A solidez de Zygmunt Bauman numa sociedade cada vez mais líquida

por Lucas Brandão,    19 Novembro, 2019
A solidez de Zygmunt Bauman numa sociedade cada vez mais líquida
Zygmunt Bauman
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Zygmunt Bauman viveu o fascismo na primeira pessoa e chegou ao século XXI para contar essa história. No entanto, foi a partir de uma visão académica, que adquiriu, essencialmente, em Inglaterra, que conseguiu transmitir esse testemunho de superação. O valor deste testemunho perante os demais é o de ser um com os olhos voltados para o presente, atentos à realidade quotidiana e capaz de antever os desafios modernos. Mais do que o rotularem como comunista, o polaco conseguiu ir para lá dessa posição e alcançar as boas graças de grande parte da comunidade académica, sustentado visões políticas à esquerda com a importância do estudo metodológico.

Zygmunt Bauman nasceu a 19 de novembro de 1925 na cidade de Poznan, na Polónia. Era ainda jovem quando viu o seu país ser invadido pela Alemanha Nazi, mas também pela União Soviética, sendo para esta que a sua família escapou. Ao serviço destes, alistou-se na armada polaca, participando nas batalhas de Kolobrzerg e na derradeira da Segunda Guerra Mundial, a de Berlim. Seria, em maio de 1945, condecorado com a cruz de valor do exército polaco, tornando-se um dos seus mais jovens majores. Até 1953, continuaria como membro das forças de segurança do país, desta feita nos Corpos de Segurança Interna, destinados a combater os insurgentes nacionalistas. Colaboraria, de igual maneira, com os serviços de inteligência militar. Neste período, estudou sociologia em Varsóvia, na sua faculdade de ciências políticas e sociais, onde viria a conhecer a sua futura esposa, Janina Lewinson, com quem teve três filhos. Este período de afiliação com o comunismo teria um fim a 1953, quando o seu pai solicitou a embaixada de Israel em Varsóvia para viver naquele, então, novo país. Apesar de discordar do pai na questão do sionismo ter ou não um Estado autónomo e independente, acabou por ser exonerado dos seus cargos no exército.

Foi nesta fase que se dedicou à academia, tornando-se professor na Universidade de Varsóvia de 1954 até 1968, numa altura em que já se tinha tornado mestre. No decurso desta carreira, foi para Londres e para a sua escola de economia, onde desenvolveu um trabalho metódico sobre o socialismo no Reino Unido. Daqui, nasceu uma carreira literária na qual se destaca “Everyday Sociology”, lançado a 1964, sendo largamente bem recebido no seu país, dando lugar ao futuro “Thinking Sociologically” (1990), este lançado em inglês. Os seus ideais profundamente marxistas não o impediram, contudo, de olhar para a Polónia com desagrado, apesar desta ser governada por um regime comunista. Enfrentando pressão política, e perante o cenário de purgas que ia decorrendo contra os opositores do governo, Bauman abandonou o partido dos trabalhadores unidos, onde estava alistado e que, então, assumia a governação. Perdeu, de igual modo, o cargo que assumia em Varsóvia e, abdicando da sua cidadania polaca, foi para Israel, onde deu aulas em Tel Aviv até receber o convite que o viria a consolidar como um dos pensadores de referência do século XX e já no XXI. Aceitou, assim, lecionar sociologia na Universidade de Leeds, onde também apoiou o seu departamento na universidade e na qual começou a assumir o inglês como língua de comunicação até ao final da sua vida.

Bauman, apesar de se vir tornando condescendente perante a realidade de Israel, tornou-se mais cáustico no século XXI, acusando o estado israelita de não estar interessado na paz e de usar o Holocausto como pretexto de legitimar atos desapropriados. Comparou, até, o gueto de Varsóvia, feito na Segunda Guerra Mundial, com a barreira imposta para separar os israelitas dos palestinianos na Cisjordânia. Foram ideias que defendeu na campanha para o estabelecimento de uma assembleia parlamentar na ONU, onde procurava pugnar por uma reforma democrática e por um sistema político internacional mais palpável e realizável. Foram ideias que foi reivindicando até à data da sua morte, a 9 de janeiro de 2017, na cidade que o acolheu em Inglaterra: Leeds, cuja universidade renomeou o seu instituto de sociologia com o seu nome, embora o fizesse ainda antes deste falecer, em 2010.

“Não se pode escapar do consumo, faz parte do seu metabolismo! O problema não é consumir, mas sim é o desejo insaciável de continuar a consumir. Desde o paleolítico que os humanos perseguem a felicidade, mas os desejos são infinitos. As relações humanas são sequestradas por essa mania de apropriar-se do máximo possível de coisas.”

