A vergonha tem de mudar de lado

por Cláudia Lucas Chéu,    15 Agosto, 2025
A vergonha tem de mudar de lado
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“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Sempre às terças na Comunidade Cultura e Arte. 

Querida Portela,

Não sei se já te disse, mas tenho sérias dúvidas sobre a eficácia das armas da democracia quando confrontadas com a barbárie. Percebo o que dizes sobre os perigos que corremos ao expor ou punir violentamente alguém, mas não me parece que o diálogo que propõe a democracia resolva certas circunstâncias. Neste ponto, estamos em desacordo. A História prova-nos que certas pessoas não partilham de princípios básicos; no passado, no presente e, facilmente podemos dizê-lo, no futuro. Não descarto a possibilidade de, como dizes, estas pessoas podermos ser nós ou um dos nossos amigos em algum ponto das nossas vidas, mas se for esse o caso, então deveríamos ser sujeitos às mesmas represálias que advogamos para aqueles que identificamos como «o outro». A tolerância, por exemplo, essa palavra tão batida, é um dos grandes estandartes dos sistemas democráticos — uma arma presunçosa porque, por vezes, trata-se apenas de uma prova de superioridade; é que a tolerância exige um olhar de cima para baixo, enquanto a aceitação ou a rejeição colocam-nos a todos no mesmo plano. Não te parece curioso que a palavra aceitação tenha sido substituída pela palavra tolerância? Não é um detalhe semântico. Algumas alterações de vocabulário não são por acaso. Há uns anos comecei a reparar nas montras de algumas lojas em que a expressão «Precisa-se funcionário» tinha sido substituída por «Admite-se funcionário»; a mudança é tão flagrante que dispensa explicações. A inversão da hierarquia da necessidade, o patrão a exibir tolerância sobre o desempregado. Acredito mesmo que a tolerância é maioritariamente uma exibição de boas intenções, em vez de ser, de facto, uma acção. Confesso que sinto vergonha cada vez que vejo a palavra «admite-se» na montra de uma loja, acho tão desrespeitoso para quem está aflito e à procura de um emprego.

Certamente conheces o mito da fundação de Roma, a lenda de Rómulo e Remo, que foram abandonados num cesto nas águas do Rio Tibre e salvos por uma loba que os amamentou e os viu crescer. O desenlace desta lenda é sobejamente conhecido e trágico — Rómulo assassinou Remo. Pergunto-me se a mulher que amamenta a criança até à idade que se considera socialmente inaceitável pode ser vista, de uma forma inconsciente, como uma loba que cria aberrações.

Não sei como foram os primeiros meses de vida da tua filha, eu amamentei até aos 13 meses da minha cria. Só interrompi porque estava depauperada, não porque me tivesse secado o leite. A opção foi minha, aconselhada pelo pediatra que se apercebeu do meu nível de exaustão. A polémica sobre a amamentação não é de agora. Há muito que as mulheres são enxovalhadas, seja por terem decidido não amamentar, seja porque decidem levar a tarefa por tempo indeterminado, até haver leite e vontade de ambas as partes — mãe e criança. Os benefícios do leite materno não são uma ficção, estão estudados e provados, mas parece que o preconceito social ainda tem um enorme poder nesta questão.


A OMS e a UNICEF recomendam amamentar pelo menos dois anos ou mais, sem limite superior, precisamente porque os benefícios não desaparecem quando uma criança completa o segundo aniversário. Um estudo do American Journal of Clinical Nutrition (Pérez-Escamilla et al., 2020) demonstrou que o leite materno contém proteínas, gorduras essenciais, vitamina A e anticorpos mesmo depois dos 24 meses. Portanto, as mães que decidem amamentar têm de ter licença de amamentação, sim, isto nem sequer devia ser questionável.

Já viste como o corpo da mulher, mãe ou não, está sempre a ser escrutinado em praça pública? O corpo da mulher continua a ser uma das mais poderosas mercadorias — apreendida ou mercantilizada até ao esgotamento. Quando fotografias de raparigas numa aplicação de vendas de roupas vão parar a sites pornográficos, pergunto-me se é de dinheiro ou perversão que se trata, provavelmente ambos. São sobretudo movimentos de usurpação. Mas numa era em que se estão a criar mulheres impossíveis através da IA, seres utópicos, entre a arte renascentista e as top models dos anos 90, por que motivo se roubam fotografias de raparigas em fato-de-banho em poses casuais e desprevenidas? Perversão obviamente, que gera dinheiro. Detesto recorrer ao binómio homem/mulher, mas não preciso de estatísticas para estar certa de que o género masculino é o maior consumidor deste tipo de mercadoria. E uso a palavra «mercadoria» propositadamente, corpos cuja única função é serem comercializáveis. Atenção que não sou moralista nem tenho nada contra a pornografia consentida, paga e adulta.

Quero terminar pegando no último parágrafo da tua carta, a citação de Vandana Shiva. «Eu acredito que Gandhi é a única pessoa que sabia o que era a verdadeira democracia — não a democracia como o direito de comprar o que se quiser, mas a democracia como a responsabilidade de ter de prestar contas a todos os que nos rodeiam. A democracia começa quando todos estão livres da fome, livres do desemprego, livres do medo, livres do Ódio. Para mim essas são as únicas liberdades nas quais deveríamos basear a nossa sociedade.» Não consigo deixar de ver que se assim é a democracia, então é sinal de que nunca existiu. A palavra «todos», o absoluto, é um sonho inalcançável. Talvez eu já tenha sido essa pessoa que acredita, hoje não sou. Tenho tão pouca fé na raça humana. Pouca ou nenhuma. E sabê-lo, querida Portela, deixa-me abatida. Não estou disposta a cruzar os braços, mas «Merda! Sou lúcido».

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