A vergonha tem de mudar de lado
“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Todas as semanas na Comunidade Cultura e Arte.
Querida Patrícia,
Escrevias na tua carta a letra da canção de Chico Buarque, Flor de Idade, e eu começo esta missiva precisamente pelo tema das canções, pelo Festival da Eurovisão e pela posição da Alemanha sobre a participação de Israel. Não sem antes espreitar pelo retrovisor, evitando a tendência de olhar para as coisas isoladamente. Há muito que o Festival da Eurovisão reúne política e canções — atrevo-me a dizer que é mais político do que entretém. Pensemos, por exemplo, em Portugal nas décadas de 60 e início de 70, em que a maior parte dos compositores e cantores fazia resistência ao Estado Novo, tentando levar através do Festival uma mensagem a toda a Europa; as canções eram, sem dúvida, uma forma de luta. Toda a gente conhece a célebre Desfolhada, cantada por Simone de Oliveira em 1969 — muito antes de eu e tu existirmos, Patrícia — com letra de Ary dos Santos:
Corpo de linho, lábios de mosto,
meu corpo lindo, meu fogo posto,
eira de milho, luar de agosto,
quem faz um filho, fá-lo por gosto.
«Quem faz um filho fá-lo por gosto», dito na voz de uma mulher e cantado daquela forma assertiva, contagiando outras mulheres que o entoavam convictas em coro, foi um vendaval que tentou abanar o «país dos bons costumes». Uma canção que, em Portugal, representou um gesto feminista — ainda que a palavra fosse impronunciável. As palavras, ditas ou cantadas, têm uma força que todas as ditaduras reconhecem e tentam silenciar.
Voltando à atualidade e à posição da Alemanha sobre a permanência de Israel no Festival. São vários os políticos europeus a reclamar a exclusão de Israel do Festival da Eurovisão, tal como aconteceu com a Rússia após a invasão da Ucrânia, mas a Alemanha defende a presença israelita. O gesto da Alemanha parece-me mais inquietante do que nobre. A defesa da participação de Israel não é um acto de justiça, mas um possível reflexo de culpa histórica — ou, pior ainda, de desligar a política da cultura — que não pode servir para legitimar o silêncio diante de outras violências.
Acaba de ser anunciado o vencedor do Prémio Nobel da Literatura, atribuído ao escritor húngaro László Krasznahorkai. Pouco posso dizer sobre o autor porque nunca o li, apenas conheço as adaptações dos seus textos nos magníficos filmes de Béla Tarr. Mas há quinze dias estive em Estocolmo e visitei o museu do dito prémio; nas montras podemos ver, por exemplo, os últimos óculos usados por José Saramago e os do Dalai Lama. Paguei treze euros para ver através do vidro objetos de antigos laureados. O escritor húngaro vai receber um milhão e quatrocentos mil euros pelo prémio — uma exorbitância que qualquer pessoa desejaria — e daqui a uns anos terá também alguns dos seus pertences em exibição em Estocolmo. Bem sei que um dos objetivos dessas montras de objetos é o de trazer humanidade a figuras que se tornaram míticas. Por outro lado, também é uma forma de exibir a glória dos premiados porque os seus objetos quotidianos passam a ter valor. Quem pagaria para ver numa montra os óculos usados por um talhante ou por uma costureira?
Bem sei que um dos objetivos dessas montras de objetos é o de trazer humanidade a figuras que se tornaram míticas. Por outro lado, também é uma forma de exibir a glória dos premiados porque os seus objetos quotidianos passam a ter valor. Quem pagaria para ver numa montra os óculos usados por um talhante ou por uma costureira?
