A vergonha tem de mudar de lado
“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Sempre às terças na Comunidade Cultura e Arte.
Querida Chéu
Antes de responder à tua pergunta, permite-me fazer uma nota sobre o tua (nossa!) introdução na última carta que trocámos.
A vergonha é muitas vezes cumprida ou ‘administrada’ a outrem através de uma humilhação ou acto de violência perpetrado em praça pública.
Cada vez mais me incomoda o facto de eu ter vindo a constatar que considero correctas certas acusações e denúncias públicas (e até me sinto por vezes nobre quando as faço) aceitando por vezes métodos asquerosos de julgamento e castigo que se fossem aplicados a quem confio ou acredito, consideraria deplorável.
Dou alguns exemplos: Recentemente recolhi vários testemunhos de mulheres galegas que durante o período franquista foram obrigadas a andar de cabeças rapadas pela rua e a beber óleo de rícino, um forte laxante, para se borrarem (de medo, de vergonha e literalmente pelas pernas abaixo) por terem tido pais, maridos ou amantes republicanos, comunistas ou presumíveis opositores do sistema vingente (que durou 40 anos). Apesar de já conhecer a situação, escandalizei-me quando ouvi o relato em primeira pessoa e, no entanto, são sobejamente conhecidas as estratégias similares que os aliados praticaram a mulheres francesas que colaboraram com o regime nazi (esquecendo-nos que o próprio país, a França, através do seu governo de Vichy, também colaborou) ou simplesmente tiveram o infortúnio de se apaixonarem por alguém que nasceu e provavelmente foi seduzido a defender a civilização ocidental do “lado agora vencido”. As práticas de humilhação dos vencedores perante os vencidos são, não raras vezes, as sementes de uma revolta futura e de uma sede de justiça unilateral que quase sempre termina em novos actos de humilhação, mutilação e guerra.
Esta dupla ética também se pode aplicar a questões mais quotidianas mas não menos questionáveis, como por exemplo, quantas de nós não sabemos de clássicas (e chauvinistas) situações de triângulos amorosos entre marido, mulher e amante, e guardamos (oficialmente) segredo, permitindo que todos os envolvidos se mantenham em situações de poder, sofrimento ou desolação, dependendo de quem ocupa que lugar? Quantos de nós já não estiveram em situações semelhantes esperando silenciosamente que as peças do tabuleiro de xadrez mudem de posição ao invés de atirar o tabuleiro ao chão? Quantos de nós fingem não perceber de xadrez, se recusam a jogar porque não têm nada a ver com isso, ou se tiverem oportunidade de fazer xeque-mate atiram-se roubando o jogo a quem o jogo com complacência ou submissão?
Estas duas situações que menciono, uma de extrema violência outra, não menos violência mas de cariz mais regular são mais ou menos toleradas dependendo do miradouro que escolhemos para ver as vistas, chegando mesmo a elaborar teorias de alto calibre para justificar aquilo que nunca aceitaríamos se fossemos nós o alvo.
Há uns dias, no jornal israelita Hareetz, múltiplas vezes boicotado pelo governo de Netanyahu por não “servir os interesses do Estado”, o jornalista Gideon Levy contava que “Adolf Eichmann começou a sua carreira nazi como chefe da Agência Central para a Emigração Judaica, nos serviços de segurança encarregados da defesa do Reich. Joseph Brunner, o pai do chefe do Mossad, David Barnea, tinha três anos quando fugiu da Alemanha nazi com os pais, antes de o plano de evacuação passar à fase de execução.
Na semana passada, Barnea, o neto, visitou Washington para discutir a “evacuação” da Faixa de Gaza da sua população. Segundo o relato de Barak Ravid na Channel 12 News. Barnea disse aos seus interlocutores que Israel já entabulara conversações com três países nesta matéria.A ironia da história escondeu o rosto, envergonhada. Um neto de um refugiado de uma limpeza étnica na Alemanha conversa sobre limpeza étnica — e não lhe ocorre nenhuma lembrança.”
