A história do Doutor Sócrates: referência do futebol e símbolo social e político
As atenções dividem-se quando se fala do nome Sócrates. Pode falar-se de uma das figuras mais controversas do contexto sociopolítico português dos últimos 50 anos, pode falar-se de um dos maiores rostos da história da filosofia ocidental e pode, entre muitos outros, ainda falar-se de um outro vulto mais ligado ao desporto. Um indivíduo brasileiro, com uma vida abreviada (pouco menos de 60 anos) mas rica de peripécias e de genialidade(s). Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira é o nome daquele que nasceu a 19 de fevereiro de 1954 no nortenho estado do Pará, em Belém. De sua posição centrocampista, dentro das quatro linhas do campo de futebol, munido de uma gama ampla de recursos que carateriza um chamado box-to-box, é-lhe reconhecido o estatuto de mito. Não só a capacidade de, no alto dos seus 192 centímetros, vislumbrar, de assistir, de driblar, de disputar, de rematar, de cabecear, mas a forma personalizada e briosa como o executava. Ou seja, um reforço do conceito que está tão em voga para quem tanto aprecia o onze para onze: futebol-arte.
Um mito que valida o seu exemplo e a sua valia na sociedade do país que o viu nascer e despontar pelo que prevalece em cada apito final: a vida comum. Não só os treinos, mas o exemplo de vida que se produz e que se repercute nas gerações vindouras, naquelas que vieram depois das que inspirou enquanto via as suas intervenções com ou sem a bola no pé. Um mito que, ainda para mais, é engrandecido pela sua apresentação, pela fita no extenso cabelo e pela barba farta que transportava nos seus tempos de maior brilho na “quadra”. Uma fita que, não raras vezes, tinha mensagens de cariz social, nomeadamente contra a fome, o racismo, a guerra e, no caso do Mundial no México, um incentivo ao povo que recuperava de um terramoto nesse ano. Mais do que uma referência desportiva, uma referência ao nível social, cultural e até político e estético.
Ainda mais revolucionário, mesmo na atualidade, é um futebolista, nomedamente no masculino, conseguir manobrar a sua carreira no sentido de integrar os estudos. Ainda (mais e) mais revolucionário é esse mesmo futebolista profissional conseguir ser “doutor”. Foi isso que “Doutor Sócrates” conseguiu ao graduar-se, em 1977, na Faculdade de Medicina do Ribeirão Preto, e exercer medicina na cidade onde cresceu. Começando os estudos ainda antes de chegar aos grandes palcos, conseguiu-o enquanto arrecadava prémios de melhor jogador do continente, mesmo sacrificando muito os seus treinos, e se consolidava como um dos melhores jogadores na sua posição da história da modalidade. No entanto, no exercício da medicina, não prescindiu do seu passado desportivo, tendo aberto uma clínica com ênfase em desportistas de várias modalidades.
Na herança das lendas do futebol brasileiro de então, como Pelé, Garrincha ou Jairzinho, todos eles vencedores da Copa do Mundo, Sócrates tentou fazê-lo ao lado de outros eventuais consagrados, como os criativos Zico, com quem dividia o epíteto de melhor do país, ou Falcão. Corria o ano de 1982 e, em Espanha, a seleção canarinha era considerada uma das favoritas e uma das mais consistentes seleções dessa prova, ficando para a posteridade. Como capitão da seleção, liderou numa vitória frente à eterna rival Argentina, mas, perante a futura campeã mundial Itália, os sonhos ficaram pelo caminho. O estatuto de culto, no entanto, esse havia nascido naquele mês de junho, alimentado por mais um Mundial onde viram outros ganhar, desta feita em 1986, no México, por parte da França de Michel Platini e companhia. Desta feita, cairiam numa lotaria de penáltis, na qual Sócrates falharia o seu. Nem na Copa América Sócrates haveria de ganhar o que seja, o que, como se sabe, ainda alimenta mais o espectro de mito em relação àqueles que tudo ganham.

