Anda comigo ver os Shaheds

por Francisco Cordeiro de Araújo,    2 Março, 2026
Anda comigo ver os Shaheds
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Francisco Cordeiro de Araújo está em Kiev, na Ucrânia.

Shaheds. Podiam ser uma banda em Paredes de Coura ou um poster na parede que se decora, mas são os drones que se ouvem sem fones por estas bandas. O som não é de Rock Alternativo, é uma Chaga que sem alternativa ouvimos dizer.

Estes drones não são daqueles que filmam 4K para os reels do Instagram, são aqueles que aparecem no mapa quando nos avisam pelo telegram. O próprio ícone desta app icónica até se assemelha ao seu formato, e as mentes destas gentes já estão formatadas para automaticamente aceder aos seus canais, que avisam por onde estes drones andam a rasgar as nuvens, antes de se tornarem fumo e fogo.

Os Shaheds parecem pássaros de voo firme, são mais comuns de avistar nestas andanças do que um Condor nos Andes. São, na verdade, uma autêntica operação Condor diária que procura intimidar, oprimir e aterrorizar as famílias ucranianas. São Kamikazes não pilotados que se reproduzem aos milhares para se imolar e emular outro armamento. Voam em bando com outros mísseis e drones com nome de banda. Iskander, Khinzal, Zircon e outros também são cabeças de cartaz cujo som horrendo não sai da cabeça dos ucranianos e até os adolescentes conhecem.

São quatro da manhã e o alerta só diz “go, go, go” “to the shelter. Your overconfidence is your weakness”. Lá fora os alarmes soam pelas ruas, cá dentro confesso às paredes que temo que não me protejam. Nestas alturas, estar à janela do quarto só de terço, porque o vidro duplo pode virar o dobro do estilhaço. O cabelo não está à lua, mas os olhos estão no céu. 

Olho para o telemóvel e sobressai uma mensagem preocupada “protege-te, eles estão a atacar”, retribuo a preocupação. Já se falava que poderia ser esta outra noite de ataques massivos, mais uma entre tantas. Nos canais que canalizam informações e emoções, as missivas anunciam os mísseis balísticos lançados. Poucos segundos depois, oiço quatro explosões seguidas. 

Não sigo a conduta do Hélder Conduto, não me meto aos gritos, mas também eu “estou arrepiado”. Não vemos a Luz, mas sentimos o inferno. Não queremos ir para a barca, mas também não há tempo para ir para o Bunker, o público que é o Metro a alguns metros. Neste prédio não há o luxo do gerador ou do abrigo. Fazemos o que se recomenda, saímos não alegres da nossa casinha e descemos ao modesto primeiro andar. 

Aqui o valor já não se conta do céu. Os andares com melhor vista, tornam agora cada inquilino alpinista. Sem energia não há elevador. Os drones voam a baixa altitude, quanto mais baixo o andar, mais fácil evacuar. Mas nenhum andar está blindado, os drones e mísseis arrancam como gavetas as paredes caiadas, que ficam caídas em destroços. No Natal já vi essa imagem marcante de um buraco de três andares no meio de um prédio de quinze, provocado por um Shahed que tirou a vida a um homem de setenta. Agora, o desejo no sapatinho é que não se bata a bota. 

Os atacadores das minhas ainda estão desapertados, perante o aperto da pressa. Pressa que dá lugar à paciência. Aguardo no primeiro andar que passem as explosões. Quando as primeiras param por momentos, oiço a fechadura de uma porta que se destranca. Uma senhora idosa, a seu tempo e passo, com uma mala com tudo o que necessita na mão, prepara-se para sair. Não vai ao café comprar uma raspadinha, vai para o abrigo para não abusar da sorte. 

Decido fazer-lhe companhia nesta jornada, vamos de mão dada pelo gelo para não escorregar. Com a cadência possível chegamos ao Metro. Neste inverno já tinha passado longas noites no Metro, mas não nesta estação. O meu recorde foram 10 horas seguidas durante os ataques massivos de 27 de dezembro, que se puderam observar do espaço. Quando éramos miúdos contávamos quanto tempo aguentávamos debaixo de água, agora contamos o tempo debaixo de terra, para que essa eternidade não seja realidade.

