Ainda não é o fim do mundo, é apenas um pouco tarde

por Rui Maciel,    29 Agosto, 2025
Ainda não é o fim do mundo, é apenas um pouco tarde

O título desta crónica adapta um excerto de um poema do jornalista e escritor Manuel António Pina (1943 – 2012).

Caminhamos para um mundo novo. Após a invasão russa da Ucrânia em 2022, iniciou-se em 2023 outro conflito que nos devia envergonhar: a invasão da Faixa de Gaza por parte de Israel. Além da resposta desproporcional ao ataque feito pelo Hamas de dia 7 de outubro de 2023, Israel foi além do seu direito de auto-defesa, utilizando este ataque terrorista — que condeno sem reservas — como pretexto para desencadear constantes violações de direitos humanos.

“Atualmente, 147 dos 193 Estados-membros das Nações Unidas reconhecem o Estado Palestiniano — cerca de 75%. Isto significa que apenas o mundo ocidental ainda não o reconheceu.”

Este é um artigo sobre o que se passou sobre depois desse fatídico dia. Dirão que faltará contexto para fazer uma análise do problema. Contudo, o ponto deste artigo não é solucionar o conflito histórico israelo-palestiniano. É afirmar que independentemente de qualquer contexto, matar pessoas à escala a que Israel está a fazer deve ser parado e os países ocidentais, incluindo Portugal, deveriam sentir-se embaraçados por compactuarem com tal acto. 

Muitas vezes utilizam a complexidade do conflito para nos manter em silêncio perante o que se passa. Esse argumento é de quem quer compactuar com o agressor e deseja que nos esqueçamos que existem valores absolutos que são invioláveis em qualquer contexto: os direitos humanos e, principalmente, a vida humana. Por maior justificação que os israelitas pudessem ter, nada justifica matar à fome, milhares de palestinianos, ou matar jornalistas. Porque, além de matar, trata-se da forma como se mata e da escala em que isso está a acontecer.

“Independentemente de qualquer contexto, matar pessoas à escala a que Israel está a fazer deve ser parado e os países ocidentais, incluindo Portugal, deveriam sentir-se embaraçados por compactuarem com tal acto.” 

Israel tinha muitas maneiras de responder ao ataque terrorista desencadeado pelo Hamas. Escolheu a forma mais desumana possível, aplicando de modo hiperbólico a máxima “Olho por olho, dente por dente”. Já morreram pelo menos 60000 civis na faixa de Gaza. Existem outros milhares de feridos, consequência indireta da guerra. A World Food Programme, parte integrante das Nações Unidas, estima que cerca de 300000 crianças estejam subnutridas. Isto contrasta com os 851 mortos no ataque de 7 de outubro, mais os 251 reféns — dos quais 83 já morreram — tomados pelo Hamas. Além disso nas operações militares já morreram mais de 1000 soldados israelitas o que demonstra que Israel leva o seu próprio exército para a morte. Resumindo: a resposta desproporcional arrasta aquele canto do Mediterrâneo para um local só comparável a campos de extermínio nazis ou a gulags soviéticos.

“Existe uma sabotagem contínua do governo israelita para arrastar este conflito, visto que inclusive as famílias dos refugiados pedem uma greve geral para impedir a ocupação de Gaza.”

A União Europeia assistiu, desde o início do conflito, de mãos atadas, sem qualquer tipo de influência diplomática sobre o regime de Netanyahu. A União Europeia rapidamente condenou, e bem, o ataque do Hamas. Mas à medida que o regime israelita escalou a ofensiva, um incómodo gigante tomou Bruxelas, porque houve dois pesos para o que se estava a passar. Embora houvesse condenação dos atos terroristas do Hamas, não houve condenação dos atos equivalentes de Israel, que retaliou de uma forma extraordinariamente severa, como acima descrito. Aliás, somente agora a Alemanha, que era a segunda maior fornecedora de armas de Israel, parou a venda de material bélico.

“Por maior justificação que os israelitas pudessem ter, nada justifica matar à fome, milhares de palestinianos, ou matar jornalistas. Porque, além de matar, trata-se da forma como se mata e da escala em que isso está a acontecer.”

