A vergonha tem de mudar de lado
“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Sempre às terças na Comunidade Cultura e Arte.
Querida Chéu
Escrevo-te de Ribadavia, da Galicia, na fronteira com Portugal, com a tua carta na memória. Tenho passado as últimas semanas a recolher histórias sobre contrabando e passadores entre Portugal e Espanha durante a guerra civil até 1993, ano em que se aboliram oficialmente as fronteiras.
Na zona raiana contrabandeava-se tudo. Levava-se para lá muito sabão, muito tabaco para Espanha. Também se levava pão. Porque o pão cortado ao meio não se podia voltar a vender, mas havia sempre quem o queria comprar do outro lado porque havia muita fome e dava muito dinheiro por um pedaço de pão.
Também havia muita gente que partia para a emigração, sujeita a todo o tipo de enganos, burlas, esquemas. Muitas sem saber uma palavra de outra língua, sem saber ler nem escrever e apenas com um papel na mão com uma morada. Pessoas que acabavam a dormir em barracas como estas do Bairro da Filomena, na Amadora, que agora foram deitadas abaixo.
A justificação do presidente da Câmara, enquanto simultaneamente anunciava as festas do concelho foi algo como: “os moradores estavam cientes de que estas eram habitações precárias”.
Envergonha-me viver num país que deita abaixo barracas onde vivem pessoas que não têm onde viver enquanto constrói casas que valem milhões para vender a quem tem vistos gold. Envergonha-me saber que ambas as situações, deitar barracas abaixo deixando os moradores sem casa e obter um visto gold sejam legais. Custa-me reconhecer que o meu país travou a inclusão da referência à fome e à insegurança alimentar dos palestinianos em Gaza na declaração da CPLP e que tal seja possível em que caia o carmo e a trindade ou morramos de vergonha.
Envergonha-me saber que estamos preocupados em retirar qualquer referência à sexualidade dos currículos da cadeira de Cidadania no ensino secundário quando até há bem pouco tempo as mulheres portuguesas tinham de atravessar a fronteira para fazerem abortos ilegais e sofrer todo o tipo de maleitas por causa disso.
Somos uma sociedade cada vez mais xenófoba, reaccionária e pudica, uma combinação absolutamente explosiva para um país que já é pequenino, mesquinho e com uma enorme dificuldade em dar valor ao que tem.
Hoje também não me sai da cabeça uma história, uma de muitas que ouvi aqui em Ribadavia, sobre um contrabando de colchões no tempo da guerra civil.
Ao que consta, os colchões eram muito mais baratos em Portugal do que na Galiza e um dia, uma jovem grávida de 6 meses queria muito comprar um colchão antes de dar à luz. Alguns amigos decidiram ajudá-la a trazer um colchão de Portugal e passaram a fronteira a pé, enquanto ela no cimo de uma árvore, e grávida de seis meses, volto a dizer, vigiava a fronteira e verificava se não se atravessava no caminho algum guarda fiscal.
De tão concentrada que estava nesta sua tarefa, a moça não percebeu que o guarda estava junto à arvore e apanhou um susto quando ouviu:
– então e a menina não tem vergonha de estar aí, nesses preparos, pendurada numa árvore, grávida dessa maneira?
– Não, senhor guarda fiscal, eu tenho é vergonha de não ter um colchão para deitar o meu bebé quando ele nascer.
Consta que este guarda fiscal, de seu nome andorinha, era um calhorda, e quase toda a gente que viveu na sua época tem uma história ignóbil com este senhor.
Há pouco tempo, uma senhora já de vetusta idade, passeava-se na rua quando o vi e perguntou-lhe.
– És tu, andorinha?
Ele, feliz por ser reconhecido, disse-lhe que sim.
Ela cuspiu-lhe na cara.
Por vezes penso se não seremos demasiado bem-comportadas. Como se escrever já não fosse suficiente para denunciar o que se passa.
Cuspir ou esfregar uma tarte de chantilly na cara como o fizeram activistas em 1977 na cara de Anita Bryant, uma dona de casa espevitada que apelava à defesa dos valores cristãos e desejava proteger as boas famílias norte-americanas desses depravados homossexuais e reverter todas as leis de anti-descriminação que protegiam (finalmente) as comunidades LGBTQ. Os Biotic Baking Brigade (BBB), mais conhecidos pelos flan-archists, repetiram a proeza com mais políticos e mais recentemente um grupo de cineastas e performers belga que retomou a tradição.
Não seria de importar esta estratégia para Portugal?
A quem atirarias tu a primeira tarte?
