“A vida no nosso planeta azul”: desde o mais simples organismo até ao ser humano, fazemos todos parte da história da vida

por Ana Monteiro Fernandes,    8 Setembro, 2025
“A vida no nosso planeta azul”: desde o mais simples organismo até ao ser humano, fazemos todos parte da história da vida
“A vida no nosso planeta azul”
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O planeta Terra passou por cinco extinções em massa desde a sua formação e as espécies vivas actualmente, incluindo o ser humano, representam apenas 1% de todas as espécies que já existiram. Ou seja, 99% de todas as espécies no planeta acabaram por desaparecer, restando apenas uma parcela, mais dez milhões, mas que, mesmo com este número considerável, trata-se apenas de uma ínfima parte de toda a vida que já existiu. Desde uma pequena célula chamada Luca da qual todos os seres vivos descendem, até ao plâncton (do qual todas as plantas derivam) responsável pelo oxigénio devido ao processo de fotossíntese; desde as primeiras formas de vida fixas nos oceanos até às alforrecas que foram as primeiras a aventurarem-se libertas pelo mar adentro, o que o documentário da Netflix, “A vida no nosso planeta azul” (“Life on Our Planet”), de 2023, que acabei de ver recentemente, com narração de Morgan Freeman e produção de Steven Spielberg demonstra é que a vida encontrou sempre uma forma. Umas espécies acabaram e outras renasceram; outras evoluíram e outras permaneceram, tal como os tubarões, mais antigos que os próprios dinossauros. A natureza foi-se construindo e moldando como um puzzle, um organismo vivo, até chegar ao que somos hoje. Os primeiros seres tiveram de se libertar e navegar pelo mar; houve espécies que trocaram a água pela terra. As barbatanas adaptadas transformaram-se em patas e, desde o império das plantas e flores, insectos, répteis, dinossauros, mamíferos até se chegar ao ser humano, a natureza acabou por ser este organismo vivo que se construiu, destruiu, moldou e lapidou, ensinando a maior lição de todas: é a adaptabilidade ao meio que faz a diferença. 

Poderíamos pensar na lei da força, mas que peso teve a força bruta dos dinossauros perante a queda do asteroide que iniciou o processo da sua extinção e que, posteriormente, permitiu que os mamíferos saíssem do submundo da sua toca, aumentassem de tamanho, e se diversificassem nas várias espécies que conhecemos até hoje: desde os morcegos que conquistaram o ar, as baleias e os golfinhos que abraçaram os oceanos, e a infinidade de mamíferos que habitam em terra firme. Ainda assim, no meio da crueldade da natureza e das suas leis, sabemos ainda que houve generosidade suficiente para os corpos de cada espécie estarem munidos de defesas para o confronto com o seu rival predador, ou para se saber locomover e tirar maior partido do seu meio-ambiente. Mais uma vez, essa adaptabilidade do corpo não foi um processo momentâneo mas, sim, resultado de uma simbiose entre as condições do ambiente envolvente e a biologia do corpo. 

No entanto, num mundo em constante transformação e mutação, uma vez chegados ao ser humano com capacidade de compreensão e inteligência nunca antes vistas, não podemos deixar de pensar qual é, afinal, o seu lugar. Será que no universo dos 99% de todas as espécies extintas seremos assim tão importantes e iremos ser assim tão importantes? E o que tanto nos separa dos restantes seres vivos? Será que esta nossa capacidade para compreendermos a construção mas também a destruição nos torna mais ou menos valiosos para a natureza? Afinal, nada nos garante que não fazemos apenas parte de um processo dentro deste grande organismo que tem sabido como se autorregular até aqui, por isso, estamos longe de ser, como se diz na gíria, “a última bolacha do pacote”, o problema é que a nossa soberba faz-nos crer que sim. O documentário de Spielberg faz um alicerce com a lei do mais forte e do mais adaptado, com a forma como a evolução das espécies se foi moldando tal como a teoria de Darwin nos ensinou, mas quero colocar antes o foco na forma como a história evoluiu desde o primeiro plâncton, seres gelatinosos, corais, anémonas e alforrecas até, precisamente, ao ser humano. A história da vida conta-se com todos estes protagonistas e, sem eles, não estaríamos aqui. Houve, portanto, uma necessidade e interacção mútua que nos ligou, auxiliou e nos permitiu sermos assim, tal como somos, e isto nada tem a ver com força. Desde a planta que parece imóvel mas não está, até aos seres que consideramos mais complexos, munidos de inteligência e competência, todos fizeram e fazem parte dos alicerces que nos sustentam. Bastava e basta uma única e ligeira alteração neste percurso e a vida como a conhecemos não seria possível ou seria, decididamente, diferente. 

