A vergonha tem de mudar de lado
“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Sempre às terças na Comunidade Cultura e Arte.
Querida Patrícia,
Não chegaremos a uma conclusão, nem é esse o propósito. Queremos fazer perguntas, é esse o exercício de reflexão, portanto continuemos a desfiar este manto tão bem costurado de convicções e convenções com as quais lidamos diariamente. Nos últimos dias, o Governo voltou a cair. Se não fosse tão lamentável, seria anedótico. Voltaremos às urnas em breve e, sinceramente, não encontro alternativa neste momento. Teremos pessoas à altura para pegar nas rédeas desta jangada há muito desgovernada? Parece-me que as pessoas capazes de o fazer abandonaram há muito essa possibilidade, não querem correr riscos nem a responsabilidade de assumir algo que parece um jogo longamente viciado. Mas alguém está disposto a pôr a sua integridade em risco numa fauna maioritariamente de corruptos?
Há uma frase do Mishima presente na sua peça O Meu Amigo Hitler, que eu e o Albano (Jerónimo) dirigimos em 2023, e à qual retirámos o nome do ditador, substituindo-o apenas pela incógnita H., O Meu Amigo H.. Fizemo-lo porque, por um lado, não queríamos dar visibilidade ao nome do chanceler alemão, por outro, porque assim ficariam contemplados todos os outros ditadores: passados, presentes e futuros. Mas, como dizia, há uma frase nesse texto que sempre me inquietou: «Todo o manto de poder tem costuras por onde as pulgas conseguem entrar.» Lembro-me muitas vezes desta frase, quase diariamente. Se numa primeira leitura parece apenas supremacia, a superioridade do poder e a inferiorização dos fracos, também é uma forma de ilustrar que tudo o que parece sólido pode ser corrompido. E eu falei de integridade mas também poderia dizer honra, porque não? É uma palavra que caiu em desuso. Tornou-se antiquada e até ridícula quando alguém a diz. Mas eu gosto desta palavra. Honra como um sentimento de honestidade e rectidão, do latim honor ou honos, «consideração, respeito, atenção, estima». Repara, a honra diz mais sobre o outro do que sobre o próprio, honra é sobretudo a forma como se trata o outro. Teremos nós perdido este sentimento pelo outro? E por nós próprios também?
Não é sem melindre que acabo de utilizar esta palavra. É uma palavra que os partidos de direita gostam de usar, e também foi e é motivo para se punir de forma atroz, nomeadamente muitas mulheres que não se comportem de forma «honrada». Mas aí temos mais uma linha para puxar ao nosso manto de convenções e desfiá-lo mais um pouco. Atenção que não somos Penélopes a fiar e a desfiar à espera de um Ulisses. Desejo mesmo que desfiemos tudo até ficar um novelo bem pesado que sirva de arma de arremesso a quem está do lado errado. E estamos sempre do lado errado para alguém? Não há um lado inequívoco, um lado certo?
Mas voltando às mulheres e à honra, sabemos que é conotada maioritariamente com bom comportamento sexual. No caso das mulheres, a honra foi durante muito tempo um sinónimo de fidelidade. Por isso penso que poderíamos ser nós, mulheres, a reinventar esta palavra. Devolvendo-lhe na verdade a sua etimologia: a consideração, o respeito, a estima, coisas que na verdade as mulheres fazem com naturalidade, porque são características que também associamos à maternidade. Fomos treinadas para isso, posso até dizer domesticadas. Mas e se agora o fizéssemos no contexto do poder? E se as mulheres que ocupam hoje cargos de poder voltassem a reanimar esta palavra, a honra, com o sentido que deveria ter? Não estariam a plagiar o modelo masculino porque os homens nunca usaram esta palavra, e passo o pleonasmo, honradamente. Conseguimos nós, mulheres, criar um novo honradamente?
Querida Patrícia, é tarde. Nada tarda são duas da manhã. O silêncio é absoluto na minha casa a esta hora. Que bênção. Penso no quanto a linguagem nos limita e motiva tantos conflitos. Na linguagem como invenção da mentira, e em como estamos sedentos de silêncio e de afecto. Seremos nós máquinas de fazer ruído e destruição? Teremos perdido a noção de que não há paredes entre nós e a natureza? Somos ainda parte da natureza, mesmo que doentes; como árvores cujo fim parece anunciado?
