A vergonha tem de mudar de lado
“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Sempre às terças na Comunidade Cultura e Arte.
Vergonhas da minha filha aos treze anos de idade
Tenho vergonha de ser confiante
e receio de parecer convencida,
vergonha de falar sobre a menstruação,
porque ainda há pessoas que têm vergonha do sangue que não podemos evitar.
Toda a gente fala em body positivity,
mas ninguém respeita as regras.
Toda a gente julga o seu corpo e o dos outros,
mesmo que em silêncio.
Tenho vergonha de expressar a minha opinião
diante de um grupo de rapazes
que podem ser machistas — nunca se sabe.
Ser mulher é, em si, ainda uma vergonha
em muitos pontos do mundo.
Sabemos que um dos grandes cúmplices da vergonha
é o silêncio. Temos de dizer em voz alta todas as vergonhas que sentimos
enquanto mulheres e torná-las plurais.
Tornar pública a vergonha, trocar-lhe as voltas.
A vergonha tem de mudar de lado, mãe.
Francisca Jerónimo e Cláudia Lucas Chéu
