A lógica inversa de Lewis Carroll e o sonho antes dos surrealistas

por Ana Isabel Fernandes,    27 Janeiro, 2020
A lógica inversa de Lewis Carroll e o sonho antes dos surrealistas
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Charles Lutwidge Dodgson, conhecem? Foi professor de matemática e especialista em lógica pelo colégio Christ Church, da Universidade de Oxford. Mas se vos disser que foi, exactamente, um metodológico, acima de tudo, que subverteu a ordem (ou a reinventou) no livro “Alice  no país das Maravilhas? Pois bem, Charles Dodgson era, nem mais nem menos, o nome verdadeiro de Lewis Carroll. E porque o reverendo, hoje, faria 188 primaveras, vamos descer com a Alice ao mundo subterrâneo do país das maravilhas e relembrar uma história pioneira em muitos aspectos, ainda antes de Freud e dos surrealistas. Neste artigo, vamos desbravá-los um por um. Vamos lá! 

A imagem pode ser um texto e um texto pode ser uma imagem 

Reza a história que, em 1862, Carroll passeava com as três irmãs Liddell — Lorina, Edith e Alice — de barco pelas margens do rio Tamisa. As irmãs, filhas do então reitor da Christ Church, suplicaram ao autor que lhes contasse uma história para as entreter. Alice, a de carne e osso,  gostou tanto que pediu ao contista que lhe a oferecesse por escrito. O pedido foi aceite e, em 1864, o desenhista, escritor e matemático ofereceu-lhe como prenda de natal um manuscrito da história, com caligrafia trabalhada e ilustrações do próprio. E é já aqui, nesta primeira versão, que surgiram as inovações. 

Dedicatória do livro manuscrito por Carroll

Comumente, e à luz do que era possível ver-se nos livros de Charles Dickens, por exemplo, as ilustrações surgiam na página seguinte à do texto. Ou seja, havia a página caligrafada e, depois, a ilustração tinha uma página só para si. Carroll, embora não tivesse feito as ilustrações para a versão comercial da obra porque, a seu ver, os seus desenhos não tinham a qualidade necessária, rompeu o cânone quando decidiu ajustar o desenho ao texto, formando um todo no seu conjunto, numa só página. Era, pela primeira vez, a imagem e o texto a comunicarem entre si. O curioso é que já era de seu hábito, principalmente quando redigia cartas, criar imagens ou uma forma final com o texto, numa espécie de gestalt. Isso também está expresso na edição comercial de Alice em várias partes — por exemplo, quando há texto que aparece na forma da cauda de um rato. Todas essas inovações e particularidades foram apreendidas por John Tenniel, na altura já um consagrado ilustrador, que, devido ao facto do livro ser, já por si, bastante imagético, fez com que as ilustrações ganhassem um protagonismo próprio, lado a lado com a história. A título de curiosidade, o próprio Carroll, quando escrevia no seu diário ou em algumas cartas, gostava de substituir algumas palavras pela imagem correspondente. Por isso mesmo, quando usamos ou abusamos dos emojis, não estamos a ser tão modernos quanto gostaríamos de ser. 

Alice a heroína terrena que desbrava o subterrânea. 

A aventura e curiosidade descomprometidas não eram, propriamente, desconhecidas da literatura infanto-juvenil, nem tão pouco o lugar da criança como protagonista. Vejam-se os casos, a título de exemplo, de Oliver Twist ou, então, dos quase contemporâneos de Alice, Tom Sawyer e Huckleberry Finn, que tanta celeuma causaram e continuam a causar: por incrível que pareça, ainda há petições a circularem para impedir o ensino ou a leitura destas obras. Mas, pela primeira vez, esse lugar de destaque dá-se a uma criança do sexo feminino que é, mais do que tudo, curiosa. Entra num mundo surreal mas, embora o ache estranho, não só o aceita como vai ao seu encontro. Não devemos de deixar de dar atenção a um outro facto importante: inicialmente, o título original da obra, dado por Carroll, era “Alice’s Adventures Underground”. Estamos a falar, portanto, de algo subterrâneo porque Alice segue em direcção ao núcleo da Terra, literalmente, quando entra e cai lentamente naquela toca de coelho. Quanto a isso, podemos encontrar paralelismos, por exemplo, com Perséfone,  a própria Eurídice de Orpheu ou até a eterna Beatrice que fez Dante descer até ao próprio Inferno antes de seguir rumo ao Paraíso. A grande diferença, é que em Alice há a consciência de uma tomada de posição. Não foi a toca que foi ter até si, foi a curiosidade de Alice que a levou até à toca. Não há, também, um herói ou um agente exterior a ir ou a tentar salvá-la. É ela que acha curiosa a sua aventura e, com a sua inteligência e perspicácia, é a figura principal que provoca e vive a acção. Não podemos esquecer, portanto, que embora estejamos a falar de um mundo de sonho — porque, no final, é lícito concluir-se que o que é relatado é um sonho da jovem — Alice até pode ser aluada mas não é lírica nem etérea. Alice é a primeira grande heroína telúrica para crianças que desce à terra. 

Poema em forma de cauda, no livro Alice, no país das maravilhas

A única razão pela qual a lógica existe é porque é bastante divertido subvertê-la. O sonho antes da psicanálise e dos surrealistas. 

