“A Uma terra desconhecida”, de Mahdi Fleifel: ‘buddy-movie’ palestiniano estreia esta semana nos cinemas em Portugal

por Lís Barros,    22 Julho, 2025
“A Uma terra desconhecida”, de Mahdi Fleifel: ‘buddy-movie’ palestiniano estreia esta semana nos cinemas em Portugal
Mahdi Fleifel / Fotografia de Bas Bogaerts via IMDB
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Da estreia em Cannes às salas nacionais: Mahdi Fleifel traz um filme premiado que interroga exílio, identidade e amizade — “Se eu não contar estas histórias, quem contará?”

É sábado. O sol de verão ainda está por se mostrar e no átrio de um hotel, um realizador internacional encontra-se pela quarta vez em Portugal. A edição deste ano do Festival de Curtas de Vila do Conde selecionara Mahdi Fleifel para o ciclo In Focus. Recebe em mãos um volume de Mensagem, de Fernando Pessoa, traduzido para o árabe por Abdel Jelil Larbi para a Livraria Lello. O realizador acaricia a capa, ri do acaso — outro “acidente de laboratório”, dirá mais tarde — e guarda o livro como quem acrescenta um novo rolo de fita VHS ao seu arquivo familiar.

Há vinte anos que a vida lhe chega em pedaços de celuloide: retalhos do campo de Ain al‑Hilweh filmados pelo pai, diálogos gravados à pressa num quarto em Berlim, silêncios de Atenas onde dois amigos palestinianos sonham cruzar o mar. Desses fragmentos nasceu A Uma Terra Desconhecida (To a Land Unknown), longa que tem estreia nacional a 24 de julho pelas mãos da distribuidora The Stone and the Plot.

Mensagem, edição árabe da Livraria Lello. Fonte: Lís Barros
Mensagem, edição árabe da Livraria Lello. Fotografia de Lís Barros

O filme, descrito pelo próprio como “um buddy-movie à beira do abismo”, chega às salas depois de ser exibido em mais de 140 cinemas internacionais. Desde a estreia em Cannes 2024 o filme tem acumulado vários prémios internacionais: arrecadou o CineCoPro Award, no Filmfest München 2024; venceu o Antígona d’Or como Melhor Filme, e ainda o Prémio dos Estudantes no Cinemed – Festival Mediterrânico de Montpellier 2024; recebeu o Fischer Audience Award e o Prémio de Melhor Actor para Mahmood Bakri no Festival de Salónica 2024; conquistou o Silver Yusr de Melhor Longa‑Metragem e o Yusr de Melhor Actor (novamente para Bakri) no Red Sea International Film Festival 2024 foi distinguido como Melhor Filme no World Cinema Award no Galway Film Fleadh 2024 e com o Audience Award no Taormina IFF 2024; obteve ainda o Audience Award e o NGO Award no Human Rights Film Festival Lugano 2024.

Já em 2025 somou o Grand Prix do Júri no Premiers Plans – Angers European First Film Festival e, pouco depois, mais um reconhecimento de Melhor Filme no Transilvania IFF 2025.

Curtas como laboratório

Comecei com curtas.” O seu vasto arquivo, alimentado pela herança familiar e pela obsessão de filmar o quotidiano contribui para isso. “Não as vejo como trampolim; são um formato em si, um lugar onde posso experimentar coisas que as longas não me permitem”. Quem ouve a frase quase esquece que Fleifel acaba de ser homenageado com uma retrospetiva integral num festival que, para ele, era território inexplorado. “Gostava de ser um realizador português que vivesse em Portugal e fizesse filmes em português”, confessa, troçando do seu nomadismo permanente. “Mas fazer ficção palestiniana é duro vezes mil.

“Se não podemos preservar as casas e as terras, pelo menos preservamos as lembranças.”, refere Mahdi Fleifel.

Mahdi gosta de se ver como contista oral — herdeiro da tradição hakawati, filho dos anos 80 e de pais que faziam da anedota uma festa — mas recusa rótulos fáceis: “Chamam-me ‘realizador refugiado’. Aprendi a não dar atenção aos rótulos” .

Mahdi Fleifel. Fonte: Lís Barros
Mahdi Fleifel. Fotografia de Lís Barros

Essa recusa molda-lhe a filmografia. Nos debates mediados por Jorge Mourinha, explicou que cada obra nasce de um imprevisto: “Muitos dos filmes são acidentes no laboratório da vida”. Foi assim com I Signed the Petition: um gravador esquecido na mesa registou a chamada telefónica em que, tremendo, decide se deve ou não assinar uma petição pela Palestina. O mesmo impulso moveu 20 Handshakes for Peace: “Nunca teria escrito um tratamento para aquilo; aconteceu no aqui e agora” .

