“A Separação”, de Asghar Farhadi: a fragilidade da verdade numa sociedade de fraturas gratuitas

por Mundus,    14 Abril, 2020
“A Separação”, de Asghar Farhadi: a fragilidade da verdade numa sociedade de fraturas gratuitas 
“A Separação”, de Asghar Farhadi
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Todas as segundas-feiras, o Mundus sugere. Esta semana, deixamos-te com a sugestão cinematográfica de João Damião Almeida.

Ao escolher o título para a sua longa-metragem de 2011, Asghar Farhadi apela imediatamente ao processo de divórcio do casal iraniano que protagoniza A Separação (no original “Jodaeiye Nader az Simin“), aparentando evocar a suposta trama principal da narrativa. E o tema seria certamente suficiente para o realizador e argumentista de À procura de Elly, na sua mestria minimalista e emocionalmente profunda (que de resto o cinema iraniano já nos vem habituando), tecer toda a análise para o seu ensaio. Mas, com o avanço do filme, as separações multiplicam-se e, numa narrativa crua e moralmente complexa, Farhadi fala-nos afinal de muitas outras divisórias, invisíveis também elas, numa sociedade moderna fortemente segregada por sexo, religião e classe. Um filme que é tanto marcado pelo contexto sociopolítico do Irão contemporâneo, como um reflexo dos frágeis e universais sentimentos humanos, brilhantemente orquestrados e balançados em palco. 

“A Separação”, de Asghar Farhadi

A Separação abre com o plano de um casal sentado lado a lado em frente à câmara, expondo em tribunal de família a razão da discórdia: Simin (Leila Hatami) conseguiu finalmente um visto para o estrangeiro, onde prevê mais oportunidades para a filha Termeh (Sarina Farhadi), mas o seu marido Nader (Payman Maadi) recusa-se a abandonar o pai octogenário (Ali-Asghar Shahbazi) que sofre de Alzheimer. Cada posição é impassível, a renúncia à custódia é impensável, Simin e Nader vão separar-se. Esta cena inicial de take único é habilmente filmada do ponto de vista do magistrado, espelhando em nós a função de julgar os cônjuges e desafiando-nos a retirar justiça daquele impasse moralmente irresolúvel. Mais do que isso, esta abertura lança um prenúncio para o resto do filme. Um aviso de uma história de justiças difíceis e de verdades ocultas, de intenções dúbias e de onerosos acordos. 

Quando Simin se muda para casa dos pais, Nader vê-se incapaz de conciliar a paternidade com as exigências profissionais e domésticas, contratando Razieh (Sareh Bayat) para o ajudar em casa durante o dia. Oriunda de um contexto desfavorecido e fortemente religioso, quando Farhadi traz à cena Razieh e com ela um marido desempregado e ressentido (Shahab Hosseini) e uma filha pequena (Kimia Hosseini), que tem de acompanhar a mãe no trabalho, ele exponencia a dimensionalidade do enredo. O crescendo de tensão naquela casa leva ao despedimento de Razieh e as duas famílias são arrastadas a tribunal numa tentativa cega de recuperar a justiça que nunca tiveram. Tentando compreender a trama perversa que se vai tecendo, o símbolo de inocência na personagem de dez anos de Termeh revela-se central e omnisciente. Interpretada pela própria filha do realizador, Termeh será silenciosamente atormentada até ao final pela destruição do casamento dos pais bem como pela possível corrupção moral deles. 

“A Separação”, de Asghar Farhadi

Numa altura de forte censura do governo iraniano à (sétima) arte, A Separação não deixa de ser uma interessante análise ao sistema jurídico e autoridade islâmicos, às normas sociais e domésticas contemporâneas numa sociedade austera e teocrata. Contudo, ao mesmo tempo, este é um filme com tantos pontos de vista quantas as personagens, numa envolvente análise à fragilidade da verdade, que ressoa bem para lá dos limites de Teerão. 

Premiado pela Academia em 2012 como melhor filme estrangeiro do ano, A Separação foi o primeiro filme iraniano a receber o prémio, cinco anos antes de O Vendedor dar a Asghar Farhadi o segundo óscar. Além da intensidade do argumento e da harmonia da cinematografia de Mahmoud Kalari, as prestações irrepreensíveis dos nove atores que sustentam o filme valeram-lhes os dois prémios de representação no Festival Internacional de Cinema de Berlim, numa atribuição conjunta sem precedente. 

Texto de João Damião Almeida / Jornal Mundus

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