A vergonha tem de mudar de lado
“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Todas as semanas na Comunidade Cultura e Arte.
Querida Cláudia,
Temos pouco orgulho nos feitos heroicos enquanto exibimos uma paixão desmesurada por figuras célebres e seus apetrechos. Somos fetichistas. Aquele acto que deveria servir de exemplo serve de ditador de modas. Percorremos cidades por causa de canções pop, usamos roupas que nos fazem sentir como esta ou aquela actriz, dizemos frases que não são nossas, sonhamos ser feitas de ideias feitas. Uma permanente contradição.
Porque quereríamos ver os óculos usados por Saramago, Dalai Lama ou de uma costureira ou talhante? Não é curioso ser este um objecto que só se usa quando não se vê bem? Eu era uma óptima costureira até deixar de ver bem ao perto. Agora, tentar acertar numa agulha é um suplício, fazer uma bainha de umas calças ocupa-me uma tarde. E eu ainda tinha o sonho de ser uma bela costureira ainda. E de ser uma óptima cenógrafa de óperas, e ainda uma excelente escritora e encenadora e mãe e filha e por aí fora. Serão todos estes sonhos meus? Ou também me ocupo de uma imagem de mim que é uma cópia do que vejo (com e sem óculos, com e sem foco)?
E não será a vergonha uma reacção ao que somos e não queremos que ninguém veja? E não queremos nós que ninguém veja porque ninguém mostra, preferindo fazer de conta que é um objecto passível de ser guardado e exibido num museu um dia mais tarde, e não aquilo que somos, cheias de lentes partidas, ângulos desfocados, sonhos adiados, outros ainda mal cumpridos sem açúcar ou afecto?
Quereremos nós ser os óculos de alguém ao invés de vermos bem?
Falavas de Krasznahorkai. Satantango é um dos meus livros de cabeceira e Bela Tárr um dos meus realizadores de eleição. Há uma entrevista deste realizador que não cesso de citar. Um momento em que tenta explicar uma cena absolutamente tenebrosa do seu filme Werckmeister harmonies. Uma cena em que um grupo de homens entra por um hospital e destrói tudo e todos os que lhe aparecem à frente, só se detendo perante um velho, decrépito, nu, escanzelado, dentro de uma banheira, a tomar um duche. Nesse momento param e voltam para trás. O entrevistador pergunta a Bela Tarr porque fez ele essa cena assim e porque param todos diante do homem mais velho. Bela Tarr responde: todo o ser humano tem um limite. Todo o ser humano vai, vai, segue, segue até ao momento em que encontra uma parede e só lhe resta voltar para trás ou transformar-se num monstro.
Sempre me agarrei a esta frase como uma mantra, mas hoje penso, e se já não há paredes para alguns? Nada que os detenha, nem físico nem mental?
E se a vergonha, quando sofrida por certas pessoas ainda com algumas questões existenciais, fosse o último muro presente a impedi-las de serem calhordas depois de já terem perdido as qualidades?
Vivo assustada. Não estamos em lado nenhum da barricada, estamos só infelizes com o privilégio que continuamos a poder exercer em todos os continentes, sobre todas as culturas e modelos de comunidade.
Como diria Bo Burnham no seu espectáculo de stand up Make Happy numa canção intitulada straight white male:
Straight white male, I know the road looks tough ahead
We used to have all the money and land
We still do but it’s not as fun now
Sinto que devemos fazer um novo inventário de prioridades. Por onde começarias?
