A vergonha tem de mudar de lado

por Patrícia Portela,    2 Outubro, 2025
A vergonha tem de mudar de lado
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“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Todas as semanas na Comunidade Cultura e Arte. 

Querida Cláudia,

Por vezes a vergonha dá lugar ao medo. Tomar uma posição pública perante a violência, o escárnio, a tortura, a desigualdade, o fascismo envolve uma grande dose de coragem, não porque não tenhamos a certeza do que pensamos, do que sonhamos ou do que está certo ou errado, mas porque de facto não temos dinheiro nem para pagar a saúde dos dentes com que poderíamos morder ou mostrar um sorriso, nem para pôr pão na mesa ou tecto por cima da cabeça dos nossos filhos. Ou então temos isso tudo, mas não queremos perder o prestígio, a posição social, os votos, o sucesso imediato. E assim,  porque podemos perder a casa, o pão, a habitação, entre outros bens imediatos, ou porque podemos perder a pose, a posição, o charme, a fotografia ou o lugar num top10 de qualquer jornal, arriscamo-nos a perder a Paz para não perdermos o que já não temos agora. Mas não é mesmo temer perder o pão ou temer perder a razão ou só a aprovação dos mais poderosos. 

Há poucas horas chegou-nos a notícia de que a Flotilha humanitária que seguia em direcção a Gaza tinha sido interceptada por Israel em violação dos direitos humanos e que os cidadãos portugueses que faziam parte dela foram detidos.

Luís Montenegro afirmou que os cidadãos portugueses que embarcaram têm todo o direito de o fazer mas que se fosse ele não o faria assim. Paulo Rangel, Ministro dos negócios estrangeiros afirma que apesar de não termos dito sempre, o apoio consular tem acompanhado a viagem da Flotilha com toda a atenção e prestará os devidos serviços aos portugueses, afirmando, apesar de tudo, que o estado português tinha alertado para os perigos desta missão e que os cidadãos tinham consciência de que arriscavam as suas vidas. Não querendo citar com facilitismo Brecht e o famoso poema sobre não fazer nem dizer nada quando vieram buscar o meu vizinho, e depois os negros, e depois os judeus e depois os homossexuais até ao dia em que me vieram buscar a mim e ninguém disse o fez nada por mim, e evitando perguntar, mais uma vez, qual será o limite da desumanidade para que entremos em acção, penso nos reféns e penso que o único mecanismo de mudança no mundo parece saber colocar em prática actualmente é por um lado o da chantagem e do braços de ferro, acompanhado pelo habitual bluff, faz de conta, ignorando até poder, qualquer apelo de ajuda, qualquer grito pela justiça e pela liberdade.

Detenho-me na notícia da amnistia internacional que exige, e bem (e aqui seguem os dados para se juntarem à acção) a libertação imediata de todos os detidos da Flotilha. E penso que essa libertação imediata e urgente é o argumento que Israel advoga para continuar a sua limpeza étnica em Gaza, e recordo que o argumento do Hamas para legitimar os ataques de 7 de outubro são os milhares de palestianianos desaparecidos, raptados e assassinados, razão essa que é refutada pelo estado de Israel relembrando todos os mortos, presos e reféns judeus na segunda guerra mundial e por aí poderemos ir justificando todos os genocídios todas as guerras, todas as limpezas étnicas: em nome da libertação dos reféns. E sublinho a palavra libertação.

Como o cérebro tem caminhos para se defender e para procurar soluções que a própria mente desconhece lembrei-me da canção Flor de Idade de Chico Buarque e pensei, ao mesmo ritmo:

A gente faz hora faz fila na vila do meio-dia
Pra ver futebol e maria
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia
Mas a nossa porta não tem tramela
A janela é sem gelosia
A gente nem desconfia
Ai o primeiro rapto, a primeira bala, a primeira dor 

Na hora certa, a casa aberta, político certo p’ra convencer a família
A armadilha
Ameaça mesa posta sem peixe, país sem freio, a insegurança da filha
(Uma ousadia)

O político vive do sucesso do like e do rádio de pilha
Que fantasia
Ai o primeiro corpo o primeiro morto o primeiro horror

Vemos a História passar, como dança balança avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada dada a danada ataca e mata seminua
E nós dizemos continua
Ai primeiro sem terra,
A primeira guerra, o primeiro horror 

Páris raptava Helena que raptava Tróia que raptava Aquiles que amava Helena e raptava 
Roma que raptava Grécia que raptava a Europa que raptava
Napoleão raptava França que raptava Espanha que raptava Portugal que raptava o Brasil e raptava Moçambique e raptava Angola e pedia ajuda a Inglaterra que raptava 
a Irlanda e raptava a Escócia e pedia-lhe que raptasse
Alemanha raptava França que raptava a Bélgica que raptava o Congo que raptava 
Rússia raptava a Ucrânia que não era Nato que era raptada pelos Estados Unidos que raptava o México que raptava o Canadá a Gronelândia eu sei lá 
Hamas raptava Israel que raptava Gaza que raptava Hamas que raptava Israel que raptava a Flotilha que raptava Portugal que não raptava nada enquanto a Europa se fingia morta perante o rapto de toda a quadrilha.

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