A vergonha tem de mudar de lado

por Cláudia Lucas Chéu,    23 Setembro, 2025
A vergonha tem de mudar de lado
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“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Todas as semanas na Comunidade Cultura e Arte. 

Querida Patrícia,

Gostava de falar-te sobre as mulheres da limpeza, atividade quase exclusiva das mulheres e liderada por elas, basicamente desde que começámos a produzir lixo. A minha mãe foi uma mulher da limpeza nos anos 80, nos escritórios da Junta Autónoma de Estradas, na Margem Sul. Às vezes a minha mãe deixava-me ir com ela para o trabalho e eu podia observá-la a aspirar os corredores intermináveis, alcatifados, que pareciam incentivar à corrida. Não se podia correr, claro. Eu achava que a alcatifa era para os doutores não fazerem barulho quando a percorriam com os seus sapatos de sola e, assim, não perturbarem as atividades de outros doutores. Eu ficava sentada numa secretária de um desses doutores, a desenhar ao som do aspirador. Os escritórios só eram limpos depois da saída de todos os doutores e engenheiros. As mulheres da limpeza nunca se cruzavam com as pessoas de fato. Nessa idade, eu teria uns seis ou sete anos, e não sabia que ser mulher da limpeza era totalmente diferente de ser doutor, nem que os ordenados eram tão discrepantes como a água e o vinho. Eu gostava de ver a minha mãe a limpar, do cheiro agradável que ficava nos espaços depois do pano bem empapado em «Pronto» nas secretárias dos doutores.

Como sabemos, as mulheres da limpeza sofrem de invisibilidade, ainda mais em certas circunstâncias. Recordo uma senhora que, em tempos, tomou conta da filha de uma amiga e que a ajudava a pôr a casa em condições. Esta senhora, de etnia negra, limpava muitas outras casas para conseguir sobreviver. Já tinha uma idade avançada, setenta e dois anos, e mesmo assim andava numa lufa-lufa diária, de manhã à noite. A determinada altura teve um problema nos dentes, que começaram a partir-se, e tinha muita vergonha de rir; evitava sorrir ou fazia-o pondo a mão à frente da boca. Ela, que antes tinha um sorriso aberto e franco, sempre disponível mesmo com o cansaço, de repente viu-se impedida de sorrir. A minha amiga reparou que isso a estava a prejudicar muito, que a entristecia e envergonhava. A senhora acabou por lhe confessar que não tinha dinheiro para uma «dentadura», mas que lhe custava muito andar assim tão «feia». Foi então que a minha amiga disse que lhe podia emprestar dinheiro. Fizeram um acordo — a senhora ia pagando aos poucos e quando pudesse. Não tens noção da alegria dela quando, depois de algumas consultas ao dentista, apareceu finalmente com a prótese. Voltou a ficar radiante, como era antes do problema nos dentes.

A minha questão é — quem trabalha como esta senhora, de manhã à noite, não devia ganhar o suficiente para manter, ao menos, a saúde dentária? Claro que poderíamos dizer: essa amiga, e outras pessoas, não podiam pagar-lhe mais e, assim, garantir um salário suficiente? Mas não é um caso isolado, é um problema estrutural. No caso dos dentes, por exemplo, o SNS não tem neste momento, que eu saiba, serviços mínimos garantidos. Portanto, em Portugal, e não só, claro, os dentes são sempre um indicador do estrato social de uma pessoa, sobretudo a partir de uma certa idade. O estado deles reflete bem a conta bancária do seu proprietário. As mulheres da limpeza têm, muitas vezes, dentes em mau estado — não preciso de uma estatística para o confirmar. O dinheiro não chega para tudo e, por isso, há que cortar naquilo que se torna dispensável.

Digo as mulheres da limpeza porque, de facto, ainda são uma maioria que reforça a divisão de género no trabalho. São maioritariamente de classes baixas e de etnia negra, o que confirma uma intersecção de desigualdade social, racial e de género. A questão que coloco é — Como dar qualidade de emprego a toda a gente e não apenas a quem tem o chamado emprego qualificado?

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