A vergonha tem de mudar de lado
“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Sempre às terças na Comunidade Cultura e Arte.
Patrícia, querida amiga,
A resposta é sim, o pensamento deve ter um pé no chão e o outro a apontar para o céu, uma espargata permanente entre o utópico e o tópico. Comecemos pelo utópico. Tenho pensado que, por mais voltas que lhe dermos, a sociedade — a ordem pela qual nos regemos — permanece fálica, até na construção da linguagem. Nós, mulheres, continuamos a bater-nos por uma espécie de equivalência ao modelo vigente, quando deveríamos abraçar a diferença e constituir, a partir daí, o nosso poder.
Passemos ao tópico: esta semana fomos confrontadas com o desfecho de um caso de violação que se arrastava há sete anos. O caso do médico septuagenário que violou com as mãos duas mulheres; com as mãos, sim. A sua pena esteve para ser atenuada por ser considerado «menos grave» estarmos perante uma violação não peniana. Como se a violação se restringisse à genitália, seja masculina ou feminina. Por definição, a violação é um crime cometido por alguém que força outrem a alguma prática sexual, também pode ser considerada como profanação de algo sagrado, como é o caso do corpo e intimidade de uma pessoa. As duas vítimas declararam esta semana que continuavam a dar a cara publicamente, sim, porque a vergonha não devia estar do lado delas, mas do violador. Regozijei-me por saber que cada vez mais vezes se ouve esta frase, esta afirmação empoderadora para qualquer vítima, que não fez mal a ninguém, portanto, «vergonha do quê?». Dito assim, parece bastante óbvio, mas não é. Porque numa sociedade fálica, como é a nossa, todas as coisas são erigidas em torno do poder do falo, nomeadamente as relações sexuais, nomeadamente o abuso, como uma violação. Veja-se como se tentou desvalorizar uma violação por não ser peniana, dando a entender que a sexualidade, seja abusiva ou não, se rege pela performance do falo.
Esta semana, a minha filha, que tem treze anos, fez-me algumas perguntas sobre sexualidade e que se relacionam com a lógica fálica social, que ainda não sabe nomear, mas que se lhe apresenta sub-repticiamente por todos os meios que a rodeiam — da escola à família. Perguntou-me como é que uma rapariga diz a um rapaz para usar preservativo. Respondi-lhe assertivamente: «Dizes-lhe que tem de colocar o preservativo.» Tão simples como isto. Na sua cabeça, o pudor de um certo desagrado que isso poderia causar ao rapaz priorizava as suas preocupações (doenças e gravidez, por exemplo), o bem-estar fálico do rapaz gerou-lhe uma preocupação. Expliquei-lhe que deveria priorizar o bem-estar dela numa relação sexual e que se algum rapaz não o priorizasse também, seria claramente uma pessoa a descartar imediatamente da sua vida. Mas fiquei a pensar que esta é uma preocupação antiquíssima, ancestral, o agradar ao homem, e mais do que isso, ao seu falo. O falo como centro do mundo.
Há uns anos escrevi um poema em tom jocoso, que se encontra publicado no livro Ode Triumphal à Cona, e que aqui deixo:
A desimportância do falo explicada a cavalheiros
Sobrevalorizado no gozo sempre foi o falo.
Um homem que domine bem a língua,
em ambos os sentidos,
precisa pouco de se preocupar com a eficácia
ou a beleza do seu falo.
As damas,
e os cavalheiros que também apreciem,
conquistam-se pelo uso da boca.
Digamos que o falo diverte mas não conduz ao êxtase.
Nisto não se fala, por pudor
ou por medo de amedrontar o ceptro
sobre o qual sempre se julgou girar o mundo.
O falo é belo, sim senhores —
alguns, outros são medonhos,
estilo cobra cega.
Só não julguem como obra de arte
a exposição de artesanato, cavalheiros.
O mastro não faz a caravela que descobre mundos,
e a bandeira hasteada está longe de ser um país.
E assim termino a carta, querida Patrícia, lançando-te, como é nosso apanágio, uma pergunta — que acções concretas, pequenas ou grandiosas, devemos ter para que a lógica falocêntrica deixe de dominar o mundo?
