A maldade que nos salva? Uma ponte entre “Wicked” e “Os Irmãos Karamazov”

por Tiago Mendes,    24 Novembro, 2025
A maldade que nos salva? Uma ponte entre “Wicked” e “Os Irmãos Karamazov”
Frame do filme “Wicked: For Good” (2025)

Ao abandonar a sala de cinema, em que assisti à sessão dupla de “Wicked” e da ante-estreia da segunda parte “Wicked: For Good”, sentia a cabeça badalar. Era improvável ter estado ali, a participar naquela odisseia fílmica: a minha relação com musicais é conflituosa; o meu conhecimento sobre o universo de Oz era até ontem nulo (à excepção da belíssima “Back to Oz”, canção de 2021 de Sufjan Stevens e Angelo de Augustine); e, à parte um importante motivo mais pessoal, apenas a participação de Ariana Grande (voz que admiro), a sensação de excepcionalidade de uma sessão dupla de 5 horas e a curiosidade pela minha primeira experiência de IMAX 3D alimentaram o meu entusiasmo por aquela experiência. A tela praticamente em branco de expectativas não antevia, naturalmente, que no decorrer daquela longa e divertida sessão me viesse à memória — por um par de vezes — o livro mais bonito que li até hoje, “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoievski, publicado em 1880; e que, nas 24 horas seguintes, as pontes entre os filmes da Universal Pictures e uma das obras-primas da literatura russa se multiplicassem na minha cabeça. Vi-me, por fim, obrigado a escrever sobre elas.

Três ressalvas, justas. A primeira: não sendo possível a ausência de spoilers (dos filmes e livros em questão) no decorrer dos próximos parágrafos, quero assinalar que o foco da minha reflexão (apesar de conter citações de passagens de ambas as obras) é mais temático do que narrativo. Mas, a quem queira salvaguardar o efeito surpresa da descoberta de cada um destes media, sinta o convite de previamente os ir descobrir em primeira-mão. A segunda ressalva: acolham esta partilha de alguém que até ontem não tinha qualquer relação com Oz (e que há já 6 anos leu a obra russa, com a névoa que a distância cronológica pode representar). A terceira: este artigo não se assume como uma review ou crítica aos filmes, mas sim como uma reflexão solta a partir de apontamentos que mais me marcaram na sua visualização.

Frame do filme “Wicked: For Good” (2025)

O primeiro momento de “Wicked” (ainda o primeiro filme) em que me veio à memória a obra de Dostoievski foi a cena em que Elphaba e Glinda conhecem, por intermédio do Feiticeiro de Oz e da sua assistente Madame Morrible, o artifício sobre o qual o governo de Oz assentava: o que era importante era parecer, e não ser (como Glinda também cantava a certa altura, em “Popular”); era preciso que houvesse um inimigo comum para que existisse união entre as pessoas; e, sobretudo, os fins justificavam os meios. Em particular, este último ponto vai ao encontro de um dilema importante da moral: será que o que interessa é o fundo e a razão das coisas, a procura por uma consciência limpa que nos ilibe da culpa de cada “má acção” que fazemos? Ou o mais importante é que o maior número de pessoas beneficie, nem que para isso se tenha de recorrer a alguma “wickedness”?

Ora esse é também um dos dilemas presentes numa das passagens mais famosas do livro “Os Irmãos Karamazov”: a do “Grande Inquisidor”, episódio só de si poliédrico nas direcções para onde nos aponta a reflexão. Nele, as autoridades da Igreja optam por prender Cristo para o maior bem da humanidade; a verdade não é tão importante como a paz social. Em “Wicked”, é o Feiticeiro de Oz que prioriza a estabilidade da sociedade em torno de uma mentira, e construindo o seu poder em torno dessa farsa. Elphaba — com paralelos com esse Cristo, talvez até mais com o do Novo Testamento do que com o de Dostoievski — representa uma pessoa ostracizada, com convicções contrárias às do poder vigente, que acredita que a Verdade e a Justiça são condições necessárias para a construção dessa paz; e disposta a sacrificar-se em nome dessa caridade até à morte (pese embora, no caso de Elphaba, os seus planos e a sua convicção venham aparentemente a mudar no decorrer de “Wicked: For Good”).

