A vergonha tem de mudar de lado

por Patrícia Portela,    14 Setembro, 2025
A vergonha tem de mudar de lado

“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Todas as semanas na Comunidade Cultura e Arte. 

Aqui estou eu a escrever-te uma carta com uma semana de atraso.
Porquê? Não o sei.
Poderia responder com os habituais prazos e correrias e urgências, mas uma carta não se obriga nem depende desses prazos, urgências e correrias. Já me habituei tanto ao nosso quotidiano que é uma falha gigante não te escrever, querida Claúdia. É como dizer que chego para jantar e não aparecer nem justificar porque não vim.

Estas cartas são parte indispensável do meu quotidiano. Como ir visitar uma avó todas as semanas, como não esquecer de perguntar a um amigo como está a família, como vai a vida, como correm os planos, os sonhos, os projetos.

Será que as cartas têm um prazo para serem respondidas? Ou apenas conta se respondemos ou não?
E o que nos leva a não responder uma carta?
Não saber dar uma resposta?
Não querer dar notícias a quem se ama ou se deixou de amar?
Perder o ritmo aos dias e esquecer?
Não dar a devida importância a essa carta?
Não dar a devida importância à sua resposta?
Ter vergonha do que se sente, do que se fez?
Preparar tanto o que se quer dizer que nos esquecemos de dizer?

Queria responder-te com as vergonhas sobre as quais eu e a minha filha, de 16 anos, falamos, mas cedo percebi que essa seria uma tarefa impossível e até um pouco insincera da minha parte. Seria uma traição publicá-las num lugar que é meu, nosso, Cláudia, e não dela. Três anos faz uma enorme diferença em idades se temos 13 e 16, não faz diferença nenhuma se temos 45 e 50 e, no entanto, essa diferença molda o teor das nossas respostas, para além da relação poderosíssima que é esta que ambas partilhamos de mãe filha.  

Ou seja, as respostas, brilhantes, densas, profundas, reveladoras, atentas, sensíveis, não podem aqui ser partilhadas porque densas, profundas, reveladoras, atentas e sensíveis.

Mas podem informar-nos neste nosso caminho para falar e discutir e arrumar a vergonha.

Por isso, rendida, e assumindo uma derrota quotidiana, escrevo-te para te dizer que tenho pensado (muito) em ti, tenho pensado no quanto estas relações que não se deixam quebrar e que se agarram a rotinas (literárias e outras) são importantes, escrevo-te para te dizer que não posso, não devo e não quero voltar a quebrar esta nossa conversa com um hiato tão longo como uma eterna semana.

Termino com uma notícia que uma vez li num jornal belga.

Um senhor, não sei se na Bélgica, penso que noutro lugar próximo, foi entregar à biblioteca um livro que tinha levantado há 80 anos, durante a segunda guerra mundial. No dia em que levantara este livro para o ler, a sua casa fora bombardeada. A vida, felizmente continuou, e o livro não foi destruído, mas muita coisa se interpôs no caminho. Não me lembro qual era o título do livro, e agora tenho muita curiosidade, mas sei que na Biblioteca, e após seríssima reunião, não aplicaram nenhuma coima pelo atraso, apenas uma nota para futuras requisições.

Perdoas-me?

Também eu tenho uma enorme vergonha de ser, por vezes, desarrumada com o tempo, nunca conseguindo explicar que não é desleixo, não é desinteresse, não é falta de sentido de responsabilidade, mas um profundo fascínio pelos caminhos que os dias nos oferecem.

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