A meditação da fé descalça de Teresa de Ávila

por Lucas Brandão,    15 Outubro, 2025
A meditação da fé descalça de Teresa de Ávila
Teresa de Ávila / DR

A 28 de março de 1515, Espanha viu nascer uma das suas filhas pródigas. Esta foi Teresa de Ávila, um rosto incontornável na fase da Contrarreforma, capaz de dar um novo e necessário fôlego à fé cristã. Estando na renovação da Ordem Carmelita — na sua ramificação dos Carmelitas Descalços, ao lado do seu compatriota João da Cruz —, Teresa seria reconhecida até à data da sua morte, em outubro de 1582, aos 67 anos. As suas experiências místicas fundamentariam em muito a constituição dos Carmelitas Descalços, colocando uma tónica muito forte na prece mental e silenciosa, numa absorção consciente e direta de Deus; para além de se tornar inspiração para muitas mulheres pioneiras, entre elas a sua devota Agustina Bessa-Luís.

Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada. Este é o nome da futura primeira doutora da Igreja, que nasceu numa família fustigada pela Inquisição Espanhola, dada a sua fé judaica. Porém, a adaptação dos seus pais ao cristianismo dar-se-ia de forma natural, em especial pelas investidas mouras no território espanhol, que, em conjunto com a influência da sua mãe, Beatriz, lhe fariam sintonizar-se com a fé cristã. Teresa era alguém fascinada com as vidas dos santos e, cada vez mais, com a da Virgem Maria. Cruzava estas histórias com as que se inventavam, por norma associadas às de cavalaria e às da natureza.

A sua vida religiosa começaria, precisamente, em Ávila, numa escola de freiras agostinianas, e, passados alguns anos, aos vinte, decidiu, contra a vontade do seu pai, juntar-se a uma comunidade carmelita, comunidade que se havia situado num terreno que, outrora, tinha sido um lugar de sepultamentos de judeus locais. Foi um período em que se entregou, em pleno, à causa religiosa e à prece contemplativa, contando com a inspiração dos escritos de Francisco de Osuna, escritos esses que conduzem ao exame de consciência e à autocontemplação. Para a sua transformação mística e ascética, também colheu pensamentos de Pedro de Alcântara.

Os sacrifícios que fez durante esta adaptação ao ascetismo levou-a a sentir a sua saúde a fragilizar-se, chegando, até, a estar acamada e muitos a temerem pela sua vida. Mencionando a intervenção divina de São José, voltou a sentir-se espiritualmente extasiada e cada vez mais dada a períodos de silêncio e de expressão emocional vinculada a Deus. A necessidade de se render totalmente a Deus, perante a incapacidade de confrontar o pecado de frente de tão horroroso que mostra ser, condu-la a um processo que a irá conduzir à distinção entre as suas irmãs. A complementar a isto, chegaria às suas mãos as Confissões de Santo Agostinho, algo que a fez aceitar os seus escrúpulos e a ideia de que a santidade era possível.

Porém, Teresa mortificava o seu corpo até ao momento em que se dá o momento mais badalado da sua vida, tanto para si, como para todos aqueles que a admiraram nos séculos seguintes, em representações artísticas e demais referências culturais. Assiste-se ao êxtase de Santa Teresa — imortalizado pela escultura (1647-52) de Gian Lorenzo Bernini, que está na Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma —, um momento em que se depara com um anjo, o anjo que lhe desfere um golpe com uma lança de ouro. É um golpe que é mais espiritual que físico e que faz com que Teresa sinta uma dor transmutadora, que faz com que experiencie Deus para lá da dimensão carnal. Sintoniza-se, assim, com a experiência de Jesus Cristo e depara-se com o momento alto da sua fé.

Surgiriam relatos de experiências místicas, como de levitação do seu corpo, entre outros. Teresa seria objeto de estudo (póstumo) de neurologistas e psiquiatras, dado que a sua sintomatologia em muito indica um possível caso de epilepsia. A juntar a isto, Teresa assistiu a comunidade em que estava instalada a desleixar-se no que toca à prática espiritual diária e a intromissão de visitantes, muitos deles associados a cargos sociais e políticos relevantes, na habitual vida monástica aumentaram o seu desligamento desta comunidade.

Quereria já esta alma ver-se livre. Comer mata-a. Dormir a angustia. Vê que se passa o tempo de sua ida em passá-la em regalos e que nada pode regalá-la fora de vós. Parece que vive contra sua natureza, uma vez que já não quereria viver em si, mas em vós.

“Livro de la Vida”

O seu encontro com Pedro de Alcântara seria decisivo para a sua direção religiosa, tomando, aí, em 1562, a decisão de criar uma nova comunidade. Um convento reformado, com uma regra repensada, que primava pelo reencontro com a prece e com o exercício espiritual. Conseguindo os fundos minimamente necessários para o fazer, construiria uma comunidade em torno do convento de San José, ainda em Ávila. Minimamente porque era de frugalidade e de uma enorme simplicidade que era feito este espaço, que causou tanta surpresa em todos os residentes na vila.