Capa do livro / DR

O segundo momento da maratona fílmica — já em “Wicked: For Good” — em que me veio à memória a obra de Doistoievski foi a cena em que Elphaba e Glinda cantam “For Good”, em que manifestam uma à outra a diferença que a amizade entre ambas representou nas suas vidas e personalidades, para as mudar para melhor. A cena é particularmente interessante porque, apesar de muitas das características fundacionais das suas personalidades — e, digamos, as suas fragilidades-base — se manterem inalteradas ao longo do seu arco narrativo, são tocadas e inspiradas pela experiência dessa relação e desse amor (é tocante, e talvez rara, a forma como ambas expressam “I love you” uma à outra, termo injustamente poucas vezes mobilizado no contexto de uma amizade).

Aparte o facto de a narrativa conducente a essa cena ter sido apresentada, no mínimo, de forma confusa — e eventualmente mesmo com algumas incoerências narrativas, em que não é clara a evolução das motivações das personagens e a forma como aceitam os actos umas das outras sem maior negociação — a mensagem geral é clara, e forte: o amor dos outros toca-nos, transforma-nos. E a lembrança que carregamos desse encontro pode salvar-nos. E até, quem sabe, salvar os outros, como de certo modo acaba por acontecer no caso do mundo de Oz, tal como reinterpretado pela obra que inspira “Wicked”, de Gregory Maguire; é plausível a interpretação de que, no fim do filme, o benefício colectivo deriva, em última instância, dos frutos desta amizade (apesar do preço a pagar nas histórias individuais). As protagonistas perdoam-se mutuamente, despedem-se, mas não se esquecem uma da outra — e a memória desse perdão e desse toque torna-se mapa para o futuro.

Livro – “Wicked – The Life and Times of the Wicked Witch of the West” (1995), de Gregory Maguire

Ora, como não fazer a ponte entre esta ideia e o discurso de Aliocha Karamazov junto à pedra? Dizia ele: “Saibam que não há nada mais sublime, nem mais forte, nem mais saudável, nem mais útil para a nossa vida no futuro, do que uma boa recordação (…) Se uma pessoa juntar muitas dessas recordações, estará salva para toda a vida. E mesmo que nos fique no coração apenas uma boa lembrança, até essa pode servir um dia para a nossa salvação”.

E seguia Aliocha: “Digo isto no receio de que nos tornemos maus (…) mas porque havemos de nos tornar maus, não é verdade, amigos? Sejamos, primeiro e antes de mais, bondosos, depois honestos, e depois, não nos esqueçamos nunca uns dos outros”. O que nos conecta a outra grande ponte — talvez a principal — entre “Wicked” e a obra de Dostoievski (na verdade, não apenas em “Os Irmãos Karamazov”, mas um pouco por toda a sua bibliografia): o tema da maldade, das suas causas e consequências, e do seu mistério (a menina ruiva bem perguntava a Glinda: “Why does wickedness happen?”; um problema que, para Ivan Karamazov, colocava em causa a existência de Deus, ou pelo menos a sua disponibilidade pessoal para se relacionar com Ele).

Frame do filme “Wicked” (2024)

Repare-se que o problema do mal não é abordado em “Wicked” apenas na dimensão de se chamar a atenção para os perigos que decorrem de uma cultura colectiva que procura sempre um “bode expiatório”, um “Us vs Them”, em que projectamos nos outros um mal que pode não ser real. Os filmes também nos recordam, e de forma ainda mais profunda e necessária, que ninguém é imune a ser “mau” de vez em quando, pela natureza frágil do ser humano. A certa altura, o pai do protagonista dos Karamazov diz-lhe: “Só contigo tive bons momentos, porque eu sou um homem mau”, ao que o filho lhe responde, sorridente: “O pai não é mau homem, só é torcido”.