Zygmunt Bauman ao “La Vanguardia” (2017)

O seu trabalho científico resultou em mais de cinquenta livros e de cem artigos, todos eles debruçados com a estruturação da sociedade e com os movimento sociais. Foi assim que Bauman, ainda no decurso do seu estudo sobre o movimento trabalhista em Inglaterra, foi procurando desenvolver o seu discurso, nunca esquecendo as questões das classes e dos conflitos sociais, assuntos que permaneceram pujantes numa linha de pensamento que o próprio defendia como “socialista”. Como referências, ficaram os nomes do italiano Antonio Gramsci e do alemão George Simmel, dois pensadores que reinterpretaram o marxismo com olhos de presente. Após os anos 80, os seus temas preferenciais passaram a virar-se para os desafios da modernidade e do século XXI, incluindo questões associadas à burocracia e à exclusão social. A seus olhos, a Europa aceitou abdicar de parte da sua liberdade em troca de uma segurança individual reforçada, apesar de, aparentemente sólida, se mostrar com brechas de incerteza e de desconhecimento. A burocracia crescente e hierarquizada implicava um controlo sobre a natureza, regulamentando e controlando as pessoas e as instituições, tornando a dimensão caótica da vida humana mascarada de familiaridade e de ordem e acabando por limitar a singularidade de cada indivíduo. O polaco continuou a dissertar sobre este tema, argumentando que este controlo nunca conseguiu alcançar os resultados desejados, visto que há grupos sociais que não podem ser geridos, separados ou controlados.

“Modernity and Ambivalence”, datada de 1991, carateriza o “estranho” como alguém presente, mas incapaz de ser encaixado na sociedade. Numa sociedade voltada para o consumo, torna-se alguém apetecível perante a possibilidade de explorar o que ainda está por o ser. É uma sensação de estranheza que conduz para a curiosidade de experimentar, mas também que pode desencadear o medo, que constitui uma ameaça para o status quo da sociedade. Em “Modernity and the Holocaust”, que antecede a última obra em dois anos, inspira-se na argumentação de Hannah Arendt e de Theodor Adorno para afirmar que o Holocausto deve ser considerado como uma demonstração da modernidade procurar impor ordem. Isto a partir de preceitos racionais, da divisão do trabalho para tarefas cada vez mais pequenas, a categorização de determinados grupos sociais e de ver a obediência e a subjugação como moralmente aceitáveis. Assim, as lições deste período da humanidade continuam por ser extraídas, permanecendo, nas palavras do próprio, como “uma imagem pendurada numa parede”. Os judeus assumem-se, assim, como os -“estranhos” da Europa, perante os quais a Solução Final se assumiu como uma forma de extinguir com o que havia de indeterminado e de desconfortável no seu grupo. Bauman fala também do “alosemitismo” como aversão àquilo que pudesse pôr em causa a estrutura da sociedade e das suas classes, assumindo-se como algo “radicalmente ambivalente”. Arrisca-se, ainda, a dizer que, com outra proporção e através de outros meios, formas similares de exclusão social permanecem, hoje, como presentes.

O capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento.

“Liquid Modernity” (1999)

Na fase final da sua investigação, o pensador voltou-se para a pós-modernidade e para a sociedade consumista, que considerava ter derivado de uma sociedade de produtores, esta ainda nos meados do século XX. Assim, mais do que a segurança, que se tornava cada vez menos uma necessidade, assegurava-se a possibilidade de comprar e de consumir. É esta a premissa que Bauman assume como crucial na mudança do modernismo para o pós-modernismo e que traz para “Liquid Modernity” (1999). Naquilo que era uma sociedade sólida (moderna), os medos, crescentes mas mais difíceis de serem detetados, tornaram-se líquidos, não havendo referências diretas e identificáveis a olho nu que os pudesse denunciar. Sentia-se, cada vez mais, essa alienação dos indivíduos perante as comodidades (consumíveis) que a sociedade lhes providenciava, afastando-se dos ideais iluministas, naquilo que interpreta como um progresso no sacrifício do progresso. Esta vertente mais pessoal também é explorada em “Liquid Love” (2003), em que as próprias relações humanas são colocadas em questão, perante a insegurança que a fragilidade crescente vai reforçando. Entram em antítese a necessidade de criar laços e a vontade de os quebrar e de permanecer em liberdade.

As relações de poder, assim, viam-se ressentidas perante esta nova forma da sociedade ser e estar, tornando-se menos territorializadas, perante o surgimento de organismos que controlam os meios de comunicação, atuando de forma instantânea e cada vez menos natural. Esta modernidade líquida mostra, de forma mais gritante, a sensação de incerteza e de caos que levam alguém a mover-se entre os grupos sociais e os seus estatutos. O nomadismo é uma das suas traves-mestras, numa intermitência que o leva a viver como um turista, embora, para isso, abdique das restrições e das obrigações associadas a qualquer sistema de apoio social.  Tornam-se, estas, as premissas de uma sociedade global – que se desenha em “Globalization: The Human Consequences” (1997) -, talhada para as mudanças e para as metamorfoses com ênfase no indivíduo e na iniciativa individual, sem padrões que se possam considerar sociais.

Para Zygmunt Bauman, o indivíduo vê-se enredado, de forma crescente, numa sociedade que aprisiona o indivíduo, ao invés de o libertar. Não obstante a ausência de uma espécie de compromisso social, que o solidifique como ser social, o polaco visualiza o ser humano aprofundado numa liquidez que o torna mais instável e desregulado, que o vê a criar padrões morais próprios que podem destoar a sua perceção do bem e do mal. Os seus ideais marxistas e socialistas, apesar de poderem toldar o discurso, são o mote para uma análise devidamente sustentada e apoiada em pensadores de referência, que denunciaram o Holocausto como uma lição por ser aprendida. Uma lição que, por mais sólida que seja, permanece submergida na liquidez que Bauman tentou secar.

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