“A vida no nosso planeta azul” começa pelo início dos inícios e descreve passo a passo como a vida se foi formando, tendo como diretrizes as cinco extinções em massa pelas quais o agora “Planeta Azul” passou. Numa superfície bafejada por metano e rios de lava resultantes de erupções constantes dos vulcões, a vida era impossível neste planeta com 90% da sua superfície coberta por água. O plâncton foi, portanto, o primeiro protagonista, através da fotossíntese, a libertar um subproduto sem o qual não podemos viver, o oxigénio. Isso não só transformou o planeta como permitiu o início da vida animal primitiva que, segundo o documentário, ainda tem semelhanças com o que ainda podemos encontrar no fundo do mar e que, a partir daí, se foi desenvolvendo e fortalecendo em água. Mas, vinte milhões de anos depois, o planeta começou subitamente a arrefecer, devido a uma quebra de 60% do dióxido de carbono. Sem o efeito estufa do respectivo gás, esta foi como que uma primeira idade do gelo, o que levou ao congelamento gradual do mar e das suas espécies. 85% de toda a vida ficou extinta. 

“A vida no nosso planeta azul”

Esta era glacial iria depois findar com um novo aumento de dióxido de carbono na atmosfera, que iniciou o processo de degelo. Mais tarde, no entanto, o mesmo plâncton gerenciador de oxigénio foi o responsável pela segunda extinção em massa. Tudo começou por um aumento exponencial de plâncton causado por uma enorme subida de nutrientes no oceano. O consequente apodrecimento deste mesmo plâncton gerou uma quebra abrupta do oxigénio no mar, o que levou ao perecimento de 80% da vida marinha. Porém, este excessivo aumento de nutrientes que levou a esta segunda extinção em massa, foi provocado pelo surgimento de plantas e o enverdecer da terra. Isto tornaria possível, mais tarde, a que a vida pudesse mudar-se, também, para terra firme. 

Uma terceira extinção em massa viria quando, sob a crosta da então Pangeia, o magma começava a abrir caminho para a sua erupção na superfície. Estas erupções constantes  não terminaram e uma mistura de gases tóxicos na atmosfera desencadeou uma sucessão de chuvas ácidas. Além disso gerou-se um efeito estufa gerado pelo colossal aumento de dióxido de carbono: 90% de toda a vida ficou extinta, sendo a maior extinção em massa de todas. 

A quarta extinção foi igualmente gerada por um outro aquecimento global devido a novas erupções constantes. O aumento da temperatura do mar fez disparar a evaporação oceânica e os ventos de humidade chegaram a alcançar os 300 metros de altitude, o que espoletou chuvas constantes a uma escala bíblica. Foi este também o período que iniciou o movimento de placas tectónicas que iria começar por separar a pangeia. A água oceânica começou por preencher as folhas e novos ecossistemas começaram a ser criados. Esta nova extinção conduziria, depois, ao alvorecer dos dinossauros. A queda do asteroide que findou a sua regência no planeta (sabendo que temos aves que derivam de dinossauros) foi já a 5ª extinção em massa. Mas foi essa mesma extinção que permitiria um novo alvorecer para os mamíferos, depois os primatas e, consequentemente, o Homo Sapiens. 

