A vitória de Pirro de António José Seguro

por Rui Maciel,    9 Fevereiro, 2026
A vitória de Pirro de António José Seguro
DR
PUB

António José Seguro (AJS) parte para a Presidência da República com uma tarefa hercúlea: convencer o país de que uma segunda escolha pode, afinal, ser uma boa primeira opção. O mérito da sua vitória é inegável. Soube ler o momento político e navegar com destreza num contexto profundamente adverso à sua área política, a esquerda. Mas é precisamente aí que reside a natureza paradoxal desta eleição: Seguro vence, mas fá-lo num quadro que fragiliza à partida a própria vitória. Esta é, desde o primeiro dia, uma vitória de Pirro. Entra em Belém com pouco capital político próprio, correndo sérios riscos de não ser reeleito nas próximas presidenciais.

Estas eleições foram vencidas num contexto marcado pelas piores votações de sempre da esquerda à esquerda de António José Seguro e pela passagem de um candidato assumidamente iliberal à segunda volta. Os eleitores à esquerda de Seguro convergiram na sua candidatura não por convicção, mas por receio do crescimento da extrema-direita. Do mesmo modo, uma parte significativa do eleitorado de direita apoiou-o na segunda volta não por afinidade política, mas por o reconhecer como o único candidato do espaço democrático em disputa. Ganhar é importante, mas a forma como se ganha também o é. Neste caso, tudo indica que os próximos cinco anos partirão de uma base frágil, reveladora de uma sociedade portuguesa profundamente fragmentada.

A primeira volta foi particularmente reveladora desse quadro. Cerca de dois terços dos votos concentraram-se em quatro candidatos de direita, expondo uma fragmentação que a própria direita passou a experimentar, à semelhança do que a esquerda viveu durante anos quando era maioritária. À esquerda de Seguro, o espaço político revelou-se residual: não ultrapassa os 5%, e Jorge Pinto acabou por ficar atrás de Manuel João Vieira, evidenciando a fragilidade das bases eleitorais do Livre. Seguro conseguiu afirmar-se como um candidato de consenso em ambas as voltas, mas o modelo eleitoral acaba por mascarar uma realidade mais dura: uma sociedade claramente deslocada à direita, na qual cerca de um terço do eleitorado escolhe, na segunda volta, um candidato assumidamente iliberal.

Estas eleições ficaram também marcadas pela irrelevância política da esquerda e pela ausência dos seus temas centrais no debate público. O próprio Presidente-eleito evitou reiteradamente afirmar-se como um candidato de esquerda ou reivindicar a sua herança política socialista. Isso não é irrelevante: temas como a desigualdade, a redistribuição ou os direitos laborais desapareceram quase por completo da campanha. António José Seguro reconheceu esse facto e conduziu, de forma consciente, uma campanha orientada para o centro que o beneficiou eleitoralmente, mas que diz muito sobre o estado atual do panorama político.

É por isso particularmente problemático que alguns setores do Partido Socialista se congratulem com esta vitória como se ela representasse uma afirmação política do centro-esquerda. Seguro não vence por ser de centro-esquerda; vence apesar disso. O que esta eleição demonstra é que, no atual contexto, o centro-esquerda já não disputa a transformação da sociedade. Limita-se a assumir como missão mínima a defesa do regime democrático, abdicando de qualquer ambição programática mais profunda.

Contudo, para mim, essa é precisamente a maldição que acompanha esta vitória. A eleição de um Presidente de centro-esquerda reforça a narrativa de que o “sistema” é dominado pela esquerda, num momento em que o país tem um parlamento determinado a avançar com uma revisão constitucional e com legislação laboral que afronta direitos fundamentais dos trabalhadores. Neste quadro, o Presidente da República surge como o bode expiatório perfeito para tudo o que correr mal. Por mais que António José Seguro procure construir consensos, estes tenderão a fazer-se à direita, colocando-o permanentemente entre a espada e a parede: ou não veta o que a direita aprova e abdica dos seus princípios, ou veta e passa a ser apontado como o bloqueio ao “progresso”. Acredito, por isso, que a sua Presidência será, muito provavelmente, a mais difícil de que há memória neste regime, e terá, nesse desafio, todo o meu apoio.

Faço este diagnóstico não por falta de confiança em Seguro, mas porque uma parte significativa da esquerda parece iludir-se com esta vitória. Confunde a ocupação de um cargo com a afirmação de um projeto político e, ao fazê-lo, arrisca caminhar para a irrelevância, um risco que estas eleições já deixaram perigosamente visível.

Foi no século III antes de Cristo que Pirro, rei do Épiro, terá dito: “Mais uma vitória destas e estou perdido.” É difícil não reconhecer esse aviso no tempo que vivemos. Pela primeira vez, uma eleição foi ganha não por esperança nem por projeto, mas pelo limiar mínimo do aceitável, pelo medo puro e simples da alternativa. Quando uma democracia passa a decidir-se pelo que tolera, e não pelo que deseja, deixa de escolher um futuro e limita-se a adiar o colapso. Esta lógica de sobrevivência pode produzir vitórias momentâneas, mas é o terreno mais fértil para a derrocada do regime. Se este caminho persistir, deixaremos de disputar o rumo do país para nos resignarmos a uma política de contenção de danos, onde votar serve apenas para adiar o pior, até ao dia em que já não seja possível adiá-lo.

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.