O frio e a curiosidade não nos deixam dormir, vamos gerindo a bateria e a energia, enviando um simples sinal de segurança “+” a cada amigo na região, sem resistir à tentação de acompanhar pelo telegram os ataques e as primeiras imagens. Não é um filme que se vive aqui, é uma série e este é mais um episódio. Não são apenas “50 Shaheds of Grey”, são 200 que assombram a noite, a que se somam muitos mísseis e outros drones enviados de várias localidades russas e territórios ocupados. 

Ao meu lado, estão pessoas de todas as gerações e até animais de estimação. Alguns até trazem sacos de cama, porque sabem que o dia seguinte é de trabalho. Uns de pijama, outros prontos para o seu emprego, temendo não ter tempo de voltar a casa. Quatro horas passam, os ataques só terminam pela manhã. Isto não é a crónica de um dia ou de mais uma noite em branco, é o negro quotidiano ucraniano.

Os ataques fizeram estragos que a luz do dia põe a claro o que não renasce das chamas.  Visito duas casas totalmente destruídas na capital, rodeadas de tantas outras danificadas, sem telhados e janelas. À frente de uma casa totalmente em ruínas, encontro o seu proprietário, um homem de 37 anos de pernas partidas e vida quebrada, que vivia com a mulher, a sua mãe e uma filha de 4 meses. 

Felizmente, todos sobreviveram. Conta-me que acordaram debaixo de destroços, que alguém, que nem sabe quem, os salvou. Foram levados para diferentes hospitais. Hoje veste roupas que não são suas, não sabe quando voltará a ter uma casa e aguarda que cheguem as autoridades que irão recolher provas dos crimes de Guerra. Tem muitas dúvidas, mas uma certeza. Os culpados nunca se sentarão num tribunal em Haia, não haverá justiça e responsabilização.

A impunidade reina na desordem global, e esmaga o Direito Internacional. Os drones e mísseis continuam a voar alto e quando descem continuam acima da Lei. O povo sofre por quem ordena estes ataques mesmo dentro da cidade, e por quem faz parte de um sistema de cumplicidade. Os Shaheds não russos, são iranianos, o nome remete-nos para testemunha e mártir. Os iranianos não têm falta de Shah, são um povo corajoso e historicamente muito educado, mas sufocado por um regime de fanáticos. O regime dos Ayatollahs não é testemunha na terra de uma entidade divina, é o agente de crimes infernais até contra a sua população. 

O Irão não é um mero aliado da Rússia, é o cúmplice de uma agressão. Os Shaheds são uma das armas mais usadas pelo Kremlin, preenchendo todos os dias os céus ucranianos. Cerca de 5 mil destes drones são produzidos todos os meses, a elevada escala de produção baixou ainda mais os custos, tornando mais “barata” e perigosa a Guerra. A China e a Coreia do Norte colaboram neste esforço, e pequenos componentes europeus e norte-americanos foram encontrados nestes dispositivos, contornando as sanções por via de países terceiros.

Os Shaheds não são apenas o tormento da Ucrânia, são o exemplo de como a guerra se transforma em todas as latitudes, onde os drones matam mais que as balas. Crescemos com a ilusão de que com a nossa geração a tecnologia seria aplicada para salvar vidas e não destruir a nossa espécie, que não abandonou os seus instintos primitivos.

Lembro-me que sonhávamos descobrir a cura para o cancro, para que aquele tio ou avó não morresse. Acordámos sem nos livrarmos do cancro da Guerra, que se espalha de forma fatal, levando filhos e destruindo o futuro de povos. Nesta distopia concretizada, o videojogo colocou a vida em jogo nas mãos que seguram um joystick na alegria da distância. Os nossos avós foram soldados, os nossos netos serão gamers da guerra. Nunca foi tão difícil viver com a certeza de que é tão fácil matar.

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