Um ano depois, receberia aprovação papal e consolidaria aquilo que se diferenciaria como a Ordem dos Carmelitas Descalços, ordem essa pautada pelos princípios de pobreza absoluta e de renúncia à propriedade. As regras tornaram-se ainda mais estritas no sentido monástico, mas também na própria mortificação, havendo espaço para a flagelação e, conforme o nome da ordem indica, o descalçar das irmãs. Teresa de Ávila, embora sempre muito dedicada à oração e à meditação, circulou pelas diferentes províncias de Espanha para dar a conhecer a ordem e para ajudar a fundar novos conventos nestas, como em Segóvia, em Sevilha ou em Murcia. Um desses inspirados pelo seu périplo seria João da Cruz, que assumiria uma função letiva e pastoral seguindo os princípios de Teresa.

Porém, não seria de ânimo leve que os membros da ordem original receberiam os esforços feitos em Espanha de reformá-la e obrigariam Teresa a retirar-se num dos espaços que havia criado. Fixar-se-ia em Toledo enquanto escutava a animosidade a crescer, que só foi sustida pelo apoio do rei Filipe II de Espanha e pela intervenção do papa Gregório XIII. Assim, prosseguiu o seu périplo pelo país, criando comunidades em lugares como Burgos ou Granada. Seria numa destas viagens que acabaria por falecer, em 1582, numa das suas deslocações a Burgos. Vítima de doença prolongada, acabaria por ser sepultada em Alba de Tormes, na província de Salamanca, onde seria encontrada, nove meses depois, incorrupta. A sua canonização dar-se-ia em 1622 e o estatuto de Doutora da Igreja posteriormente, por Paulo VI, em 1970.

Santa Teresa de Ávila tornar-se-ia na patrona da própria Espanha (então Castela, mas também dos seus estados vizinhos) e, pese embora tenha perdido esse lugar para outras figuras, perduraria no imaginário coletivo nacional. Grande parte do seu relato de vida chegaria a partir da sua autobiografia, “La Vida de la Santa Madre Teresa de Jesús” (ou “Livro de la Vida”), publicada em inúmeras edições mas composta entre os anos de 1562 e 1565. Em vida, veria “Camino de Perfección” ser concluído e até publicado. É uma manifestação do seu modo de ser e de estar, que tanto influenciou futuros religiosos. Considerando-o um “livro vivo”, traz a referência de “De Imitiatione Christi”, escrito pelo canonista Tomás de Kempis, para abordar o percurso da fé através da prece e da meditação, ao mesmo tempo que sustenta a sua visão do ser carmelita. É uma obra que nasce de seus contemporâneos que a incentivaram a descrever as suas experiências e o seu caminho desde a meditação até à união perfeita com o ser divino.

Posteriormente, também escreveria “El Castillo Interior” ou “Las Moradas”, que seria publicado em 1588. Um testemunho opinativo sobre o que considerava ser o percurso ideal da fé, utilizando a analogia da alma contemplativa ser como um castelo com sete mansões, à imagem da configuração de um diamante, pela qual deve passar para chegar ao mencionado estado de união divina. Uma obra que, segundo consta, chegou aos olhos de René Descartes e que tirou algumas ideias sobre o processo da reflexão filosófica para o seu próprio pensamento.

Porque, tanto quanto eu posso entender, a porta para entrar neste castelo é a oração e reflexão, não digo mais mental que vocal; logo que seja oração, há-de ser com consideração; porque naquela em que não se adverte com Quem se fala e o que se pede e quem é que pede e a Quem, não lhe chamo eu oração, embora muito meneie os lábios.

“El Castillo Interior”

A verdadeira tese da teologia de Teresa de Ávila centra-se na ascensão da alma, em muito fundamentada pelas suas próprias experiências. Sem grandes referências intelectuais anteriores, há uma enorme pessoalidade no seu entendimento da fé, que volta a centralidade divina para o coração de cada um. A devoção do coração, que traz a fase inaugural de meditação e de prece mental debruçada sobre a paixão de Cristo, que convida a que a vontade se subordine à de Deus. É um estado de consciência que é permitido para lá da distração mundana gerada pela memória ou pela imaginação. Aqui, atinge-se a quietude que prepara o terreno para haver uma absorção na divindade — o célebre êxtase.

É o momento em que, também, a razão se alinha com a divindade e deixa o passado e o futuro a especular. Atinge-se uma paz profunda e tida como abençoada, na qual o corpo vai emergindo e, de certa maneira, desaparecendo no entendimento dos sentidos. Corpo e alma fundem-se no inconsciente e traduzem as tais experiências tidas como levitações ou até surtos. Em vez de surtos, são, antes, expressões sistemáticas dos êxtases que são sucedidos por momentos profundos de relaxamento, suprimindo as demais faculdades humanas no momento de união com Deus. A transe é sinónimo de um misticismo que está solidificado nos tais lugares de fermentação da fé.

Não penseis que seja semelhante a um sonho, como a oração passada. Digo sonho, porque na quietude a alma está como que adormecida: nem lhe parece que dorme, nem se sente acordada. Aqui estamos de todo adormecidas. Profundamente adormecidas a todas as coisas do mundo e a nós mesmas. Com efeito, durante o pouco tempo em que dura a união, a alma fica verdadeiramente fora de si, sem sentidos. Não é possível pensar, ainda querendo, nem é preciso prender a imaginação com artifícios.

