A vergonha tem de mudar de lado

por Cláudia Lucas Chéu,    15 Julho, 2025
A vergonha tem de mudar de lado

“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Sempre às terças na Comunidade Cultura e Arte. 

Ter um tecto que nos cubra não é um luxo, é algo primário que garante a dignidade de vida de uma pessoa. Algumas pessoas têm vergonha de morar numa barraca, outras sentem vergonha dos que vivem em barracas, mas devemos sentir vergonha pelo comportamento dos autarcas e agentes da autoridade que levam adiante acções de despejo sem mostrarem um pingo de humanidade. 

Esta semana, a Câmara de Loures ordenou a demolição de mais de sessenta barracas no Bairro do Talude. Habitações precárias, como higienicamente são apelidadas pelas autarquias, e que «desfiguram a paisagem», barracas que são afinal como jangadas de salvação neste imenso naufragar de crueldades diárias. Jangadas de salvação, chamo-lhes eu, a que tantas pessoas, incluindo dezenas de mulheres e crianças, tentaram agarrar-se perante o despejo sem alternativa — a monstruosidade de demolir um tecto que lhes protege a cabeça. 

Há dois anos estive em residência literária em Maputo e pude conhecer Mafalala. Um bairro na periferia da cidade, onde só se pode entrar com alguém de dentro do bairro. Um guia turístico pago para a miséria, que nos mostra a pobreza e precariedade em que vivem mais de 25 mil pessoas. Mafalala é o bairro em que nasceram e cresceram Eusébio e os escritores José Craveirinha e Noémia de Sousa. Há uns anos, o artista francês Glac quis ir pintar o célebre jogador no muro do «campinho de Mafalala» — um ermo para jogar futebol com o «Pantera Negra» eternizado.

Os mosquitos e cheiro a esgoto
Um miúdo descalço a brincar com um pneu
como nos filmes sobre as crianças em África 
mas não estávamos num filme
Uma menina que passou a mão pelos meus cabelos tingidos de loiro 
sem pedir autorização 
e que me fez sentir coisas que mesmo que eu tentasse 
não saberia explicar
Mesmo que eu tentasse não saberia 
dizer de cor
as cores de um ermo pintado

Segundo os habitantes do bairro, a palavra «mulato» surgiu aqui pela primeira vez e é ainda hoje vista como uma ofensa inaceitável. A palavra «mulato» ou «mulata», inventada pelos portugueses, que frequentavam o bordel no bairro de Mafalala e engravidavam as prostitutas. Os seus filhos eram então apelidados de «mulatos». E ainda hoje, chamar «mulato» a alguém é dizer que é filho de uma puta. 

Nas milhares de barracas sem água corrente ou electricidade, dezenas de pessoas, da mesma família ou não, partilham o mesmo espaço. Dormem dezenas na mesma divisão. Sem camas, maioritariamente no chão, e evitam a almofada. Ficam até muito tarde a conversar na rua, temem a almofada como o diabo teme a cruz porque é só quando se deitam que se apercebem da vida miserável que têm. Não romantizo, foi-me dito por um dos habitantes do bairro. Evitam a almofada porque preferem dormir pouco. O que pensar quando alguém teme o sono e os sonhos?  

A minha mãe morou até aos dez anos com a família num bairro de barracas na Margem Sul — o Bairro do Chegadinho. Foi lá que ela e os quatro irmãos cresceram, de onde saíam e voltavam da escola, e onde a minha avó e o meu avô se recolhiam depois de um dia de trabalho na fábrica. O meu avô, operário numa fábrica de vidro em Lisboa, a minha avó, operária numa fábrica de rolhas na zona de Almada. Não eram indigentes, eram trabalhadores. Não ganhavam o suficiente para terem uma casa a sério — estávamos nos anos 60, no regime do «Botas». Ainda assim, mesmo em tempos de ditadura, os meus avós não foram despejados da barraca sem alternativa. A minha família materna foi realojada num bairro social na Cova da Piedade e decidiram lá passar a primeira noite na véspera de Natal, ainda sem mobílias, só com uns colchões onde celebraram a vitória de terem «uma casa como deve ser».

Das imagens que foram registadas do despejo no Bairro do Talude, ficou-me a voz de uma mãe, apenas a voz porque o polícia cobria a entrada da barraca, a voz de uma mulher vinda de dentro, a frase repetida em desespero, lágrimas e súplica:

«Eu vou dormir onde com a minha filha? Eu vou dormir onde com a minha filha? Eu vou dormir onde com a minha filha?»

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