A vergonha tem de mudar de lado

por Patrícia Portela,    12 Dezembro, 2025
A vergonha tem de mudar de lado

“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Esta é a última correspondência entre as escritoras na Comunidade Cultura e Arte. 

Querida Chéu,

Há semanas que porque passam a correr nos obrigam a reflectir e a levar tempo para da resposta, por outro. Parece contraditório e no entanto não é.

Falavas há semanas, de líderes partidários que abandonavam debates televisivos ou discutiam ininterruptamente sem deixar mais ninguém falar. Comentavas como estes debates para as presidenciais são um sintoma de uma sociedade que caminha para uma lógica cada vez mais autoritária e insensível à escuta. Penso nas tuas palavras e recordo-me de uma reunião na qual estive presente recentemente e onde diferentes parceiros de um projecto artístico tentavam resolver uma pequena quezília entre dois dos colaboradores, um arrufo que tinha acabado na suspensão unilateral de um projecto que envolvia várias instituições culturais de renome e de vários países. Perplexos com o sucedido, a maioria procurou o habitual consenso com palavras diplomáticas, discursos previsivelmente moderados e inevitavelmente vazios e considerações exageradas sobre o propósito magno de um qualquer projecto que envolva uma tão grande diversidade de parceiros culturais, cidades, artistas, etc, etc. Tudo parecia correr bem durante a reunião e indicava que chegaríamos a bom porto, apesar de nenhum dos participantes se atrever a denunciar o elefante da sala para não ferir a susceptibilidade de ninguém nem acordar o próprio do elefante. Eis se não quando, três horas mais tarde, a reunião quase a terminar e um último elemento pede, com preocupação mas também a necessária e ausente assertividade, um esforço colectivo para tentarmos não repetir semelhantes quid pro quos que comprometam o bom funcionamento do projecto em causa. O parceiro em questão, que tinha promovido a suspensão do projecto, desmancha-se numa gritaria inesperada, insultando todos os presentes e avisando que “a ele não o encostam à parede, a ele ninguém o obriga a obedecer seja a quem for, se for preciso ele cancela tudo outra vez, mesmo a dois minutos de uma estreia se for preciso!” Ele não tem medo e fará o que tiver a fazer, incluindo voltar a decidir sozinho qual o futuro de um projecto colectivo. 

Foi neste momento que algo muito curioso aconteceu: a reunião era online e sem que houvesse uma troca de olhares ou algum acordo prévio, os restantes participantes na reunião calaram-se. Ninguém respondeu, ninguém ripostou, ninguém apaziguou ou procurou encontrar uma solução para o descontrolo desenfreado de um dos parceiros. E assim ficámos. Em silêncio. Enquanto o parceiro gritou e gritou e gritou, parou, voltou a gritar, e a gritar e a gritar e a ameaçar e a contradizer-se e a exigir e a impor e a denunciar, irado, ofendido, incapaz de ver para lá da sua própria fúria. E nós calados. Até ao momento em que ele diz, já calmo: 

– Bom, e agora como resolvemos isto? 

E nem a este pedido teve resposta. Que poderíamos nós dizer?

Esta reunião teve um impacto tão grande em mim que comecei a imaginar todos estes debates televisivos, todos os conflitos actuais, todas as mesas de negociação em que se trocam insultos e frases indecorosas, se gritam absurdos, se exerce bullying e se fazem braços de ferro sobre o parceiro mais fraco, a terminarem da mesma maneira. Com um silêncio presente. Não é um abandono, não é um Quero eu lá saber. É um: enquanto falares assim não te respondemos mas também enquanto a situação não for resolvida não saímos daqui. Uma espécie de pós-Bartleby, pós estes tempos de regresso a um totalitarismo sem freio. Uma resistência pacífica à violência disparatada dos nossos líderes actuais, violência essa que tem vindo a servir de exemplo a outros líderes mais pequenos na arte, na cultura, na ciência. Pequenos ditadores que copiam o estilo arruaceiro e carro-de-ataque de políticos que não têm nada a perder (nem a dizer) para imporem as suas vontades só para não perderem o lugar de destaque que, infelizmente, ainda têm na nossa sociedade. Gente sem vergonha nenhuma! E foi a pensar em tudo isto que cheguei à reflexão que queria partilhar contigo e que se centra na nossa empreitada comum para este ano: 

Será que conseguimos nalguma destas crónicas falar do que sentimos realmente vergonha? E não falo de vergonha alheia ou de situações em que as pessoas poderiam sentir vergonha e não sentem; falo daquilo que nos dá mesmo vergonha dizer, fazer, comprar, vender…

Será que tivemos assim tanta coragem para falarmos daquilo que nos vai na alma e mais tememos? Não será falar da vergonha uma espécie de contradição? Será que falamos mesmo daquilo que temos vergonha? Ou será que levantámos algumas pontas de alguns véus mas nunca corremos atrás do verdadeiro risco, nunca pegamos na nossa vergonha com as duas mãos para a olharmos de frente e perceber quais os mecanismos que ainda hoje nos fazem ter vergonha do nosso desejo, do nosso passado, das nossas vontades, dos nossos preconceitos, da nossa história, das nossas ambições, das nossas vidas. 

Escrevo-te esta carta no dia da morte de Clara Pinto Correia. Uma mulher com uma liberdade rara para o seu tempo e geografia, uma escritora e investigadora que ambas vimos a discursar recentemente no Encontro Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim. Essa mulher destemida, viu a sua vida dar uma reviravolta quando foi fotografada por Pedro Palma revelando várias expressões de prazer denunciando (um) momento(s) de  êxtase sexual. Figura central de outros escândalos que envolveram plágio, e questões éticas e jornalísticas complexas, foi a vergonha que outras mulheres (e homens) sentem do seu prazer que acabou por condenar Clara Pinto Correia a um exílio físico e emocional deste país. É curioso, não é? E por isso volto a fazer a mesma pergunta, agora de uma outra maneira: como falar com sinceridade de algo que nos envergonha? De algo que, por definição, nos pede silêncio?

Virginia Woolf costumava dizer: é muito fácil tornares-te numa feminista: basta escreveres sobre a tua vida com verdade.

Será que temos escrito com verdade? Ou será que até agora apontamos algumas questões, namoramos umas quantas outras, mas não descemos ainda aos infernos? E fará sentido? Fará falta? Interessa-te? 

A título de homenagem e de curiosidade, aqui te deixo um conto delicioso da Clara Pinto Correia.

__________________________________________________________________________________________________________

Olá, Patrícia. 

«Será que tivemos assim tanta coragem para falarmos daquilo que nos vai na alma e mais tememos? Não será falar da vergonha uma espécie de contradição? Será que falamos mesmo daquilo que temos vergonha? Ou será que levantamos algumas pontas de alguns véus mas nunca corremos atrás do verdadeiro risco, nunca pegamos na nossa vergonha com as duas mãos para a olharmos de frente e perceber quais os mecanismos que ainda hoje nos fazem ter vergonha do nosso desejo, do nosso passado, das nossas vontades, dos nossos preconceitos, da nossa história.»
Acho que não. Acho que fomos mais retóricas que íntimas. E penso que fará sentido continuarmos, sim, mas com um registo mais epistolar, mais confessional, menos colectivo e mais pessoal, penso que só aí podemos realmente tentar dizer algo que seja universal. Que me dizes? 

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.