“Damaged people damage people”, diz-nos a cultura popular; o que nos aponta para a responsabilidade que devemos ter uns pelos outros, e para os riscos de efeito dominó que a maldade causa no mundo; em paralelo com a oportunidade do efeito cascata das boas acções, o “pay it forward” (ilustrado em “Wicked” pela oportunidade que Elphaba oferece a Glinda de poder aceder à formação que tanto desejava, em retribuição por um chapéu que interpreta ter-lhe sido oferecido por carinho, que ela nunca sentira de ninguém).

Retrato de Doistoievski, por Vasily Perov, c. 1872

Acontece que o tema da responsabilidade pelos outros, e a perspectiva de que essa responsabilidade pelos “wicked” é a melhor forma de prevenir colectivamente a perpetuação de sistemas de maldade, é um ponto central em “Os Irmãos Karamazov”. Esta ideia é ilustrada, de forma clara, no discurso do ancião Zóssima, uma personagem inspirada por um cristianismo místico e até, diría, algo radical: “Não digais: ‘O pecado é forte, a desonestidade é forte, o ambiente impuro é forte, e nós estamos sozinhos e impotentes; o ambiente impuro sufoca-nos e não nos deixa realizar a nossa boa acção.’ Evitai esse desalento, meus filhos! Só há uma salvação: tornares-te responsável por todos os pecados humanos. (…) A partir do momento em que te tornares sinceramente responsável por tudo e por todos, logo verás que assim é na realidade e que tu és culpado por todos e por tudo”.

Tornou-se surpreendente para mim, até no decorrer da redação deste texto, a profusão de pontes entre estas obras. Às referidas poderíamos acrescentar que a rebeldia de Alphaba no combate a um sistema se poderia associar a rebeldia pela qual Aliocha Karamazov viria a enveredar, como terrorista contra o czar, tivesse Dostoievski tido o tempo de escrever a prevista sequela daquela que é considerada por muitos a sua obra-prima. De igual forma, note-se a natureza algo política de ambas as obras, embora não de forma totalmente directa. E, certamente, outros temas comuns; isto apesar de estilos artísticos e estéticos diametralmente opostos.

Antes da redacção deste artigo, pesquisei na internet se já alguém teria explorado a ligação entre a maldade em Dostoievski e “Wicked”. Nesse exercício, em que não tive grande sucesso, acabei por descobrir uma coincidência insólita numa página de Wikipedia: a actriz que interpretou a “Wicked Witch of the West” no famoso filme de 1939 do “Feiticeiro de Oz”, Margaret Hamilton, estreou-se nos palcos anos antes numa adaptação teatral de “Os Irmãos Karamazov”.

Frame do filme “Wicked: For Good” (2025)

Apesar de não ser o foco deste artigo, queria ainda acrescentar — por último — algumas notas de rodapé finais sobre os filmes “Wicked”. É pertinente e actual a referência que faz ao perigo que a propaganda representa num mundo extremado que estratifica os cidadãos (de primeira e de segunda, e até de terceira) e os coloca uns contra os outros, como solução para a procura da nossa própria identidade e felicidade. Considero ainda relevante a forma como dá ênfase à importância do cuidado e integração de todos, garantindo a liberdade de expressão, a coesão social e a existência de um elevador social, como factores promotores do bem-estar de todos. O ressentimento e o ódio não unem verdadeiramente, nem libertam.

Os filmes falham apenas, talvez, na possibilidade de activação da sociedade como um colectivo, através de uma cidadania esclarecida e informada. Não obstante a tentativa infrutífera de Elphaba (apenas junto dos animais), e de Glinda na cena final junto da população daquela povoação, em “Wicked” a narrativa é quase sempre conduzida por personagens que pertencem a uma elite: os destinos colectivos são decididos apenas pelas escolhas e dilemas morais de quem está no topo, de quem detém um poder ou influência top-down, e em que o indivíduo comum (e o conjunto de todos os indivíduos comuns) não representa um papel activo. Quando muito, e de forma indirecta, o filme constata que essa passividade cívica é o risco que a credulidade representa; que, se calhar, já não é pouco. Mas o momento presente da nossa História talvez carecesse de uma inspiração ainda maior: que mobilizasse a esperança de que também cada um de nós, na modéstia do nosso contributo e posição social, pode fazer a diferença na construção do nosso Oz.

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