A neutralidade é cobardia bem vestida

por Ricardo Costa,    23 Dezembro, 2025
A neutralidade é cobardia bem vestida
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Há palavras que soam bem, mas escondem comportamentos moralmente frágeis. Neutralidade é uma delas. Em tempos normais, pode ser prudência. No tempo em que vivemos, é sobretudo cobardia bem vestida.

Vivemos rodeados de gente informada, instruída e silenciosa. Pessoas que sabem exactamente o que está errado, mas preferem não se expor. Não porque não tenham opinião, mas porque têm medo do custo de a assumir. Medo de perder estatuto, seguidores, convites ou conforto. Chamam-lhe equilíbrio. Eu chamo-lhe desistência.

Hoje, não tomar posição não é ficar de fora. É ficar do lado mais forte.

A ideia de que “todos os extremos são maus” tornou-se o álibi perfeito para não enfrentar nada. Coloca-se tudo no mesmo saco, dilui-se a responsabilidade e segue-se a vida. É cómodo. E profundamente perigoso. Porque nem todas as posições são equivalentes. Nem todos os silêncios são inocentes.

Há quem confunda tolerância com submissão moral. Há quem confunda diálogo com aceitação acrítica. Há quem ache que ser civilizado é nunca incomodar. Não é. Ser civilizado é saber dizer “não” quando a dignidade humana começa a ser negociável.

A neutralidade não protege a democracia. Protege quem a ataca.

A cultura e a arte, que deveriam ser lugares de confronto intelectual e elevação ética, começam demasiadas vezes a esconder-se atrás de uma falsa leveza. Entretenimento sem nervo. Criação sem risco. Discursos polidos para não ferir susceptibilidades. Quando isso acontece, a cultura deixa de ser consciência e passa a ser decoração.

E uma sociedade decorativa é uma sociedade vulnerável.

Há um silêncio que grita. O silêncio dos que têm voz e escolhem não a usar. O silêncio dos que se dizem moderados, mas só se indignam em privado. O silêncio dos que assistem à degradação do debate público e encolhem os ombros, como se não fosse com eles.

É com todos nós.

As próximas gerações não vão herdar apenas decisões políticas. Vão herdar exemplos. Vão herdar a normalização da agressividade ou a coragem do confronto ético. Vão herdar a indiferença mascarada de bom senso ou a responsabilidade assumida com desconforto.

Não será a história a julgar-nos. Serão os nossos filhos.

O grande erro da nossa geração pode não ser o que disse ou fez. Pode ser aquilo que aceitou em silêncio, achando que não tomar posição era sinal de inteligência. Não era. Era medo.

Num tempo em que tudo está à vista, a neutralidade deixou de ser opção moralmente aceitável. É uma escolha. E é uma escolha que tem consequências.

A pergunta já não é “de que lado estás”.

É mais simples e mais incómoda:

O que estás disposto a perder para não seres cúmplice?

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