O exílio como país

Quando lhe perguntam por que razão o exílio atravessa todas as suas narrativas, a resposta vem de Edward Said: “Percebi que sou camaleão — palestiniano na Dinamarca, europeu no mundo árabe. No centro disso tudo está o exílio”. Para Fleifel, o exílio não se desfaz: “É uma viagem sem fim, rumo ao desconhecido”. Esse caminho corporiza-se em A Uma Terra Desconhecida, onde Reda e Chatila atravessam Atenas como anti-heróis de Accattone ou Pixote. “Esses filmes estão no meu ADN”, diz Mahdi, que não hesita em citar também Do the Right Thing, de Spike Lee, como farol da juventude.

A perder de vista fica a terra natal, mas não a memória. “Se não podemos preservar as casas e as terras, pelo menos preservamos as lembranças”, ensinou-lhe o pai, que filmou o campo durante toda a década de 1990. “Foi o meu primeiro produtor”, brinca. “Achava que eu estava a perder tempo. Só percebeu quando viu A World Not Ours duas semanas antes de morrer. Foi como receber a bênção dele.

Mahdi Fleifel e Jorge Mourinha. Fonte: Lís Barros
Mahdi Fleifel e Jorge Mourinha. Fotografia de Lís Barros

Encontrar intérpretes para encarnar tal ambiguidade exige método: “Dirigir é 90 % escolha de elenco. Há limites para o quanto se pode reescrever; ou acertas à primeira ou estragas tudo”. Reda, skater estreante, não tinha o físico de Of Mice and Men que o guião imaginava, mas trazia “a essência certa”. O resto ajustou‑se à voz dele, porque — insiste Mahdi — “todo o processo de fazer um filme é reescrever”.

Do milagre à missão

A obsessão por registar vem do pai. “Nos anos 80, uma câmara estava sempre em casa. Percebi que fotografávamos para preservar memórias quando não podíamos preservar casas ou terras”. O pai veria Um Mundo Não Nosso duas semanas antes de morrer — epílogo que lembra ao filho que filmar é irracional, “uma jornada para compreender o mundo”.

“Sou privilegiado; saí do campo, vivo em Copenhaga. Se eu não contar estas histórias, quem contará?”, sublinha Mahdi Fleifel.

Realizar cinema palestiniano dá trabalho de esfolar. “Levar To a Land Unknown ao plateau demorou doze anos. É um filme liderado por um produtor britânico sem dinheiro britânico, por um realizador supostamente dinamarquês sem dinheiro dinamarquês. Tivemos de inventar caminho.” À penúria soma-se a responsabilidade: “Sou privilegiado; saí do campo, vivo em Copenhaga. Se eu não contar estas histórias, quem contará?” Documentário e ficção entrelaçam-se nesse percurso. Depois de um “péssimo filme de graduação em ficção”, Mahdi mergulhou no exemplo de Sherman’s March, de Ross McElwee, e descobriu que “o documentário era uma chave para despir tudo e chegar ao núcleo: posso ou não contar uma história?”. Um Mundo Não Nosso nasceu assim: três pessoas, um disco rígido cheio de cassetes VHS e a liberdade de ignorar consultores e editoras de televisão.

To A Land Unknown. Fonte: Inside Out Films, Nakba Filmworks 2024
A Uma Terra Desconhecida (To A Land Unknown) (2024), filme de Mahdi Fleifel

Pedras no sapato do mercado

Mas quem leva a película até ao público para dar a conhecer estas histórias? Entra Daniel Pereira, fundador da The Stone and the Plot, é o responsável pela distribuição mundial do filme O Movimento das Coisas, de Manuela Serra, em cópia restaurada, pelo ciclo Mestres Japoneses Desconhecidos — com a proeza de exibir filmes inéditos não só no Japão como em qualquer recôndito online — e da Trilogia de Macau. A estratégia passa por deixar arrefecer o burburinho dos grandes festivais: “Não entro em leilões. Vejo o que ficou por comprar e contacto o agente”.

