A vergonha tem de mudar de lado
“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Sempre às terças na Comunidade Cultura e Arte.
Querida Portela,
Perguntaste-me a quem atiraria uma tarte. Não desperdiçava comida na cara de uma pessoa detestável, embora seja uma boa questão e uma boa acção (de enxovalhamento). Porém, lançava com gosto um balde cheio de merda à cara de qualquer homem que bate na mulher. (Desculpa ser tão gráfica.) Dar-me-ia grande satisfação ver um desses parasitas coberto de excrementos humanos ou de outros animais. Não que resolvesse o problema da vítima ou que servisse de cura para o agressor, mas parece-me que seria uma punição preliminar, embora literal, bastante justa.
Duas parangonas que guardei recentemente com a palavra «mulher»:
«Peso das mulheres no novo Governo é o mais baixo dos executivos da última década.»
«Dispensamos militares na Presidência. Interessava-me mais ver uma mulher nesse lugar, mas a luta é desigual», disse Helena Roseta, no podcast «A Beleza das Pequenas Coisas», de Bernardo Mendonça.
Lembro-me de se falar nos anos 80 e 90 da Maria de Lourdes Pintassilgo, a primeira e única mulher em Portugal que desempenhou o cargo de Primeira-Ministra, entre 1979 e 1980, tinha eu dois anos de idade. Das imagens dela na televisão, na década de 80, recordo o cabelo curto e escuro, sempre com brushing, e o batom avermelhado. Esteve menos de meio ano no cargo, devido à instabilidade política e económica da época, mas, em cinco meses, aumentou o salário mínimo e as pensões de velhice e invalidez. Nos anos 80, o meu pai era um carpinteiro com o salário mínimo, a minha mãe estava em casa devido à depressão pós-parto, e vivíamos os três no mesmo quarto em casa da minha avó materna na Cova da Piedade. O salário era só um e não dava para arrendar uma casa. No quarto tínhamos uma cama de casal, um divã (onde eu dormia), um roupeiro para todos, e chegámos a ter um frigorífico porque a partilha da comida no frigorífico da minha avó tornou-se conflituosa. A minha mãe usava, nessa época, um penteado parecido com o da Maria de Lourdes Pintassilgo, deve ser por isso que me lembro bem da imagem da ex-Primeira-Ministra. A minha mãe, mesmo enfraquecida pela doença, representava para mim a imagem de uma mulher que podia ser um dia a Primeira-Ministra de Portugal. Não que tivesse aspirações políticas ou estudos, mas a imagem dela era semelhante à de uma mulher que tinha liderado por instantes o país. E eu podia visualizar o potencial de poder da minha mãe, e até o meu, porque tínhamos tido um paradigma feminino, uma líder. Mesmo sabendo que a luta entre homens e mulheres é desigual, como disse recentemente Helena Roseta, afirmando, porém, que Portugal está mais do que preparado para ter uma mulher a liderar. Não é impressionante que, com tantas mulheres na política, ainda não tenhamos tido novamente uma mulher a encabeçar o país? Passaram-se quarenta e cinco anos desde Maria de Lourdes Pintassilgo. Quase meio século. O que se passa, afinal? Passa-se sobretudo que uma mulher é absolutamente escrutinada quando se coloca na corrida ao poder — o cabelo, a voz, a vida pessoal, a roupa, tudo conta — e por isso, atingir esse lugar torna-se mais custoso. Precisamos de mulheres capazes de aguentar esse escrutínio, precisamos de mulheres a liderar, a dar o exemplo, a assumir os mais altos cargos de chefia, incluindo o de um país. Que mulher escolherias?
