A lição de José Pacheco Pereira
Aquilo a que José Pacheco Pereira se predispôs, estava derrotado à partida. Por quem usa a metáfora da luta na lama com um animal, reduzindo o adversário à irracionalidade, quando não há nada de irracional na estratégia do atacante; por quem acha que a melhor forma é não dar palco, e o deixa livre para que seja ocupado por quem comparece, sempre e de insulto pronto; por quem entende que existem fóruns próprios, e que Pacheco Pereira tem muitos, menos aflitivos de ver, sem sujar as mãos e a imagem, sem perder tempo e com regras respeitadas.
Pacheco Pereira, que não precisa da minha defesa, e menos ainda dos conselhos avisados de quem não vai a jogo nas regras do adversário da democracia, fez o que, civicamente lhe pareceu mais correto: dizer que não vale tudo.
Fê-lo como fazem as pessoas decentes: com argumentos, sem nada a perder, sabendo que não ia ganhar, querendo dar contexto, deixando o adversário enrolar-se nos seus próprios argumentos, criando condições não para a conversão de quem não quer ser convertido, mas fazendo o que só a decência obriga: dizer que não vale tudo.
Sim, os tempos já não são hoje os da defesa da honra, e menos ainda do confronto. Promove-se a espera; é-se condescendente pelo cansaço; releva-se, afastamo-nos, seguimos em frente, embalados pelo ritmo do “não passarão” e pelo vento a passar por entre o vale dos dedos erguidos em sinal de vitória. Mas passam. Passam na Assembleia da República, nos executivos municipais, nos programas de debate e nas entrevistas exclusivas, nos cartazes por todo o país, nas advertências do Tribunal Constitucional, nos memes e posts que acham que os ridicularizam, nas bocas e nos gestos e nas cabeças das mais novas gerações que não conhecem mais nada, e de todas as outras que parece que se esqueceram.
É por isso que o quixotesco gesto de Pacheco Pereira é importante. E se todos os que o vimos, e achamos que podia ter sido diferente, melhor, mais certeiro e menos derivativo, fizéssemos como ele, talvez pudéssemos dizer, desta vez, que não valia a pena. Mas valeu.
Pacheco Pereira tem a arrogância do grande educador. Fá-lo em textos no Público e na Sábado, di-lo no programa “O Princípio da Incerteza”, ocupa espaço público, recursos e mediatismo que muitas instituições há tantos anos pedem para fazer o que agora está nas mãos de privados: o acesso à memória coletiva; e há uns anos até tinha um programa bastante ridículo sobre a qualidade da imprensa. É tudo verdade e, por isso, não precisava de fazer o que fez. Podia ter feito como muitos: assinar uma petição, partilhar um post, comentar a sua prestação, desligar a televisão, e dizer que já sabia que não valia a pena. Ser, afinal, o mesmo Pacheco Pereira que pode falar sem se preocupar se está a ser ouvido.
Mas, para lá do que pode ou não soube ou queríamos que tivesse dito, nós, os mesmos que gostávamos que nos vingasse sem que nos salpicassem de lama, é o gesto que mais importa. Lembra-nos sobre valores que importam, e que os outros não respeitam: decência, empatia, memória, coragem. Sim, é tudo superlativo, e até emocionado, porque de agradecimento face ao ponto de não-retorno em que já aceitamos estar a viver, desistentes. Queríamos que tivesse falado com mais rigor, mas ainda com mais força; que não se tivesse prestado a isto, mas o tivesse desfeito; que não vacilasse e não fosse genérico nem sobranceiro, para não lhe dar argumentos; que não deixasse sujar a história, mas também não a torcesse para poder contra-argumentar…. Pacheco Pereira já perdera o “debate” mesmo antes de o iniciar, porque quem poderia fazê-lo por, e com ele, já o tinha declarado derrotado antes mesmo do início.
André Ventura é produto das conquistas de Abril, sob os ombros de quem lutou e morreu para que pudesse pensar livremente, criticar as instituições, o Estado e o poder, ser beneficiário de sistemas de saúde, educação, habitação e justiça que preveem, na sua imperfeição, quem deles discorda, sendo por isso abrangido. É o resultado do melhor da sociedade que diz querer mudar, e é preciso saber lidar, como não temos sabido, e provavelmente Pacheco Pereira até pode nem ter podido fazer neste “debate”. Mas disse-lhe três coisas essenciais: que o discurso do Chega é o discurso da crueldade, da maldade e da gratuitidade. E que será isso, não com ele, Ventura, mas por causa dele, que o mundo como gostaríamos que fosse — empático, solidário, responsável — já começou a ruir. Quem o tenha realmente ouvido, e considere que Ventura foi melhor, sabe agora de que lado está: da mentira, do egoísmo, do mal. E esses já não voltam. Aos outros, por entre as críticas ao estilo, à forma e à intenção, talvez fosse bom perceber o gesto de Pacheco Pereira: a história é feita de quem diz que não vale tudo. Mesmo que ninguém ouça. Pior, que diga que também ia, mas depois não vai.
É pouco? É o que é. Pelo menos não ficou a ver.