Temos inteligência, temos consciência do meio que nos envolve mas, acima de tudo, temos uma capacidade extraordinária nunca antes vista de moldar e adaptar o meio-ambiente às nossas necessidades, desejos e critérios: domesticámos os animais, alterámos a fauna, a flora e a paisagem com a agricultura, as caças e pescas. Enquanto uma leoa mata para comer uma presa de cada vez que, depois, acaba por ser partilhada pelo grupo, nós temos a capacidade de o fazer em larga escala, o que torna o impacto de um leão e ser humano no ecossistema incomparáveis. A consciência de nós mesmos e do nosso impacto deu-nos a ilusão de sermos uma carta fora do baralho do restante mundo animal e assim nasceu a soberba de acharmos que éramos especiais e escolhidos por uma qualquer entidade divina. Não podíamos ser animais e tinha de ser o sol a girar em nosso torno, o que fez com que a constatação de que o ser humano era também ele um primata representasse uma grande ferida no nosso orgulho. Quisemos também construir Deus à nossa semelhança e, tal como Nietzsche anunciou matámo-lo, mas mesmo assim, no meio do vazio em que a falta de um “pai” ou presença religiosa deixou e no meio da crise existencial humana por, afinal, ter evoluído tal como as outras espécies e partilhar 99% de ADN com os chimpanzés, não resistimos também à soberba de querermos ser, também nós, Deuses e o resultado está à vista: só 1% mais rico da população mundial tem tanta riqueza como o resto dos 99%. 

“A vida no nosso planeta azul”

A forma como o documentário “A vida no nosso planeta azul” termina é bastante claro: “Apesar de raras, as extinções em massa mudam o curso da história como nenhuma outra coisa. Até agora, a terra sofreu cinco destes eventos apocalípticos, tendo cada um deles eliminado mais de três quartos de toda a vida. Além disso, a espécie dominante que inicia não é a espécie dominante que termina. O impacto de uma extinção em massa não é sentido há 66 milhões de anos. Agora, estamos a caminho da sexta. Só nos últimos 50 anos, as populações de vida selvagem diminuíram, em média, quase 70%. E, desta vez somos nós os responsáveis. E, no entanto, apesar desta previsão sinistra, resta uma esperança.” Será a nossa inteligência capaz de nos salvar? É verdade que somos os primeiros a compreender o que se passa à nossa volta e com a capacidade suficiente para criarmos a melhores soluções. O documentário acaba, por isso mesmo, com uma nota de esperança. Mas há também que relembrar a questão que é colocada no filme “IA Inteligência Artificial”: Qual é a nossa responsabilidade perante as nossas criações? E esta mesma questão não deixa também de ser colocada no livro “Frankenstein” de Mary Shelley. Afinal, o livro é sobre essa mesma questão. As criações podem ser uma mais valia se colocadas à disposição do bem comum, podem salvar e facilitar a nossa vida e têm, até, esta capacidade de encurtar distâncias e distribuir o conhecimento de forma mais acessível.

No entanto, estas mesmas criações podem tornar-se perigosas se a disseminação do conhecimento dado estiver errado, e se uma maior proximidade entre todos servir só para a radicalização de ideias e for mais um mecanismo para se dizer que nós é que somos os certos: se quem estiver atrás das maiores criações que aceleraram o progresso nos últimos 20 anos estiver mais interessado em sinais de discórdia do que de união. No entanto, é verdade, a responsabilidade continua a recair sobre nós, mas será que estamos preparados para perceber que a natureza, aquela que dará sempre a sua resposta final, não é como o Titanic e não oferece barcos salva-vidas VIP? Ou se oferecer, podemos não ser nós a fazer parte dos seus planos? Outra questão: talvez a nossa maldade, propensão para a competição e guerra seja também resultado de um processo evolutivo animal, instintivo e primitivo. Mas se descendemos todos de um antepassado comum, de uma simples célula, porque é que continuamos tão interessados em focar-nos tão somente nas nossas diferenças? Somos todos feitos do mesmo.

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