentidas aquando da sua visualização. A banda sonora também é excelentemente bem feita.

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