Trazer um filme palestiniano às salas portuguesas implica equilibrar urgência política e pragmatismo comercial: “As exigências existem, mas a prioridade é que corra bem nas poucas salas que ainda confiam no cinema independente”, conta-nos Daniel Pereira. E são mesmo poucas: Ideal em Lisboa, Trindade no Porto, Casa do Cinema em Coimbra, City Alvalade ― “O resto são centros comerciais onde o filme desaparece em quatro dias”. Nessa penúria, Daniel aplica a mesma dignidade a um filme japonês dos anos 50 e a um título saído de Cannes: “Para mim são filmes, ponto”.

Daniel Pereira. Fonte: Lís Barros
Daniel Pereira. Fotografia de Lís Barros

O Curtas Vila do Conde serve‑lhe de termómetro: “Aproveito o festival para gerar buzz”. A coincidência de uma retrospectiva ao realizador e da compra do filme foi “sorte”, reconhece — sorte que exige, agora, trabalhar o boca‑a‑boca num mercado saturado de estreias: “Há demasiados apoios à distribuição e poucas salas”.

Daniel constata, porém, o deserto de espectadores “curiosos e informados” que antes enchiam sessões de João Botelho, por exemplo: “Hoje esse público fica em casa — os filmes estão online”. Os blockbusters mantêm-se: Lilo & Stitch passou os 600 mil bilhetes; Missão: Impossível não desce dos 300 mil. É o cinema como fast food. Enquanto procura tempo de ecrã para a “pedra no sapato” no mundo civilizado que Mahdi quer lançar, continua a acreditar no milagre do tempo que certas obras precisam para germinar. Ambos sabem que o terreno é árido.

“Há demasiados apoios à distribuição e poucas salas.”, refere Daniel Pereira.

Em I Signed the Petition, Fleifel atira-se a uma espiral de auto-escrutínio: depois de subscrever um boicote cultural a Israel, debate-se ao telefone se a assinatura é coragem ou lenitivo para a culpa. Entre o clique simbólico e o custo real há um fosso que só se fecha quando reputação, trabalho e liberdade ficam em causa. Por achar que deve fazer o possível, além do momentum, Daniel Pereira reverterá parte da receita para a iniciativa Seeds of Hope Educational Tent — Gaza.

Traduções de um mesmo exílio

O exílio é estranhamente fascinante de pensar, mas terrível de experimentar”. A citação de Edward Saïd bem poderia estar em Mensagem como uma metáfora. Abdel Jelil Larbi, que já verteu Saramago para árabe, sente “a responsabilidade de ser mediador cultural entre mundos próximos, mas que conhecem pouco da riqueza literária um do outro”. Traduzir Pessoa, admite, aprofunda a ponte: “Mensagem fala de pátria e identidade; ao traduzi‑la para a língua de tantos povos marcados pelo exílio, mostro que há um humanismo comum”. E completa: “A poesia captura a evolução identitária dos povos; a tradução, como elo, revela estilos e histórias diferentes que partilham o mesmo sonho de grandeza e aventura”.

Dr. Abdeljelil Larbi. Fonte: ILNova
Dr. Abdeljelil Larbi. Fotografia de ILNova

Entender‑se‑á por que Mahdi sorri ao folhear o livro. Em entrevista anterior, evocara precisamente Pessoa e os seus heterónimos para escapar às gavetas da indústria. Agora carrega uma Mensagem que ressoa à viagem de Reda e Mahmood: 44 poemas onde a pátria é fantasia, miragem, nau. Mahdi sorri ao folhear o livro: “Que alma gémea, eu e Pessoa. Ele está comigo na minha tattoo.” Como Darwish ou Kanafani, o poeta lisboeta tornou-se um xamã de bolso para o cineasta.

“A poesia captura a evolução identitária dos povos; a tradução, como elo, revela estilos e histórias diferentes que partilham o mesmo sonho de grandeza e aventura.”, diz Dr. Abdeljelil Larbi.

Rumo a terras desconhecidas

Quando A Uma Terra Desconhecida entrar em cartaz a 24 de julho, competirá com super-heróis, franquias e o calor do verão. Para Daniel, “a presença no festival ajudou nos media mas não é garantia de nada”; Mahdi prefere confiar no mistério. Ao espectador resta escutar estas vozes em contraponto: a do cineasta que grava porque “pertence à tribo dos exilados”; a do distribuidor que procura salas de rua como quem procura água no deserto; e a do tradutor que devolve Pessoa aos povos que conhecem o sal do exílio. Juntas, lembram-nos de que não há terra conhecida para quem carrega a pátria na língua — seja ela cinema, verso ou memória.

A Uma Terra Desconhecida. Fonte: Inside Out Films, Nakba Filmworks 2024/The Stone and The Plot

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