A máquina do tempo da felicidade
Há umas quantas décadas atrás, a viagem no tempo era das inspirações mais usadas para histórias de ficção científica, distopias e álbuns. Do “Regresso ao futuro” a “1984”, passando pelo “10 mil anos depois entre vénus e marte”, a viagem no tempo, fosse científica ou mera projecção para a frente ou para trás, era o mote de acção ideal. É fácil entender porquê: ao levarmos o cenário para outro sítio, distante, tudo nos é permitido. Da ditadura à salvação, da comédia à morte, da contemplação à fantasia, lá longe tudo pode existir.
Hoje, as projecções para o passado e para o futuro já não são a principal fonte inspiração da nossa imaginação colectiva. Como se, algures pelo meio da nossa história, colectivamente, decidimos que não valia a pena estar à procura de outro lugar que não este aqui. Que era inútil sonhar com um passado ou um futuro longínquo, por mais risonho ou triste que fosse. O nosso lugar era este: que estupidez essa de olhar para trás ou para a frente. Preocupemo-nos com o dia de hoje. Afinal, já somos crescidinhos para não estar a sonhar por aí.
Estou em crer que esse é um dos maiores erros que estamos a cometer. O que está no cerne dessas fugas, sejam elas para a frente ou para trás, é a felicidade. Aquela que não encontramos nos dias de hoje e que tentamos buscar, ora no passado, ora no futuro. Reparem que mesmo nas histórias mais negras, nas mais horripilantes e trágicas, há sempre alguma réstia de esperança que dá alento ou que nos tenta fazer sorrir, nos tenta fazer felizes, nem que por breves instantes.
As fugas não são iguais. Tampouco têm o mesmo impacto. Para o passado, apesar da tristeza em que possamos ter vivido, existe sempre o efeito nostálgico de que algures, lá atrás, estivemos bem. Que fomos felizes, nem que por um tempo muito curto. Torna-se, então, muito mais fácil sermos felizes a romantizar o passado: pela sua própria definição, já não volta e isso dá-lhe uma magia imbatível. O reverso da medalha é que essas projecções têm menos força, justamente porque esses momentos já passaram e, se voltarem, nunca serão os mesmos.
A projecção para o futuro, pelo contrário, têm muito mais força: é um devir, algo que está por realizar e, por isso, ainda pode ser possível. Quase como se fosse algo que desse para agarrar com a palma das mãos. Contudo, normalmente o que encontramos nessas projecções é decadência e medo. A maioria dessas histórias são de tudo menos de felicidade: são de tragédia, de miséria, de ruína. Será que lá longe, olhando para o horizonte, deixamos de sonhar com sermos felizes? Será que não acreditamos porque o que nos espera é mesmo o fim?
Talvez pior do que a miséria, o degredo ou a tragédia dessas histórias, é a completa indiferença face a essa imaginação, quase como se de algo inútil se tratasse. Tal qual um Estrangeiro, ficamos presos no nosso canto, indiferentes às dores e belezas de um mundo que fica lá longe. Bem sei que o mundo por vezes precisa dessa indiferença, mas quais as razões para este completo “não querer saber”? Preferimos ficar no agora, mesmo sendo ele tão ou mais trágico e conflituoso? Será uma questão de trocar o certo pelo incerto? Mas este certo é tão inquietante…
Estou em crer que enquanto não recuperarmos essas fugas, não recuperaremos a nossa felicidade. Em particular, as que nos levam lá para a frente. O futuro, enquanto projecto, tem primazia ontológica, disse Heidegger. Saltando à frente as palavras complicadas, o que quer dizer é que o nosso presente é moldado e alterado pelas nossas expectativas para o futuro, pelo que queremos nesse dia longínquo que é já amanhã. É como se a máquina do tempo estivesse sempre ligada, viesse lá da frente cá para trás e isso mudasse a nossa vida – mesmo quando nos recusamos a viajar para lá.
Somos felizes? É preciso imaginar que seremos lá para a frente. E, com isso, mudar o presente para o tentarmos ser hoje.
