Álbum “Mulheres de Abril”, de Cristina Branco, vence Prémio José Afonso
O álbum “Mulheres de Abril” (2025), de Cristina Branco, venceu o Prémio José Afonso, anunciou hoje a Câmara da Amadora, que promove o galardão, já na sua 38.ª edição.
O júri “decidiu atribuir, por unanimidade, o Prémio José Afonso/2026 ao álbum ‘Mulheres de Abril’, de Cristina Branco”, afirma a edilidade em comunicado.
Presidido pelo compositor Sérgio Azevedo, em representação da Câmara Municipal da Amadora, o júri foi constituído também pelo compositor Pedro Teixeira da Silva, em representação do Teatro Nacional de São Carlos, e emmy Curl, vencedora, no ano passado, deste galardão.
“Mulheres de Abril” e “O Rapaz da Montanha”, de Rodrigo Leão, foram os álbuns finalistas, adiantou a mesma fonte.
“O júri considerou que ‘a recriação da artista dos temas de José Afonso resultou numa homenagem ímpar, que não só não desvirtua os originais como lhes imprime uma camada de originalidade e de frescura que transporta José Afonso para os dias de hoje de forma exemplar’”.
Segundo os jurados, “quase 40 anos após a morte de José Afonso, esta é uma das provas mais evidentes de como a sua música e exemplo continuam a inspirar as novas gerações de artistas, artistas vindos das mais variadas áreas musicais e adeptos das mais variadas correntes estéticas”.
Em outubro do ano passado, em entrevista à agência Lusa, sobre este álbum, Cristina Branco afirmou que gravar canções de José Afonso (1929-1987) “é quase um dever cívico”, tendo escolhido “temas fraturantes com mulheres dentro”.
“Não sendo eu uma compositora, nem autora de letras, senti necessidade de dizer que alguma coisa está mal” nos tempos que correm, afirmou.
A prioridade foi a necessidade de “civicamente dizer alguma coisa”: “E eu faço-o através da música do Zeca [Afonso]. De alguma forma, é a minha voz”, garantiu a cantora.
O álbum “Mulheres de Abril” é constituído por oito canções, todas compostas por José Afonso, seis delas também com líricas de sua autoria e duas sobre poemas de Luís de Camões (1524-1580), “Endechas a Bárbara Escrava” e “Verdes São os Campos”, que a cantora já tinha gravado no seu primeiro álbum, “Cristina Branco in Holland” (1997).
Do alinhamento fazem igualmente parte “Canção do Desterro”, “Mulher da Erva”, “Teresa Torga”, “Verdade e Mentira”, “Canção da Paciência” e “De Não Saber o que me Espera”.
A cantora sublinhou, nessa entrevista, o “preocupante atual estado da nação” e o dever de o artista alertar.
“Se temos uma voz, um palco, um público, por que não? Aliás, seria quase estranho não o fazer, digo eu. Acho que esse é o papel da cultura, o papel do músico”, argumentou.
Cristina Branco disse à Lusa que “o país vai mal”. “Esteve num torpor e de repente há uma série de coisas que estão a acontecer à frente dos nossos olhos, que estamos a permitir; há avanços em coisas que achávamos que eram conquistas da liberdade e que afinal já não são, há retrocessos imensos, há muita coisa para fazer; e eu acho que a música e a cultura têm um papel fundamental, pelo menos para despertar algumas pessoas que possam estar mais adormecidas”.
“Mulheres, por favor acordem”, exortou a cantora, referindo que “há um acordar”, nomeadamente das gerações mais novas e citou a sua filha: “Já são mulheres muito mais capazes de dizer não e ter uma voz ativa”, afirmou reconhecendo que a sua geração “ainda pensa como a dos [seus] pais”.