Porém, a história havia de ser outra no clube em que jogou durante seis anos (entre 1978 e 1984): o Corinthians, sediado em São Paulo. Um clube com base democrática, conhecido por “O Time do Povo” no seio de um regime opressivo, uma ditadura militar que estava de pé nessa década de 1970. Chegado aos 25 anos, idade com a qual também se mostraria disponível para a seleção, Sócrates, ao lado de outros jogadores de nomeada, como Casagrande (que chegou a jogar em Portugal, mais especificamente no FC Porto) ou Wladimiro, encabeçava uma espécie de resistência camuflada contra o regime vigente que cada vez mais mostrava sinais de decadência. Essa resistência já se mostrava da forma personalizada com a qual abordavam a gestão do dia-a-dia do clube. De igual modo, apelavam ao voto (no caso, nas eleições estaduais de 1982) de vários modos, entre eles um apelo declarado nos equipamentos de jogo (“DIA 15 VOTE”).
Era o exemplo daquilo que haveria de ficar conhecida como a “Democracia Corinthiana”, nome dado pelo jornalista Juca Kfouri, onde essa gestão do dia-a-dia era, efetivamente, democrática. Havia poder de voto para todos em todas as decisões do clube, das mais quotidianas às mais estruturantes, das desportivas às culturais, das concentrações da equipa e das transferências aos salários e às férias. Não era menos do que uma tentativa de modelar uma resposta à situação política, defendendo o estatuto dos futebolistas e procurando mostrar à sociedade civil como o poder de voto exercido no clube poderia ser exequível para uma eventual democracia sociopolítica. Uma democracia que também tinha uma estratégia de marketing para fora, que reuniu, entre outros, o produtor televisivo da Globo Walter Clark e a artista Rita Lee, e que o levou a participar em novelas, algo que já havia feito na cómica “Feijão Maravilha” (1979), de Bráulio Pedroso.
Aliás, seria no contexto desta subversão à ditadura vigente que Sócrates migraria para Itália. Isto após, integrado num movimento cívico que apelava a eleições (“Diretas Já!”), no ano de 1984, afirmar, perante dois milhões de pessoas, que sairia do país se o Congresso não conseguisse aprovar eleições presidenciais diretas para esse ano. É nesse contexto que, não o conseguindo, se transfere para a Fiorentina, clube de Florença, apesar de sondagem da Roma, e vê à distância o fim definitivo da Ditadura Militar, guardado para o ano seguinte. Essa mudança de regime, assim como a saída do futebolista, acabaria por afrouxar a “Democracia Corinthiana” (eternizada em livro homónimo lançado em 2002, da autoria do próprio futebolista e do jornalista Ricardo Gozzi, tal como no curto documentário “Ser Campeão É Detalhe” (2011), de Gustavo Forti Leitão e Caetano Biasi). Havia ganhado dois campeonatos paulistas (1982 e 1983), mas o maior legado que havia deixado tinha sido o do seu (e dos seus colegas) afrontar ao regime, onde o exemplo de uma democracia direta era dado numa das maiores instituições desportivas do país. Pessoalmente, Sócrates inspirava-se nas figuras de John Lennon e dos cubanos Fidel Castro e Che Guevara, afirmando-se como alinhado à esquerda e tornando-se, posteriormente, membro do Partido Trabalhista.
Sócrates voltaria ao seu país nesse mesmo ano pela porta do Flamengo, clube do Rio de Janeiro, passando pelo Santos, o clube da sua meninice e também ele do estado do São Paulo. O “doutor” acabaria a carreira aonde tudo tinha começado, no ano de 1989, no Botafogo de São Paulo, emblema ao qual havia entregue uma taça estadual no remoto ano de 1977. Estado para o qual havia vindo novo, com seis anos de idade, nomeadamente para a vila de Ribeirão Preto, onde o seu pai tinha uma função profissional com elevação social. Foi uma posição que lhe havia permitido ter uma casa relativamente confortável, onde os livros (e a filosofia, a mesma que havia dado o nome ao seu filho por estar presente em “A República”, de Platão, que lia antes do filho nascer) tinham lugar e que só o golpe de estado de 1964, que impôs a Ditadura Militar, haveria de ditar o seu fim, acabando queimados por receio de perseguição. Também por essa aversão da família à Ditadura Militar assentou tão bem a ida de Sócrates para a democracia do Corinthians.
