“Adolescence”: os desafios de crescer e educar na era digital

por João Estróia Vieira,    18 Março, 2025
“Adolescence”: os desafios de crescer e educar na era digital
“Adolescence”, série criada por Jack Thorne e Stephen Graham (que também a protagoniza)
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Este artigo pode conter spoilers.

“Adolescence” é uma minissérie da Netflix que tem gerado um impacto significativo e promovido o debate desde a sua estreia. Top 1 das séries mais vistas da plataforma, a série criada por Jack Thorne e Stephen Graham (que também a protagoniza), aborda temas contemporâneos e perturbadores, centrando-se na história de Jamie Miller, um adolescente de 13 anos acusado de ter assassinado uma colega de escola. A narrativa explora as complexidades da juventude na era digital, destacando questões como a violência juvenil, a masculinidade tóxica e a influência das redes sociais durante o crescimento dos mais jovens (e não só).

Stephen Graham teve a ideia que o levou a criar esta série após uma série de crimes violentos no Reino Unido entre adolescentes. Um marcou-o em especial, por se ter passado na sua cidade natal de Liverpool, envolvendo na altura um adolescente de 14 anos que esfaqueou mortalmente Ava White, de 12 anos. Essa onda de violência juvenil foi o impulso criativo para a redação e idealização desta angustiante obra divida em quatro partes.

“Adolescence”, série criada por Jack Thorne e Stephen Graham (que também a protagoniza)

Jamie é aqui interpretado pelo estreante Owen Cooper e oferece-nos uma performance intensa e multifacetada, capturando a vulnerabilidade e a inquietação características da adolescência. A criança capaz de um ataque agressivo é também aquela que faz xixi nas calças e tem papel de parede infantil no seu quarto. Uma dicotomia tão necessária à história como para o impacto pretendido. Stephen Graham, que além de co-criador interpreta Eddie Miller, o pai de Jamie, entrega uma atuação marcante enquanto pai de família, transmitindo a angústia de um progenitor confrontado com a realidade devastadora que envolve o seu próprio filho.

O que falhou? Onde falhou? Stephen Graham carrega essas perguntas em forma de cruz num papel de carreira, algo que não deve ser menorizado num actor que não sabe errar, desde os mais recentes “The Virtues” ou “Boiling Point” aos clássicos “Snatch” ou “This is England”, estas são apenas algumas propostas numa carreira recheada de escolhas certas por parte do ator britânico. O elenco de apoio também tem relevante destaque, nomeadamente Ashley Walters (estrela de “Top Boy”) como o detetive Luke Bascombe e Erin Doherty (que com Stephen Graham protagoniza também a recente série “A Thousand Blows”) como a psicóloga Briony Ariston e contribui significativamente para a profundidade emocional da narrativa com um marcante terceiro episódio.

“Adolescence”, série criada por Jack Thorne e Stephen Graham (que também a protagoniza)

A realização de Philip Barantini merece também especial destaque. Optando por filmar cada episódio em plano-sequência, Barantini não usa a técnica unicamente como artífice desnecessário mas sim como parte essencial na criação da sensação de imersão e de urgência que mantém o espectador constantemente envolvido na história, sob pena de algum pormenor se perder. Não há tempo para respirar ou para ir ao telemóvel (terá sido propositado?) fazer o scroll da praxe a que tantos de nós já se habituaram durante o consumo destes produtos. Esta escolha de abordagem técnica não só intensifica a tensão, mas também reflete a natureza ininterrupta e muitas vezes caótica da situação em causa, especialmente no ambiente claustrofóbico familiar, escolar ou policial.

Trata-se de uma série que está consciente das frustrações que deixa em quem a vê. Os diálogos, sobretudo no segundo episódio, roçam o exasperante, de forma a que sejamos confrontados com a dura realidade do que aqui se quer retratar. Os adultos não ouvem os adolescentes e os adolescentes frustram-se. O que nos querem dizer? Que não existe de facto uma escuta ativa por parte de quem os devia ouvir. Que os adultos assumem que sabem todas as respostas sem quererem de facto perceber o que os adolescentes lhes estão a dizer.

Sobretudo, “Adolescence” questiona que tipo de estímulos visuais e que conteúdos consomem os jovens de hoje, mas que em gerações mais velhas eles também já cá estavam. Do estranho segurança do complexo juvenil ao empregado da grande superfície que consome teorias na internet, os adultos também estão estragados, enquanto na adolescência talvez ainda haja esperança.

“Adolescence” serve como um espelho para a sociedade contemporânea, oferecendo uma reflexão profunda sobre os desafios da parentalidade numa era que acontece em grande parte no “digital” e nos comentários nas redes sociais. Estaremos nós aptos para ser pais? Sabemos comunicar com os nossos filhos da melhor forma? A série marca pelas perguntas que deixa e não pelas respostas que dá. É aí que reside o seu grande valor. Em quatro ininterruptos golpes, enfatiza a necessidade urgente dos pais estarem atentos às influências externas que moldam o comportamento e crescimento dos seus filhos. Este urgente fenómeno de audiências é um retrato marcante de como a falta de comunicação e compreensão entre pais e filhos pode levar a consequências trágicas. Nestes nossos tempos é cada vez mais complicado ser-se pai, mas não é mais fácil ser-se criança.

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