A vergonha tem de mudar de lado

por Patrícia Portela,    24 Agosto, 2025
A vergonha tem de mudar de lado

“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Sempre às terças na Comunidade Cultura e Arte. 

Querida Chéu,

As tuas cartas comovem-me sempre. Por aquilo que descubro, por aquilo que tu és, por aquilo que eu não tenho coragem de ser.

Certa vez, um professor de filosofia política, por sinal bastante reacionário e igualmente sábio, fez o seguinte comentário durante uma aula de filosofia:

Não se pode transformar um optimista num pessimista, nem um pessimista num optimista.

Esta frase, aparentemente banal, sempre se manteve um mistério para mim. Como se estivesse pre-determinada a maneira de olhar para o mundo independentemente do que viermos a encontrar, o que viermos a aprender. 

É uma afirmação chocante, não te parece?

Será que eu posso nascer num antro de pessimistas e ainda assim ser optimista? Ou será que é esse antro que me torna optimista e por isso, por mais que pense por mim própria, nunca serei pessimista, apesar do que a realidade e os dias, e as notícias me possam ensinar.

Hoje está provado que a convicção que cada um tem se sobrepõe à leitura dos factos. Mesmo que nos apresentem, e até mesmo que consigamos concordar logicamente com a defesa de um tema ou situação que seja oposta às nossas convicções, temos sérias dificuldades em responder positivamente a algo que toda a vida consideramos prejudicial, ou errado, ou desnecessário.

Será assim também com muito do que toleramos como mulheres, por exemplo.

Conseguimos aceitar certos comportamentos que reconhecemos, apesar de serem impróprios, incorrectos ou abusivos, até os defender em nome do decoro, ou do respeito ou da tal tolerância de que falavas na tua carta, mas somos incapazes de julgar alguém próximo que tenha feito algo atroz se toda a vida o considerámos um miminho!

Esta semana foi plena de exemplos como este.

A começar com a discussão sobre a amamentação claro. 

Eu venho de uma família que self made womans, sempre muito independentes e despachadas, capazes de aguentar com este mundo e o outro, e foi um drama irreparável amamentar a Zoë até quase aos dois anos. Eu devo ter ido para a creche com dois meses, cresci à base de fórmula e comida pré-preparada, e vivi grande parte da minha infância entre casas de primos e avós e a rua, sempre numa sensação de festa enquanto os meus pais se esgadanhavam a trabalhar em dois e três e sei lá quantos turnos de trabalho para empresas, nacionais e privadas, que cresciam à custa da sua dedicação.

Na minha família quase toda a gente teve um comentário ou uma opinião sobre esta minha decisão. A criança vai crescer dependente da mãe. Assim como é que podes trabalhar, moça? Se não a habituas não vai comer mais nada! Olha que já tem dentes um dia ainda te morde (e mordeu!).

No meu caso foi a Zoë que parou de repente e eu passei duas semanas a passar vergonhas em lugares públicos (sim, porque ainda é uma vergonha e incomoda muita gente ver um peito a esguichar leite a qualquer hora sem que se possa fazer algo contra  isso). Curiosamente a Zoë nunca bebeu leite de vaca ou de cabra, rapidamente se percebeu que era alérgica, e pode ter sido coincidência, mas após o período de amamentação e entrada para a creche, eu tive dois anos de terror em que apanhou todas as doenças possíveis. Dizem, claro, nesta família, que isso é óptimo porque enrijece as crianças, ficam preparadas e ganham anti-corpos, mas tive a oportunidade de frequentar muitos hospitais nessa altura e ver bébes e crianças com todo o tipo de doenças, inflamações e desidratações ou ferimentos, e é das recordações que tenho mais vividas e dolorosas desse período.

Aliás, discutíamos em cartas passadas sobre a violência e a sua pertinência ou não perante certas situações e acho que das poucas vezes em que me transformei num bicho foi quando vi um médico a enfiar um tubo pelo nariz da minha filha como se estivesse a encher um pato de comida para fazer explodir o seu fígado e fazer foigras e quatro enfermeiras tiveram de me impedir de eu não o morder.

Pensar que vivo num país que discute com afinco regras de decoro, seja sobre amamentação, seja sobre violência doméstica, seja sobre a vida secreta dos amigos que sofrem na solidão para manter as aparências, sobrepondo a parcimónia e, na verdade, a vergonha à sua própria saúde à saúde dos seus é algo que me transtorna.

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.