De novo, os títulos seriam poucos (um campeonato carioca no Flamengo), mas o peso social da sua presença suplantou qualquer vitrine. Exemplo disso foi, no remoto ano de 2004, ter sido convidado para representar (e treinar) um clube das distritais inglesas, o Garforth Town, e o ter feito num jogo, por força de um contrato que havia assinado por um mês. Tinha já 50 anos de idade e, consigo, trazia um legado estatístico de 22 golos em 60 jogos pela seleção brasileira e um pecúlio de mais de 100 golos nos clubes em que jogou, nomeadamente na “Democracia Corinthiana”. Mesmo continuando a exercer medicina, fez algumas aventuras como treinador, nomeadamente no Botafogo de São Paulo, em 1990, e no LDU Quito, no Equador, seis anos depois, mas foram Sol de pouca dura. Por mais que não parecesse, o futebol não era a sua paixão desmesurada e máxima, ao contrário de grande parte dos seus colegas e compatriotas, vendo-o apenas como um jogo a ser jogado.
A atitude rebelde, carismática e subversiva complementa-se ao saber estar (em campo e fora dele), à elegância, à astúcia. Muitos, como o então psicólogo do Corinthians Flávio Gikovate, afirmam que a sua genialidade futebolística era mais movida pela sua revolta e pelo desânimo que pela alegria. Embora médico, saboreava (e abusava d)os prazeres carnais da vida, nomeadamente o álcool e o tabaco, justificando-se pela severidade das estações do ano no seu Brasil. Como tal, afirmava-se como “anti-atleta”. Um anti-atleta que casou por quatro vezes e casado estava quando faleceu. Tendo seis filhos, mesmo com uma vida pessoal tão turbulenta, nunca deixou de honrar os seus compromissos. Estes incluíam os que estabeleceu com órgãos de comunicação social com os quais colaborava. Na revista “CartaCapital”, tinha uma coluna chamada “Penâlti”, onde abordava as questões sociais e económicas dentro e fora do futebol; já no canal TV Cultura, fazia parte do conjunto de comentadores do programa “Cartão Verde”. De igual modo, seria sempre fiel ao clube que se havia tornado de estima, onde havia sido tão badalado e celebrado: o Corinthians.
Seriam os seus vícios que acelerariam a chegada da sua morte, no ano de 2011, falecendo com um choque séptico após uma intoxicação alimentar, tendo mazelas ao nível da saúde gástrica, mais especificamente no fígado. Morreu conforme sonhava, num ano em que o Corinthians também se sagrou campeão. Para a história, as memórias jogadas e faladas, muitas delas eternizadas em livro biográfico do jornalista Tom Cardoso: “Sócrates – A História e as Histórias do Jogador Mais Original do Futebol Brasileiro” (2014), mas também em “Doctor Socrates: Football, Philosopher, Legend” (2017), do jornalista inglês radicado no Brasil Andrew Downie. Para o futuro, ficaram por terra aspirações de projetos sociais e eventuais projetos culturais, como já havia realizado na gravação de um disco de música sertaneja “Casa de Caboclo” (1982) e na produção da peça de teatro “Perfume de Camélia” (1983, de Ruth Escobar).
O “doutor” Sócrates foi dos escolhidos pela fortuna para ser dos tão badalados dentro do campo como fora dele. Embora o palmarés como desportista não seja comparável com o de tantos dos seus contemporâneos, a sociedade civil reconhece-o como um dos seus mitos. Mito pela vida abreviada que teve, em muito forçada pela conduta de vida que chocava com a sua profissão e até com a sua postura na vida, mas que o destaca como uma lenda. Uma lenda que arrombou portas rumo às reivindicações dos desportistas no seu país e que plantou a semente da consciência cívica na modalidade em que foi tão brilhante. Ideologicamente posicionado, a sua unanimidade foi conquistada onde tantos outros se deslumbraram e sonharam: dentro das quatro linhas. Se o filósofo encantou pela argúcia da sua palavra, este doutor encantou pela plasticidade de um cérebro tão eficaz perante os adversários em campo como perante os fora dele, especialmente aqueles que obsta(va)m à liberdade e à dignidade humana.
