A insustentável leveza do silêncio

por Maria Mendes Vasconcelos,    20 Julho, 2025
A insustentável leveza do silêncio

Há momentos em que o silêncio já não é prudência. A história julgará os que fizeram — e os que assistiram.

Na Faixa de Gaza, mais de 57 000 palestinianos perderam a vida desde outubro de 2023. Dois terços são mulheres e crianças. Milhares continuam soterrados, sem nome nem sepultura. A fome alastra como método. Os hospitais operam parcialmente. A água escasseia como arma. Um povo inteiro vive encurralado entre os escombros e o nosso silêncio.

A resposta militar de Israel, desencadeada após os ataques terroristas do Hamas, ultrapassou há muito os limites da proporcionalidade. O direito internacional humanitário não permite exceções e a catástrofe humanitária em Gaza exige, mais do que nunca, um olhar ético e comprometido da comunidade internacional.

O perigo de deixarmos passar em branco o que se passa diante dos nossos olhos, compromete-nos a todos. A desproporcionalidade que nos guiou até aqui não estanca, apenas se agrava. Já tivemos prova dada de que aquilo que não se detém agora tornar-se-á, mais tarde, insuportável até para os que hoje ainda desviam o olhar.

É precisamente neste ponto que a Europa se confronta com a sua memória e com a sua promessa.

Nascida dos escombros da guerra e da ambição de “nunca mais”, a União Europeia tem uma responsabilidade singular: a de não ceder à indiferença ou à paralisia. O Mundo observa e espera que a Europa esteja à altura dos valores que a fundaram: a Paz, a dignidade humana, a proteção dos mais vulneráveis.

O tempo exige clareza. Não se trata de escolher lados num conflito, trata-se antes de afirmar, com convicção, que a proteção da vida humana nunca pode ser negociável. Que a fome não pode ser arma. Que a vida de uma criança palestiniana não pode valer menos do que a de qualquer outra.

Talvez devêssemos perguntar: para onde vai a nossa humanidade quando fechamos os olhos a tudo isto? Quando deixamos de ver rostos e passamos a ver apenas números, quando aceitamos o sofrimento como uma paisagem distante, quando o horror se normaliza e o silêncio se instala. A indiferença não é neutra — é corrosiva. Corrói o que resta de comum entre nós. Corrói a nossa condição civilizacional.

As imagens que nos chegam não são abstrações. São feridas abertas que desafiam a nossa consciência coletiva.

Perante a devastação, as instituições internacionais devem agir não apenas em nome da estabilidade ou da diplomacia, mas em nome da humanidade que nos liga a todos. Não podemos assistir à barbárie com os olhos baixos, como se nada nos dissesse respeito. A defesa da vida, — de qualquer vida —, deve ser o princípio basilar que nos orienta.

A exigência de um cessar-fogo imediato, da abertura plena de corredores humanitários e do acesso seguro à ajuda internacional já não pode ser adiada. A sobrevivência de milhares depende dessa ação coordenada, firme e desimpedida.

Além disso, é necessário afirmar, com clareza, que os ataques deliberados a civis, à infraestrutura médica e à distribuição de alimentos não podem passar sem resposta jurídica. O direito internacional não pode ser uma moldura simbólica: tem de ser o alicerce da responsabilização. É dever da comunidade internacional apurar eventuais crimes de guerra e garantir que a justiça prevaleça onde a violência tenta impor o esquecimento.

Também é tempo de olhar para o Médio Oriente com a coragem de romper ciclos de violência que se repetem há décadas. É preciso caminhar para construir o futuro que dizemos defender: um futuro ancorado na justiça, na segurança para todos e na inviolabilidade da vida humana.

O Mundo está a ser observado pelos olhos da sua própria consciência – e o silêncio já não lhe serve de abrigo.

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