A energia dos tempos é (tão bem) compassada por Anderson .Paak em ‘Oxnard’

por Lucas Brandão,    22 Novembro, 2018
A energia dos tempos é (tão bem) compassada por Anderson .Paak em ‘Oxnard’
Capa do disco
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Oxnard é o regresso literal às origens de Anderson .Paak, que nasceu neste lugar do estado da Califórnia há 32 anos atrás. Depois do sucesso de Malibu, lançado há dois anos, que lançou o artista para a ribalta, o regresso aos estúdios deu-se neste ano, fora algumas colaborações com outros músicos de renome. Entre essas colaborações, ressalta a dupla NxWorries, criada com Knxwledge, que surpreendeu, pela positiva, o mundo da música. Tudo isto ajudou a que Anderson .Paak se tornasse numa das revelações dos últimos cinco anos, cativando pela qualidade lírica, sonora e energética que transportou para as suas canções.

Foi neste elo de energias positivas, tanto ao alcance do artista, como ao alcance do espetáculo proporcionado, que se recebeu o novo trabalho de .Paak, repleto de canções que combinam o génio individual com as influências passadas e os talentos presentes e futuros. Dr. Dre e Snoop Dogg complementam um lote que também conta com as influentes colaborações de J. Cole, Kendrick Lamar e Pusha T, entre outros. A vibração acalentadora ressoa e predomina em todo o álbum, aproveitando para dar a conhecer as vozes de Kadhja Bonet e de Norelle, que trouxeram uma doçura que assentou devidamente no rasgo de .Paak.

Sentia-se o caminho que o álbum percorreria quando foi lançada a combinação entre ele e Kendrick Lamar em “Tints”, que, embora sem arriscar no instrumental, procurou vibrações leves para aproveitar o pedestal de Lamar naquilo que profere, na forma como profere. No entanto, mal se sabia que o melhor estava para vir, mesmo com a chegada da empática “Who R U?”. O álbum pode-se dividir entre o antes da chegada de Dr. Dre, o seu mentor, ao álbum, em que parece que se aquece para a magia das relações musicais entre planetas, e o depois, em que se parte para uma troca de predicados com outros e outras, mas que tão bem soam ao ouvido. A última música acelera com um ritmo deambulante entre “Left and Right” (é uma música bónus, ao lado de “Sweet Chick”, que protagoniza com BJ The Chicago Kid), mas que soa a triunfo de uma carreira ainda precoce e que tanto promete.

Para quem conhece o músico, sabe que a música que produz está em sintonia com o seu estado de alma. Alegre, empático, simpático, apaixonado pelo que faz e grato até onde chegou. Numa vida que nem sempre lhe correu de feição, tudo isso também se sente nas suas letras, enquanto reflete no estado do seu estado, Califórnia, e do seu país. Entre a fama e o destino do seu país, há um encanto especial na viagem pelo coração do hip-hop, que tanto “Trippy” (com J. Cole), como “Brother’s Keeper” (com Pusha-T) refletem. O desejo de movimentar através da palavra complementa-se pela força da melodia e pela energia que, nela, é depositada. São aspetos revivalistas que extravasam o caminho que .Paak, em Malibu, decidiu seguir, mais colado a uma vibe com sabor a jazz e a R&B. Por mais que não se tenha perdido esse sabor (e ainda bem), as junções de Dre e de Snoop à sua música completam uma identidade cada vez mais completa, com cada vez melhor orientação, sem esquecer os seus parceiros de tempos (Mac Miller é homenageado em “Cheers”, música entoada em colaboração com Q-Tip).

Oxnard proporciona um conhecimento mais íntimo das origens e dos percursos pessoais e musicais de Anderson .Paak no coração da Costa OesteÉ este o seu embrião musical, onde se construiu, com o recurso à vida e à redescoberta pela experiência, o seu conteúdo lírico e melódico. Com estas sensações, e por entre as gerações que ligam a provocação do rap à excentricidade musical que o R&B e o jazz importam, o novo álbum acaba por captar esse esforço de unir os planetas a uma só expressão. É a expressão que .Paak potencia no disco que lança, que, por entre músicas a solo e com influentes vozes da atualidade, faz sentir os seus tempos, por espaços devidamente preenchidos e revelados pela sua arte.

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