Felizmente, alguns países e diplomatas europeus começaram a mudar de posição. Inclusive dia 7 de Agosto de 2025, a Vice Presidente da Comissão Europeia, Teresa Ribera, afirmou que o que se passava em Gaza, se assemelhava a um genocídio. Desde 2024, Espanha, Noruega, Eslovénia, Irlanda, estão entre os países que reconheceram o Estado da Palestina. França, Malta, Portugal, e o Reino Unido, planeiam fazê-lo em Setembro de 2025, na próxima Assembleia da ONU. A resposta de Israel foi tão desumana que afastou até os seus aliados, o que demonstra a barbaridade da sua conduta. 

Durante todo este conflito, a Europa continua refém dos interesses norte-americanos. Infelizmente perde, no entretanto, muita credibilidade de apregoar uma política externa baseada nos direitos fundamentais. Aliás, perde força na defesa de outros conflitos, como o da Ucrânia, vergando-se a um realpolitik que tem tudo para dar errado, porque a coluna vertebral da política externa europeia é a política externa norte-americana. 

“A resposta desproporcional arrasta aquele canto do Mediterrâneo para um local só comparável a campos de extermínio nazis ou a gulags soviéticos.”

Entendo que esteja a haver hoje um re-equilíbrio de forças a nível internacional, mas não podemos em nome da nossa sobrevivência, sacrificar o projeto Europeu ou quem queremos que a União Europeia seja. Ora ao apoiarmos um país que está a cometer as atrocidades que Israel está a fazer, é pôr em causa o nosso propósito. É necessário que a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia seja o vento orientador da política externa da União e que essa mesmo seja exaltada para que inspire os próprios cidadãos da União Europeia a defendê-la. Mas mais do que anunciar princípios, é preciso agir de acordo com eles.

Naturalmente, existem muitos desafios para tal. É necessário desligar-se dos Estados Unidos da América a nível de defesa, fortalecendo os laços europeus no setor do armamento, para que, aí sim, a Europa possa ganhar força à mesa das negociações. Em conflitos como este, é fundamental mostrar que a Europa pode ser uma força de mediação. É imperativo não compactuar com violações de direitos humanos, se queremos ganhar credibilidade no mundo. E não nos esqueçamos de que, atualmente, 147 dos 193 Estados-membros das Nações Unidas reconhecem o Estado Palestiniano — cerca de 75%. Isto significa que apenas o mundo ocidental ainda não o reconheceu.

“A Europa continua refém dos interesses norte-americanos. Infelizmente perde, no entretanto, muita credibilidade de apregoar uma política externa baseada nos direitos fundamentais.”

Recuso-me a viver num mundo no qual não existe qualquer tipo de regra humanitária. Fazer um cerco a uma área, barrar as entradas de ajuda humanitária e de jornalistas — até mesmo a enviada pelas Nações Unidas — e bombardear continuamente filas de pessoas que tentam obter comida é um crime contra a Humanidade e contra a ordem internacional. Existe uma sabotagem contínua do governo israelita para arrastar este conflito, visto que inclusive as famílias dos refugiados pedem uma greve geral para impedir a ocupação de Gaza. Israel deve pôr fim imediato às hostilidades, deixar a ajuda humanitária entrar, e empoderar a Autoridade Palestiniana para poder governar os seus territórios. A União Europeia pode ser um desbloqueador do conflito ao fazer com que Israel tome uma via de coexistência pacífica com o estado palestiniano, começando desde já por cessar o consentimento diplomático a esta guerra. É imperativo acabar com o que está a ser feito em Gaza. Só assim, será possível sonhar o conceito de Humanidade novamente. 

Sugestões do cronista:

Périplo, escrito por Miguel Portas, com fotografias de Camilo Azevedo, é uma obra-prima da literatura portuguesa. Começa como um périplo físico e termina como um périplo existencial. A cada momento da viagem, questões geopolíticas e filosóficas são encadeadas num português sublime, de fazer inveja a Camões e a Pessoa. Nunca tinha lido reflexões tão boas sobre o uso do véu, o nascimento do Estado de Israel, as razões pelas quais viajamos, o porquê da existência das religiões ou o nascimento das civilizações, enquanto se narra a beleza do Mediterrâneo. Nunca procura convencer-nos de algo, mas sim levar-nos a questionar. É um livro de histórias, de contos, de reflexões, de política. Tudo num livro que é, simplesmente, uma viagem pelo Mediterrâneo. Mais uma vez, agradeço à RTP, que na altura apoiou a produção deste livro e documentário — serviço público no seu melhor.

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