Se o caro leitor fizer o obséquio de ler o livro depois deste artigo (o que me deixaria contente porque seria a constatação de que uma pessoa não escreve em vão) seria normal perguntar-se como é que um mundo como o do País das Maravilhas, em que a noção que temos do normal é, constantemente, subvertida, partiu de alguém que tinha como profissão a matemática e a própria lógica. Talvez porque essa própria lógica e matemática tivessem sido utilizadas nessa mesma desconstrução. Curioso que em quase todos os documentários sobre Carroll, o próprio é, sistematicamente, referido como alguém extremamente meticuloso, obcecado pela ordem (como se padecesse de transtorno obsessivo compulsivo), tímido e extremamente formal. Por essa mesma razão, por não querer ser reconhecido, é que Dodgson optou pela utilização de um pseudónimo para a publicação do livro. Mas esse seu lado era, automaticamente, transformado no seu oposto quando, por exemplo, lidava com crianças. Daí, também, podermos dizer que, apesar de Alice ter sido inspirada na própria personalidade atrevida, assertiva e curiosa de Alice Liddell, o próprio país das maravilhas seria o retrato do que Carroll poderia ter sido sem a sua ordem imposta, de forma livre. Mas a verdade é que naquele mundo surreal em que a lógica parece, à primeira vista, ser posta de lado, isso não é verdade. Carroll era o mestre em converter a matemática e silogismos em literatura e “Alice no País das Maravilhas” não foi excepção. Neste caso, era preciso conhecer a prisão do formal e os conceitos matemáticos para os representar ou, então, os converter.

Exemplo da disposição da ilustração em conjunto com o texto, à esquerda, na versão manuscrita de Carroll

Tudo isso é visível nas charadas e enigmas, a priori absurdos, que são colocados a Alice no decorrer do livro, principalmente pelo “Mad Hater”. Imageticamente, é interessante pensarmos o quão de matemático há no modo como Carroll brinca com as formas e dimensões. A maneira como Alice muda constantemente de tamanho e desafio da proporcionalidade das formas. O livro pode mesmo ser resumido a isso — o desafio do encontro da proporcionalidade e harmonia na interacção  entre os seres e as coisas. Como é que a protagonista, por exemplo, poderá passar por uma porta demasiado pequena? Como é que poderá alcançar a chave de uma mesa extremamente alta à qual não chega? Como é que Alice poderá sair e escapar de uma casa que lhe fica, literalmente, apertada de mais tal qual um vestido? De tal forma que o cotovelo sai pela janela fora? Tudo pode ser matemático mas também tem a sua semântica, como vamos ver a seguir. A mestria de Carroll está, exactamente, em juntar todas estas áreas tão diversas — desenho, texto, matemática, lógica — ver a relação entre elas e auferir-lhe um significado filosófico. É, então, que percebemos porque razão o maior sinal de inteligência é, acima de tudo, reparar na relação que existe entre as mais diversas áreas. 

Mas a verdadeira e derradeira inovação de Carroll foi, de facto, utilizar o conceito do sonho, trazê-lo para a literatura e fazê-lo, justamente, no universo infantil. Alice estava no jardim, aborrecida e quase a cair de sono, enquanto a sua irmã lia um livro. É quando vê, de repente, um coelho passar por si. Algo completamente normal, não fosse o facto desse coelho falar, utilizar um relógio e umas luvas brancas. É então que a aventura começa. Quando Alice cai lentamente, muito lenta e profundamente pela toca do coelho, isso estabelece um paralelo com uma queda dentro da nossa própria consciência ou, melhor, inconsciência, e é então que a aventura surreal começa. Dalí e Breton ainda estavam longe de ser conhecidos e a teoria dos sonhos de Freud só viria a ser conhecida formalmente em 1900. Ainda não sabíamos pronunciar, pelo menos do ponto de vista científico, a palavra inconsciente. Os sonhos eram apenas meros sonhos, sem relevância psiquiátrica e psicológica. Havia aqui, portanto, um terreno virgem à espera de ser desbravado, no qual Lewis Carroll enveredou e foi um dos seus pioneiros. Mais uma vez, temos aqui a constatação de como as várias áreas se cruzam. Um escritor, quando escreve, não está a fazer meras abstrações ilusórias, pode estar a fazer ciência humana em primeiríssima mão, da forma mais honesta possível.

Afinal, tudo é uma questão de tempo. E o que é o tempo senão uma constante metamorfose?

A mudança das formas e dimensões passa de um carácter meramente matemático para um profundamente psicológico, se tivermos em conta que Alice é uma criança que, brevemente, se transformará em adolescente — um período da vida também ele caracterizado pelo imenso absurdo, mudanças constantes, metamorfoses, curiosidade e, acima de tudo, indefinições. O País das Maravilhas representa para ela o confronto com isso mesmo. O irreal e o absurdo daquele mundo abala a estrutura do que ela pensava ser e, por isso mesmo, começam as dúvidas. Daí, ela dizer no início que já não tinha certeza de nada e que, talvez, já não fosse a verdadeira Alice, mas antes o resultado qualquer de uma troca de personalidades com uma de suas amigas. No fundo, o verdadeiro significado do livro prende-se com o nosso confronto com o desconhecido quando estamos a abandonar estruturas mentais que já não nos servem mais. Para crescermos temos, em parte, de aceitar o absurdo que esse desconhecido pode trazer. A lagarta, com o significado inerente de metamorfose, tem a missão de auxiliar Alice nesse seu confronto com o desconhecido do qual tem medo mas pelo qual nutre uma infindável curiosidade — daí Alice ir, sempre, ao encontro do seu destino e instigar sempre as situações, sem fugir delas. É só o tempo a passar por nós, tal qual uma entidade viva, neste caso representado pelo relógio do coelho. Traz sempre novos absurdos e novos abismos por desbravar, a cada hora que passa traz-nos novas dúvidas, mas também é por isso que crescemos e temos novas certezas. Temos de o aceitar, até porque se não formos ter com ele, ele, de certeza, vem ter a até nós, nem que seja por um desses puxões de orelha que a vida nos dá. 

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