A importância do silêncio

por Rui André Soares,    8 Junho, 2018
A importância do silêncio
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Por vezes, e se calhar a maioria de nós nem se apercebe disso, é cada vez mais difícil escaparmos da banda sonora (ruído ou som não premeditado por nós) que compõe o nosso dia-a-dia. Por outro lado, se pensarmos bem na importância, e no factor regulador, que a ausência de som tem reparamos que seja na música, na comédia, na poesia, no cinema ou até na própria vida de uma cidade o silêncio é extremamente importante e é, pois claro, um bem cada vez mais raro.

“O silêncio – algo que não pode ser comprado – quantos de nós saberíamos defrontá-lo? Os ricos compram o barulho. No entanto, o nosso espírito realiza-se quando estamos mergulhados no silêncio natural – esse silêncio que jamais recusa aqueles que o procuram. O som aniquila a grande beleza do silêncio (…) Não creio que a minha voz possa contribuir com as minhas comédias. Pelo contrário, ela destruiria a ilusão que venho a tentar criar, a ilusão de uma pequena silhueta que simboliza a graça… não uma pessoa real, mas uma ideia bem humorada, uma abstracção cómica” (Charlie Chaplin, 15 de Julho de 1929).

Em 2016, li um artigo sobre o facto de a natureza estar cada vez mais silenciosa e onde o músico norte-americano Bernie Krause, que já trabalhou com músicos como Bob Dylan, George Harrison ou Stevie Wonder, e que se especializou em bioacústica, a ciência multidisciplinar que combina a biologia e a acústica, dizia que “Tudo está a mudar por causa do aquecimento global, do nível dos mares e da desflorestação (…) grande parte dos meus arquivos são de habitats que ou foram radicalmente transformados pela acção do Homem ou já estão em silêncio. Metade desses arquivos já não se podem ouvir de outra forma

“Bergman Island” (2004), de Marie Nyreröd

Recentemente, e em contraponto com este assunto, estive em Amesterdão, uma cidade que recebe cerca de 17 milhões de turistas por ano e onde há mais bicicletas do que habitantes, cerca de 881 000 por 779 mil residentes. Chega a sentir-se uma presença imponente de quem circula de bicicleta, o que é quase como um sentimento novo para quem está pela primeira vez na cidade e sendo esta um caso quase singular no que toca a meios de transporte.

A juntar a tudo isto, uma boa parte dos poucos carros que existem na capital holandesa são eléctricos ou híbridos (há inclusive táxis da Tesla). No entanto, e mesmo recebendo tantas pessoas por ano, é notório o silêncio (ausência de ruído e música) que se faz notar no centro da capital holandesa. As ruas e praças são rodeadas por edifícios mais ou menos altos e homogéneos o que dá a origem a uma espécie de pequenos anfiteatros onde o som é absorvido quase na sua totalidade.

Pode então concluir-se que se no campo o silêncio a mais pode significar problemas, uma vez que pode ser sinónimo de extinção ou deslocação de determinadas espécies, nas grandes cidades o quase silêncio é uma bênção.

Pequena nota final: Amesterdão é seguramente das cidades mais silenciosas que conheci, pelo menos com esta dimensão, e no entanto é também o local em que vi mais pessoas com phones a ouvir música, seja a caminhar como a andar de bicicleta (o que é um verdadeiro perigo). Sendo esta uma cidade tão silenciosa, acontece na mesma uma grande necessidade de isolamento por parte das pessoas e isto dentro do quase silêncio colectivo. Se calhar temos todos muita dificuldade em enfrentar os espaços, as pessoas e a realidade.

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