A vergonha tem de mudar de lado
“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Sempre às terças na Comunidade Cultura e Arte.
Querida Chéu,
O intervalo entre as nossas cartas é tão pequeno e, no entanto, tanto acontece em 7 dias de separação entre as tuas palavras e as minhas. Tanto tão absoluto e tão frágil, tanto tão rígido quanto inconsistente.
Os tempos exigem-nos uma velocidade estonteante acompanhada de uma flexibilidade que nem sempre é sã ou ética.
Tenho, por vezes, a sensação de que tenho de esperar pelo fim de semana para te responder pois se escrever esta carta na quarta-feira, a mesma terá um tom muito diferente (e já ultrapassado) do que se o fizer na sexta. Temo até, por vezes que as reflexões finais contrariem as primeiras. Há sempre uma notícia que nos acorda para um buraco mais fundo, há sempre uma mudança que nos alerta para a finitude do que mais apreciamos, há sempre um sempre que nos diz que nada dura para sempre. E isso não é mau. É o tal pé do Héraclito a mergulhar sempre numa água diferente, não é?
Tudo muda excepto a mudança, diriam mestres no Livro das Mutações.
Mas tudo muda como? Que corpo aguenta uma oscilação permanente dos humores e das conclusões e dos pilares dos dias?
Dizes que precisamos de paixão para sobreviver a estes tempos e confessas-me que o que mais temes é a loucura.
Paixão e loucura, duas amantes difíceis de separar e que, quando unidas, são capazes tanto de milagres como de tragédias, tanto de sanidade como de insanidade.
Eu acrescentaria que necessitamos de convicções que nos agarrem ao chão. Convicções inabaláveis.
É o que tenho mais medo, querida Chéu.
E se deixo de acreditar que vale a pena?
E se deixo de acreditar que alguém vai notar? Quem alguém vai ler? Que alguém vai querer? Que eu vou querer?
Sem a crença imbatível no que lutamos e nas razões pelas quais nos movemos, valerá de alguma coisa a paixão?
De que valerá a paixão por algo ou alguém que não existe? Torná-lo-á real? Criá-lo-á? Não estou certa, mas desejaria que assim fosse.
De que valerá a insistência na perseguição de um sonho ou de uma forma de vida que tarda em chegar, que parece inatingível ou que nos roubam assim que a temos nas mãos?
O facto de a alcançarmos? De ensaiarmos a sua possibilidade para outros que virão e poderão usufruir do que parecemos perder por entre os intervalos dos dedos como se fosse areia fina??
Gostava de acreditar que sim.
Por vezes sinto que deveria perder o controlo, ao invés de procurar um rumo, uma metodologia, uma razão para cada gesto.
Deveria deixar de justificar, de aceitar, de ignorar as pequenas falhas, os pequenos tropeções no caminho, as pequenas humilhações diárias que percebo e ignoro para “não me chatear”, “todas sem importância”.
Perder o controlo não tem de implicar violência. Pode simplesmente implicar coragem, vontade, desafio ao medo, ao status quo, ao que já se conhece.
Perder a vergonha pode ser sinónimo de visão macroscópica sobre o que nos acontece.
Não esta semana, e a outra e a outra, mas na última década, no último século, no último milénio.
Pensar em termos de gerações e não de dias. Conseguir ver os detalhes da vida sem perder a visão total do que é a existência humana.
Falavas na Mariana Alcoforado e logo me lembrei de Heloísa, mais comumente conhecida como a amante do filósofo Abelardo e, no entanto, uma feminista avant la lettre que nunca deixou de amar o seu homem apesar de votada ao celibato e a uma vida recatada no convento.
Heloísa dizia nas suas cartas para Abelardo que tinha ido para um convento a pedido dele mas tinha plena consciência de que Deus saberia que o seu corpo, a sua mente, a sua alma, nunca deixariam de pertencer a um outro homem, e que o seu amor divino nunca ultrapassaria o terreno, o da carne.
Penso por vezes que a maioria da população vive assim: como se deambulasse por um convento, guardando para o sono solitário os sonhos de tudo o que desjaria fazer e (acha que) não pode.
É hora de quebrar algumas correntes, não concordas, querida Chéu?
Por onde começarias?
