A ocupação da ajuda ou como o humanitarismo passou a servir o status quo
Há perguntas que atravessam tudo — a política, o jornalismo, a solidariedade — e que, por hábito ou desconforto, evitamos olhar de frente. A conversa com a Margarida David Cardoso obriga-nos a fazê-lo: quando dizemos que apoiamos a Palestina, o que é que estamos realmente a apoiar? E de que forma?
Margarida é jornalista no Fumaça, um podcast de jornalismo de investigação, independente e sem fins lucrativos, focado no escrutínio de sistemas de opressão e desigualdades que publicou, em 2025, a série Indústria da Ajuda na Palestina. Os quatro episódios funcionam como uma espécie de radiografia moral: iluminam as engrenagens de um sistema tão presente que se tornou invisível. E o que revela não é uma sucessão de falhas ou equívocos, mas um modelo coerente, fabricado ao longo de décadas, que transformou a Palestina num laboratório global de governança humanitária.
A primeira camada desta revelação está na linguagem. Em toda a série, as palavras são um campo de batalha tão real quanto os checkpoints:
“Colonialismo”? Arriscado.
“Apartheid”? Polarizador.
“Nakba”? Incómodo.
“Direito de retorno”? Inviável.
“Descolonização”? Fora do quadro.
O que se perde não é apenas a precisão conceptual, mas a possibilidade de nomear a causa do sofrimento, que é também a forma mais profunda de resistência. A economia da ajuda exige que tudo seja convertido em categorias neutras: vulnerabilidade, resiliência, governança, peacebuilding, capacity-building. Como se um povo estivesse a aprender a gerir
a sua própria dor e não a lutar contra as estruturas que a produzem.
É por isso que o trabalho do Fumaça é tão importante: porque recusa a anestesia. Ao analisarem anos de relatórios, contratos, legislação, entrevistas e episódios de criminalização das ONG, deixam evidente que não são apenas projetos que são avaliados — é a própria gramática da resistência palestiniana que é filtrada, editada e amputada. Não por pessoas individuais, mas por um sistema global que transforma política em administração e opressão em “contexto”.
Mas o episódio de Yalla com a Margarida aprofunda algo ainda mais inquietante: a indústria da ajuda não foi um subproduto dos Acordos de Oslo — foi um dos seus pilares. Os Acordos não criaram apenas uma Autoridade Palestiniana sem soberania; criaram também uma arquitectura de dependência económica e institucional que substituiu movimentos de base — sindicatos, comités de mulheres, associações estudantis, estruturas comunitárias — por ONG profissionalizadas, moldadas pelos idiomas e prioridades dos doadores.
A resistência, que durante a Primeira Intifada se construía na rua e nas aldeias, foi redirecionada para escritórios, planificações trimestrais e relatórios de indicadores. E não é irrelevante que muito deste financiamento venha condicionado por cláusulas antiterrorismo que obrigam ONG palestinianas a rastrear politicamente quem entra num workshop, quem recebe um apoio jurídico, quem está inscrito num programa agrícola. Como disse a ativista palestiniana Lubnah Shomali, “estão a pedir-nos para sermos o braço operacional da sua política de segurança.”
Quando uma ONG recusa assinar, perde financiamento. Quando insiste em usar palavras como “colonialismo” ou “apartheid”, perde doadores. Quando tem um filho, um tio ou um vizinho preso sob detenção administrativa — o que, na Palestina, é quase inevitável — arrisca ser acusada de apoiar terrorismo. E quando insiste em continuar, mesmo assim, pode ver o escritório invadido às três da manhã, as portas seladas, os computadores confiscados, os funcionários interrogados durante horas.
Não estamos a falar de exceções. Estamos a falar de um sistema que opera com a mesma lógica de sempre: despolitiza o colonizado para absolver o colonizador.
E o que talvez doa mais — e aqui a Margarida é cirúrgica — é que a maior parte das pessoas que trabalham neste sistema não têm intenção de perpetuar injustiça nenhuma. São profissionais que acreditam no que fazem, que tentam servir comunidades, que passam noites a escrever relatórios impossíveis, que tentam dobrar as regras para ajudar, que tentam proteger equipas e beneficiários.
Mas, num sistema desenhado para gerir o sofrimento em vez de resolver as suas causas, a boa vontade individual torna-se irrelevante. O problema nunca foi de carácter, mas de estrutura. A ajuda internacional nasceu, e continua, marcada por um olhar profundamente eurocêntrico que mede a Palestina enquanto “problema humanitário” e não enquanto povo em luta por libertação.
Como resume Wesam Ahmad, antigo diretor da Al-Haq, organização palestiniana de defesa de direitos humanos, com sede em Ramallah, na Cisjordânia, “o sistema cria rodas de hamster: gastas energia, sentes que estás a avançar, mas ficas sempre no mesmo lugar.”
A metáfora é perfeita. A ajuda humanitária não está desenhada para transformar a realidade, está desenhada para torná-la administrável. Mantém a ocupação estável, legitima a Autoridade Palestiniana como “parceiro”, garante que a violência estrutural nunca explode ao ponto de abalar alianças internacionais. Israel bombardeia; a ajuda reconstrói. Israel fecha zonas agrícolas; a ajuda cria workshops de resiliência. Israel prende crianças; a ajuda oferece apoio psicossocial. A máquina gira, gira e gira… sempre longe da questão fundamental: quem detém poder e quem o contesta?
Por isso, voltamos à pergunta que deu mote à série do Fumaça: Quando dizemos que apoiamos a Palestina, o que é que estamos realmente a apoiar, e de que forma?
Porque apoiar a Palestina não pode significar apenas financiar projetos que evitam nomear o colonialismo. Não pode significar aceitar cláusulas que criminalizam a memória política de um povo. Não pode significar reforçar estruturas que existem para administrar a ocupação, não para a desmantelar.
A ocupação da ajuda é também uma forma de ocupação. E desmontá-la faz parte da luta.
Este artigo baseia-se na entrevista realizada pela autora a Margarida David Cardoso no podcast Yalla, produzido pela Don’t Skip Humanity.