Como diria o meu mais que adorado Robert Musil, é fácil justificar qualquer crime em nome de uma visão macro da sociedade onde tudo parece funcionar e fazer sentido devido a mais altos valores, mais difícil é ter a certeza de que reagiríamos da mesma forma e falaríamos com adequada eloquência “uma bofetada na nossa cara como se fosse uma mordidela acidental de um cão”.
Será que me estou a explicar querida Chéu?
Quando iniciamos as nossas crónicas (sim, digo nossas porque o que escreves é como se eu o escrevesse, estamos nisto juntas!) com um “Não desperdiçava comida na cara de uma pessoa detestável, embora seja uma boa questão e uma boa acção (de enxovalhamento). Porém, lançava com gosto um balde cheio de merda à cara de qualquer homem que bate na mulher.” Não sei se não estamos a dizer algo que nos pode vir a envergonhar muito em breve.
As nossas palavras são as nossas pedras, as nossas armas de arremesso, e mesmo que nunca durante as nossas vidas tenhamos sequer (espero bem) a oportunidade de despejar coisa alguma pela cabeça abaixo de ninguém, a responsabilidade de tornar estas ideias possíveis é muito nossa.
É como quando nós aplaudimos muito a obra de um nosso colega que todos muito admiramos e que escreveu enquanto director do nosso teatro nacional um espectáculo com o célebre título: Catarina ou a beleza de matar fascistas!
Será que aplaudiríamos se se chamasse (e fosse sobre a) Catarina ou a beleza de matar comunistas? Catarina ou a beleza de matar racistas? Catarina ou a beleza de matar criminosos? Catarina ou a beleza de matar deficientes? Catarina ou a beleza de matar idiotas? Pobres de espírito? Catarina ou a beleza de matar o André Ventura? Catarina ou a beleza de matar o Sá-Carneiro? Catarina ou a beleza de matar o Juíz Moura?
Já viste a violência destas palavras?
Repara que não digo Catarina ou a beleza de matar o fascismo, Catarina ou a beleza de matar o comunismo… Parece-me bastante diferente e agora que o escrevo até me parece um belo título!
Repito este título com variantes para lermos e pensarmos: o que sinto quando ouço esta ou aquela combinação? Sim, porque todas as que mencionei já são e foram possíveis na história recente da humanidade e continuam a ser praticadas alarvemente as we speak …
Concordamos se forem fascistas, não concordamos se forem deficientes?
Concordamos se forem judeus não concordamos se forem palestianianos? Ou ao contrário?
Como diz a minha filha, é muito mais fácil dizer uma coisa que não se quer do que fazer uma coisa que não se quer e com isso, legitimamos, através das palavras, um conjunto de possibilidades violentas em nome da leveza de uma metáfora bonita. Não te parece preocupante?
Frank Sinatra cantou Fly me to the moon quando queria apenas dizer amo-te tanto, fazes-me ir ao céu e voltar. Hoje, Jef Bezos ou Elon Musk podem dizer, I will Fly you to the moon e estão a ser literais.
I will buy you Venice, I will buy all of COMPORTA just for you.
É literal e é Possível. E começou com uma ideia. Meia dúzia de palavras.
Por isso querida Chéu, o que estamos nós mesmo dispostas a dizer e a fazer?
Se por um lado acho que devíamos falar mais, ser mais gráficas e mais incisivas, o que queremos mesmo que aconteça?
Prometo citar um sem número de mulheres portuguesas que gostaria de ver a dirigir-nos para um Portugal mais visionário na próxima carta.
Para já deixo-te com Vandana Shiva e a imagem de um outro paradigma do qual me aproximo cada vez mais, uma outra forma de lutar e de abraçar as causas do mundo sem passar pelo conflito armado e pela punição:
“Eu acredito que Gandhi é a única pessoa que sabia o que era a verdadeira democracia – não a democracia como o direito de comprar o que se quiser, mas a democracia como a responsabilidade de ter de prestar contas a todos os que nos rodeiam. A democracia começa quando todos estão livres da fome, livres do desemprego, livres do medo, livres do Ódio. Para mim essas são as únicas liberdades nas quais deveríamos basear a nossa sociedade.”