“Livro de la Vida”

Os alicerces são constituídos pela prece e pela meditação, como é apanágio. São indispensáveis na purgação de eventuais males ou vícios existentes e os garantes de um processo tão ascético. A humildade é um portal necessário de entrada neste percurso, no reconhecimento do pecado vivido e experienciado. Esse nível de base dos castelos de que Teresa falava encaminha para a prece diária e para o reconhecimento de Deus no dia-a-dia e para a assimilação da graça e do amor divino, que faz com que a alma se sinta avessa aos pecados. Os esforços diários são feitos tendo em vista a glória de Deus e dos seus princípios e abrem caminho para o estádio de iluminação, que convoca o misticismo para esta experiência de fé.

Há uma distanciação da alma que procura Deus e que, nessa busca, vai encontrando momentos de partilha plena com este, até ao momento em que é quase uma relação conjugal. São sedimentos de um percurso de oração vocal, mas também mental, com uma carga afetiva profunda, de origem natural ou mesmo passada por outrem, por via da lembrança e da memória. De facto, a última dimensão chega-nos com o casamento espiritual, no qual a alma alcança uma claridade plena através da oração. De certa maneira, este percurso é comparado aos sete chakras que a cultura hindu traz, que caraterizam diferentes pontos do corpo humano considerados fulcrais no funcionamento físico, emocional, espiritual e mental do ser.

Esse alimento em forma de prece pode-se exprimir-se de forma mental, natural e infundida. A mental, feita sem recursos a ladainhas ou orações pré-concebidas, cruza-se com a natural na medida em que é criada num processo meditativo e que surge num diálogo com Deus. Uma prece que, conforme Teresa, é similar a um jardineiro que recolhe a água das profundezas para irrigar as plantas e as flores. No entanto, a natural é ainda mais simples, norteada por um pensamento ou um sentimento que vai permanecendo e que surge recorrentemente. É o chegar à contemplação, na qual a verdade chega a partir da intuição e da simplicidade de raciocínios e de afetos, com reforço dado pelos sentidos; um pouco como uma mãe a admirar o berço da sua criança. O amor à causa é uma etapa que chega a vários dos seus sucessores nas ordens religiosas, como Inácio de Loyola com os seus exercícios espirituais que vivenciou e que institucionalizou na Companhia de Jesus, ou Francisco de Sales e a Ordem dos Salesianos.

A prece contemplativa faz parte do percurso que antevê a união mística e fá-lo de forma amiga e íntima, no encontro com as origens e com as razões da vida. Embora o enfoque seja sempre a divindade, na verdade, traz a vontade humana como uma das principais protagonistas, que acede à cooperação de livre e espontânea vontade para os benefícios do exercício espiritual. A manifestação divina que se proporciona desencadeia o êxtase e um estádio no qual a perceção de amor e de entrega é total, bebendo, de igual modo, da palavra dos Evangelhos para o seu modo de vida. O discurso evapora-se nas palavras e nos conceitos e transmuta-se de forma a ir do ascetismo para o misticismo, misticismo este que, de forma implícita, se une com o das religiões orientais.

Enquanto escrevo, vou analisando o que se passa na minha cabeça. Como disse no princípio, trata-se de um grande ruído, que me torna quase impossível escrever isto que me mandaram. Tenho a impressão de ter na cabeça rios caudalosos, cujas águas se despenham. Ouço bando de passarinhos e também silvos. Não com os ouvidos corporais, senão no alto da cabeça, onde, segundo dizem, reside a parte superior da alma.

“El Castillo Interior”

O samadhi hindu e o shikantaza budista são análogos à prece da quietude que Teresa de Ávila aborda quando se refere à paz extraordinária e à sensação de prazer subjacente que a alma humana sente na contemplação do divino. O tal momento no qual a alma está totalmente entregue a essa dimensão de tal forma que até a própria prece passa a ser secundária e até dispensável. Isto não surge sem a perceção da graça misteriosa que antecipa o encontro com a divindade através de um entendimento do metafísico, do sobrenatural.

Teresa de Ávila fez povoar o cristianismo e o catolicismo de uma profunda tendência meditativa e introspetiva. Em muito, muito provavelmente sem o saber, foi mergulhar nos pressupostos das religiões do Oriente, mais vocacionadas para um exercício religioso interno e remetido para o processo da oração. Não obstante, o seu papel na criação dos Carmelitas Descalços também mostrou o seu impacto na obra palpável no seu país e no mundo em que, através do seu corpo, viveu em carnalidade. Posteriormente, para além de muitos religiosos que aprofundariam o seu caminho de fé, também leigos e demais gentes de longe dos discursos espirituais trouxeram a sua figura para a literatura, para a música, para o cinema, para a arte, sublinhando o ser mulher independente, autónoma, autodidata. Prova plena e imortalizada de uma entrega ao encontro com o divino que, por mais interior que fosse, se revelou tão exterior.

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