A vergonha tem de mudar de lado

por Cláudia Lucas Chéu,    6 Novembro, 2025
A vergonha tem de mudar de lado
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“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Todas as semanas na Comunidade Cultura e Arte. 

Querida Portela,

Perguntas por um novo inventário de prioridades e não sei bem como responder. Sou só eu, ou andamos um bocado à toa, a viver à superfície das coisas, metralhados por níveis de violência e alienação por todos os lados? Quando se torna aceitável que um líder partidário ofereça, como solução para os males do país, um ditador em dose tripla — e o proclame em plena praça pública —, quando um líder mundial garante o fim perene de uma chacina inaceitável e afinal tratou-se apenas de um cessar-fogo com a duração literal de «enquanto o diabo esfrega um olho», não sei mesmo o que dizer sem usar a gasta e desesperançosa palavra distopia.

Há uns dias assisti pela primeira vez à obra-prima do Kurosawa, Viver (Ikiru) — se não viste, tens de ver — e fui atravessada pelo belo do primeiro ao último frame. Um filme de 1952, com um enredo que talvez hoje nos pareça banal, mas que recorda o essencial do que é estar vivo e do que podemos efetivamente fazer com a nossa vida. Qual a mudança que podemos operar no mundo? Porque podemos, sim — e não precisamos de ter a faca da doença terminal apontada ao pescoço, como tem o protagonista do filme japonês. Mas, para isso, talvez seja necessário termos capacidade de apreciar as pequenas coisas da vida antes de nos lançarmos às grandes. «Para mudares o mundo, começa por fazer a tua cama.» Um conselho popular simples, eficaz, que talvez não estejamos a aplicar de forma razoável.

Por todos os cantos digitais, gritos de protesto que não têm eco na prática; intenções megalómanas que não chegam sequer a uma pessoa, quanto mais a terem dimensão mundial. Talvez a minha lista de prioridades, neste momento, «seja fazer a cama», no sentido de cuidar de mim e dos meus, e tentar criar uma cadeia de pessoas decentes. É pobrezinho? Se calhar é. Mas, como se costuma dizer, é honesto.

Pelos vistos, está na moda abandonar entrevistas ou debates em direto. Na semana passada, o socialista Prata Roque acusou Ventura de ser um «Salazar da Temu» e o Chega de ser «fascista». Rodrigo Taxa, do Chega, enervou-se e começou uma discussão desrespeitosa, com direito a «Cale-se!», coisa que Prata Roque acabou por fazer, abandonando em direto o estúdio. No passado sábado, foi a vez do líder do Chega desertar a meio de uma entrevista na CNN, quando confrontado com a questão: «Por que é que berra tanto?» Calou-se e foi-se embora. Quem nos dera que fosse de vez.

Parece uma questão de somenos, mas não é. Abandonar o diálogo, abandonar o debate, silenciar — é precisamente um sintoma de sociedades autoritárias que não respeitam opiniões diferentes nem aceitam a crítica. Parece-me bastante claro este sintoma de incomunicabilidade, o melodrama do bater de portas, em pessoas que têm a obrigação e o dever de aguentar um confronto público. Já nem no teatro se usa este estilo de representação tão puxado, a roçar a telenovela venezuelana dos anos 90.

Que listas de prioridades andas a fazer mentalmente? Pões em prática alguns desses pontos? Sinceramente, mais do que prioridades, penso em direitos e deveres. Penso que andamos todos esquecidos deste par fundamental para mantermos uma democracia minimamente saudável.

Recordo-me de um pequeno texto da Adília Lopes:

Justiça

A minha mãe ensinou-me assim: quando atravessamos uma rua e o condutor do carro que vai a passar pára para nós atravessarmos, nunca agradeças.

É obrigação do condutor parar.
Os peões têm prioridade. É um direito.
Um direito nunca se agradece.

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